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Amazônia: aprendendo com a história recente

por Coluna do Leitor — publicado 28/12/2010 10h08, última modificação 28/12/2010 10h08
Aluizio Belisário, nosso leitor, apresenta um reflexão sobre o extrativismo Amazônico e traça um paralelo com a história econômica do ocidente

Por Aluizio Belisário*
Contribuindo para os debates promovidos pela Carta-Verde sobre a Amazônia no Século XXI, este texto apresenta uma breve reflexão sobre a história recente do extrativismo na Amazônia, com uma visão distinta da abordagem ambiental, fazendo um paralelo com a história econômica do ocidente.
O processo pelo qual passaram os moradores das áreas extrativistas é semelhante ao vivido pela sociedade ocidental a partir do feudalismo, com uma diferença fundamental entre os dois: se no primeiro, o processo de organização do trabalho caracterizou-se como desagregador, extraindo os conhecimentos do trabalhador, transformando-o quase em um robô, repetidor de tarefas simplificadas; o mesmo processo nas regiões extrativistas caracterizou-se pelo oposto, ou seja, pela agregação.
Enquanto a indústria capitalista moderna se baseou em um processo de divisão e fragmentação do Trabalho e desagregação comunitária, onde além da extração do conhecimento, se tratou de criar sistemas de competição individual, destroçando valores coletivos, em nome da construção de uma ética individual de busca de resultados; nas regiões extrativistas o processo conduziu os indivíduos, do isolamento social à construção de comunidades cooperativas, realçando os valores coletivos.
De modo semelhante ao restante da sociedade ocidental, as relações de produção nestas regiões se caracterizavam como relações de “tipo feudal”: o seringueiro se submetia a trabalhar para o proprietário do seringal em troca de local de moradia e da entrega de sua produção para os armazéns do “patrão”, onde recebia mantimentos necessários à sua sobrevivência. Esta troca da produção pelos mantimentos necessários se fazia de modo que o extrativista se via cada vez mais aprisionado pelas dívidas contraídas com o armazém, acabando por se caracterizar quase como mão-de-obra escrava.
Era comum nesta época, que o seringueiro que produzisse uma quantidade menor que a que dele se exigia, fosse assassinado por ordens do patrão ou seringalista, o mesmo ocorrendo se produzisse além do que se esperava – no primeiro caso a eliminação era exemplar e visava punir o indivíduo que trabalhasse num ritmo inferior ao imposto pelos patrões; no segundo caso, o objetivo era impedir a independência do seringueiro em relação ao armazém do patrão.
Ao longo do tempo o fato dos extrativistas viverem isolados no interior da floresta, distante das sedes dos seringais, permitiu que um novo elemento se interpusesse entre ele e o seringalista: o marreteiro. Nesta fase, de isolamento, as relações comerciais dos extrativistas se davam quase que exclusivamente com o patrão ou com o marreteiro, atuando este último, como um “atravessador” que, sabedor das dificuldades de locomoção do extrativista, adquiria sua produção em sua própria área de moradia, naturalmente por um preço muito inferior ao que conseguiria do patrão ou do mercado nas cidades mais próximas, sendo comum que o marreteiro se tornasse credor do extrativista, de modo semelhante ao que aconteceu no feudalismo, a partir da ação dos mercadores.
A chegada de mais gente na região levou ao estabelecimento de um incipiente sistema de “Comercialização de Vizinhança” – quase na base do escambo - sempre entremeado pela ação dos marreteiros, cada vez mais ousados em suas investidas nos negócios dos seringalistas.
A partir da ação de algumas lideranças, baseadas nas pequenas comunidades que se formaram na floresta surgiram as Cantinas, pequenos entrepostos comerciais operados pelos próprios extrativistas, voltadas principalmente para a venda de produtos industrializados para os extrativistas, na maior parte das vezes em sistema de escambo (mercadorias da cidade em troca de produtos do extrativismo), sendo natural que isto reduzisse drasticamente a ação dos marreteiros, introduzindo mais sistematicamente a ideia de associativismo entre os extrativistas.
A história destas Cantinas não é muito feliz, pois por uma série de motivos, quase todas, em pouco tempo, se viram em sérias dificuldades financeiras, sendo incapazes de prosseguir com a comercialização no interior da floresta, abrindo novos espaços para os marreteiros que ganharam um crédito de confiança dos extrativistas e frearam o movimento associativista que, entretanto, acaba avançando, em busca do fortalecimento das Cantinas, que passam a quase ser confundidas com as Associações, fruto da luta das principais lideranças extrativistas, responsáveis ainda pela criação das primeiras organizações de cunho regional englobando a população que vivia do extrativismo.
Devido aos avanços nas lutas dos extrativistas em defesa da floresta e a mobilização que estas lutas promovem, algumas Cantinas Centrais evoluem e passam a constituir “Sub-Cantinas” em regiões mais distantes e de difícil acesso, levando a comercialização para o interior da floresta, pondo fim à ação dos marreteiros. Infelizmente, ainda pelas mesmas razões anteriores, as Cantinas e “Sub-Cantinas” vão se fechando aos poucos, por falta de capital de giro, ou mesmo de mercado para comercialização dos produtos oriundos do extrativismo, dando uma sobrevida aos marreteiros.
Em função das lutas travadas pelas principais lideranças regionais, com destaque para Chico Mendes em Xapuri/Acre, surgem as primeiras “Cooperativas de Produção”, iniciando um processo de industrialização, através do beneficiamento, ainda primário, de produtos da floresta.
É inegável a mobilização conseguida nas regiões extrativistas a partir do surgimento destas Cooperativas. Uma injeção de ânimo foi dada nos extrativistas que se tornam membros das Cooperativas, em busca de um melhor preço para seus produtos e uma relação de troca mais favorável, com os produtos industrializados. Embora ainda recente, é possível vislumbrar-se a formação de Federações de Cooperativas e/ou Associações, de modo a garantir uma relação mais positiva com o mercado externo (compradores de produtos oriundos do extrativismo).
Neste meio tempo é importante que se ressalte a ação governamental de criação das Reservas Extrativistas que, entre outras coisas, garantiu os direitos dos seringueiros de as gerirem autonomamente através de suas Associações.
É importante se observar que embora o processo de desenvolvimento das regiões em que a economia extrativista é predominante se revista de características agregadoras, na verdade o que ocorre com estas regiões é um processo de evolução do feudalismo ao capitalismo industrial, como já ocorreu com outras regiões do mundo no século passado, com o agravante de que estes grupos já encontram um capitalismo desenvolvido e pronto para “engolir” os novos industriais.
Embora haja uma série de outros aspectos a considerar em um debate sobre os destinos da Amazônia no Século XXI, creio que o conhecimento mais detalhado desta história recente dos seringueiros ou extrativistas, envolvendo não apenas os aspectos econômicos e ambientais, mas também e principalmente, aspectos comportamentais, sociais e políticos, pode ser de extrema valia para que se elaborem propostas que, ainda que fortemente voltadas para a preservação ambiental, compreendam as necessidades históricas dos residentes da região, sujeitos imediatos destas ações.
*Aluizio Belisário é Professor Adjunto da UERJ. Doutor em Educação-PROPED/UERJ, Mestre e Bacharel em Administração Pública-EBAPE/FGV.