Você está aqui: Página Inicial / Sustentabilidade / Após ataques, índios seguem desaparecidos em MS

sustentabilidade

Após ataques, índios seguem desaparecidos em MS

por Redação Carta Capital — publicado 19/11/2011 10h40, última modificação 20/11/2011 12h59
A ação de pistoleiros matou o cacique Nísio Gomes com tiros de calibre 12 em acampamento de índios kaiowá-guarani
cacique

O cacique Nisio Gomes, antes de ser assassinado em aldeia no MS. Foto: Cimi

Pelo menos três índios kaiowá-guarani estão desaparecidos desde a invasão promovida por 40 pistoleiros ao acampamento Tekoha Guaiviry, na manhã de sexta-feira 18, e que resultou na morte, com tiros de calibre 12, do cacique Nísio Gomes, 59 anos. A comunidade fica entre os municípios de Amambai e Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul.

As informações são do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). A principal hipótese até agora é que eles tenham se perdido durante a fuga. Sete mulheres indígenas disseram ao órgão que fugiram pela mata e chegaram aos municípios de Amambai e Ponta Porã e que, durante a correria, três jovens, entre 14 e 16 anos, teriam sido baleados – um deles está hospitalizado e os outros, desaparecidos.

“A gente não sabe se os dois desaparecidos estão mortos ou se foram sequestrados pelos pistoleiros, mas a certeza é de que foram atingidos e caíram”, disse uma das indígenas. Dos 12 indígenas que fugiram durante os disparos, cinco ficaram para trás, segundo o relato. Uma mulher e uma criança também estavam desaparecidas desde o atentado, conforme relatos ouvidos pelo Ministério Público federal (MPF), que investiga o caso. No sábado, a comunidade encontrou a criança, conhecida como Nenein (diminutivo de nenê, em guarani), de apenas 5 anos, em meio às 150 pessoas que retornavam ao local.

Uma perícia feita pelo MPF constatou marcas de sangue em uma área que confirma a suspeita de que ao menos um corpo foi arrastado pela região. Além do MPF, a Polícia Federal, integrantes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e conselho Aty Guassu (Grande Assembleia Guarani), Fundação Nacional do Índio (Funai) também estiveram no acampamento após o ataque.

“Estavam todos de máscaras, com jaquetas escuras. Chegaram ao acampamento e pediram para todos irem para o chão. Portavam armas calibre 12”, disse ao Cimi um indígena da comunidade que presenciou o ataque e terá sua identidade preservada por motivos de segurança.

Conforme relato do indígena, o cacique foi executado com tiros na cabeça, no peito, nos braços e nas pernas. “Chegaram para matar nosso cacique”, afirmou. O filho de Nísio tentou impedir o assassinato do pai, segundo o indígena, e se atirou sobre um dos pistoleiros. Bateram no rapaz, mas ele não desistiu. Só o pararam com um tiro de borracha no peito.

O corpo do cacique assassinado foi levado pelos pistoleiros – uma prática que, segundo o Cimi, já havia ocorrido em outros massacres cometidos contra os Kaiowá Guarani.  Em 2007, segundo o movimento Aty Guasu, durante ataque semelhante ao de sexta que resultou no assassinato da xamã Xurite Lopes, na área conhecida como Kurusu Amba, em Coronel Sapucaia, duas crianças foram levadas pelo grupo de pistoleiros e abandonadas no centro da cidade de Amambai.

Segundo divulgado ontem pelo Conselho da Aty Guasu, movimento político guarani-kaiowá, antes de morrer o cacique pediu à comunidade: “Vocês não deixem esse lugar.  Cuidem com coragem essa terra. Essa terra é nossa. Ninguém vai tirar vocês...Cuidem bem de minha neta e de todas as crianças. Essa terra deixo na  tua mão. Guaiviry já é terra Indígena”.

Desde o dia 1º deste mês os indígenas ocupam um pedaço de terra entre as fazendas Chimarrão, Querência Nativa e Ouro Verde – instaladas em Território Indígena de ocupação tradicional dos Kaiowá.

Segundo o Cimi, a ação dos pistoleiros contou com por cerca de uma dezena de caminhonetes – marcas Hilux e S-10 nas cores preta, vermelha e verde.

“O povo continua no acampamento, nós vamos morrer tudo aqui mesmo. Não vamos sair do nosso tekoha”, afirmou um indígena. Ele disse ainda que a comunidade deseja enterrar o cacique na terra pela qual a liderança lutou a vida inteira. “Ele está morto. Não é possível que tenha sobrevivido com tiros na cabeça e por todo o corpo”, lamentou.

A comunidade vivia na beira de uma Rodovia Estadual antes da ocupação do pedaço de terra no tekoha Kaiowá.

Conforme recente publicação do Conselho sobre a violência pratica contra os povos indígenas do MS nos últimos oito anos, no estado está concentrada a maior quantidade de acampamentos indígenas do País, 31 - há dois anos, em 2009, eram 22.

São mais de 1200 famílias vivendo em condições degradantes à beira de rodovias ou sitiadas em fazendas. Expostas a violências diversas, as comunidades veem suas crianças sofrerem com a desnutrição – os casos somam 4 mil nos últimos oito anos - e longe do território tradicional.

Atualmente, 98% da população originária do estado vivem efetivamente em menos de 75 mil hectares, ou seja, 0,2% do território estadual. Em dados comparativos, cerca de 70 mil cabeças de gado, das mais de 22,3 milhões que o estado possui, ocupam área equivalente as que estão efetivamente na posse dos indígenas hoje.

Com relatório em fase de conclusão pela Funai, a área ocupada pela comunidade está em processo de identificação desde 2008. Por conta disso, o ataque tem como principal causa o conflito pela posse do território. A região do ataque fica a meia hora da fronteira com o Paraguai.

*Com informações do repórter Spensy Pimentel e do  Conselho Indigenista Missionário