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Energia

A 'Arábia verde' acorda no canavial

por Gerson Freitas Jr — publicado 17/08/2010 15h32, última modificação 19/08/2010 17h25
Com tímidos avanços nas pesquisas e na abertura de novos mercados, o Brasil vê os estrangeiros engolirem as empresas de capital nacional
A 'Arábia verde' acorda no canavial

Com tímidos avanços nas pesquisas e na abertura de novos mercados, o Brasil vê os estrangeiros engolirem as empresas de capital nacional. Foto: Andre Penner/AP

Em 1859, o ex-maquinista Edwin Drake entrava para a história ao perfurar o primeiro poço de petróleo, na Pensilvânia, com uma produção de apenas 19 barris por dia. Poucos anos depois, os Estados Unidos possuíam mais de 500 companhias dedicadas a uma indústria que mudaria o curso da humanidade. O petróleo tornou-se o principal item da matriz energética mundial, alicerçou o desenvolvimento capitalista e produziu algumas das companhias mais poderosas do planeta. Mais do que isso, influenciou de modo decisivo as relações geopolíticas do século XX, determinando o equilíbrio de forças entre as nações.

O então presidente George W. Bush não exagerou quando afirmou, em 2008, que os Estados Unidos são um país “viciado em petróleo”. De fato, todo o mundo tornou-se dependente de um combustível finito e altamente poluente. Se gerou riquezas numa escala sem precedentes, o petróleo também motivou guerras e acelerou o processo de aquecimento global, colocando em risco vários ecossistemas do planeta.

A chamada “Era do Petróleo” ainda não acabou. Ao menos do ponto de vista de sua preponderância na matriz energética- mundial. Basta dizer que, na Europa e nos Estados Unidos, mais de 90% da frota de carros ainda é movida a diesel ou gasolina. Não restam dúvidas, porém, de que o mundo caminha rumo a uma matriz mais diversificada, limpa e, sobretudo, renovável. A busca por tecnologias que atendam a esses requisitos mobiliza governos e abastece os sonhos de quem acredita ser parte da solução. É o caso do Brasil, que alimenta a expectativa de se transformar no principal exportador mundial de biocombustíveis. Os combustíveis produzidos a partir de biomassas são, atualmente, a principal alternativa aos derivados de petróleo. Mas é preciso se perguntar: que papel, de fato, o País vai desempenhar na era da energia renovável?

A história dos biocombustíveis no Brasil começou há 40 anos, com as duas- grandes crises do petróleo. Assolado pelo cenário internacional, que lançou às alturas o preço do barril, o ditador Ernesto Geisel adotou medidas drásticas para racionar o consumo. Ao mesmo tempo, colocou em marcha um projeto ambicioso de substituição da gasolina pelo etanol de cana-de-açúcar.

Criado pelo governo em 1975, o Pro-àlcool cumpriu o propósito inicial de deixar o Brasil menos dependente do petróleo, o que proporcionou enormes ganhos econômicos, ambientais e tecnológicos. Em 25 anos, o País deixou de gastar mais de 11 bilhões de dólares com a chamada “Conta Petróleo”, dispensou o uso do chumbo para regular a octanagem da gasolina e reduziu as emissões de carbono em mais de 100 milhões de toneladas. De quebra, desenvolveu a tecnologia do motor movido a álcool. O modelo foi praticamente abandonado no início dos anos 90, com a queda dos preços do petróleo. No entanto, a experiência serviu como base para uma nova geração de motores, os chamados flex-fuel, que funcionam tanto com álcool quanto com gasolina. O lançamento dos carros flex, em 2003, inaugura a segunda fase de expansão do etanol no Brasil. Em apenas sete anos, a produção do biocombustível mais que dobrou – de 12,6 bilhões para 25,7 bilhões de litros, segundo dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica). A previsão é de que o setor vai precisar acrescentar mais 27 bilhões de litros à produção anual até 2020, apenas para atender à demanda doméstica.

Mas a grande ambição dos usineiros é o mercado externo, a possibilidade de transformar o País no maior exportador -mundial de álcool de cana-de-açúcar. Nos últimos anos, o governo e a iniciativa privada promoveram diversas missões internacionais e abriram escritórios no exterior com o objetivo de promover o combustível brasileiro ao redor do globo e cavar acordos comerciais – sem muito sucesso, diga-se de passagem. O cenário encontrado mostra que, apesar do imenso potencial, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer para alcançar esse objetivo.

Em primeiro lugar, é preciso criar um mercado. Hoje, os Estados Unidos e o Brasil fabricam e consomem quase 90% da produção mundial de etanol. Embora, aproximadamente, 120 países cultivem cana-de-açúcar, apenas dez produzem etanol. Segundo especialistas, o álcool dificilmente vai se transformar em uma commodity internacional, a menos que outras nações comecem a produzir excedentes exportáveis. “O governo do Japão sempre nos disse que não trocaria a dependência em relação aos 20 países produtores de petróleo para depender de um único país produtor de etanol. Por isso, passamos a trabalhar com eles no sentido de estimular o plantio de cana na Ásia”, afirma Roberto Rodrigues, ministro da Agricultura durante o primeiro mandato do governo Lula.

A constatação derruba um mito propagado no Brasil e até no exterior – a de que o País pode se transformar na “Arábia Saudita verde” nas próximas décadas. A tendência, segundo especialistas, é de que as energias de biomassa sejam diversificadas, de acordo com realidades regionais. “Para ser a Arábia Saudita, é preciso estar sentado em cima de um produto finito e que poucos possuam, de modo que se possa controlar os preços. Mais de uma centena de países poderão ser exportadores de etanol. O mundo dos biocombustíveis será muito mais democrático do que o do petróleo”, afirma Marcos Jank, presidente da Unica.

Será preciso ainda derrubar as barreiras comerciais ao biocombustível brasileiro. Atualmente, os Estados Unidos cobram uma taxa de 14,3 centavos de dólar sobre o litro de etanol importado. Na União Europeia, a tarifa é de 19,2 centavos de euro por litro. Japão e Coreia do Sul sobretaxam as importações em 27% e 30%, respectivamente. As importações de petróleo e derivados não enfrentam barreiras. “Ainda impera no mundo a visão do pós-Segunda Guerra Mundial, que é a da segurança alimentar. Essa visão orientou toda a política agrícola nas últimas décadas e acabou por balizar também a questão do etanol combustível”, observa Luiz Corrêa Carvalho, vice-presidente da Associação Brasileira do Agribusiness (Abag). Os pesados -lobbies dos produtores agrícolas também dificultam a queda das barreiras.

Nos Estados Unidos, a tarifa sobre a importação de etanol expira em 31 de dezembro. O Congresso norte-americano discute- a possibilidade de renová-la, como fez sistematicamente ao longo dos últimos 30 anos. Jank acredita que, desta vez, a história possa ser diferente. “Os jornais americanos têm publicado editoriais pesadíssimos contra a cobrança. Para eles, chegou a hora de o etanol de milho competir abertamente com o de outros países.” Segundo o presidente da Unica, as indústrias de alimentos, insatisfeitas com o salto nos preços do milho, fazem pressão pela mudança.

Mesmo se a tarifa for mantida pelos próximos anos, é quase certo que o Brasil vá se tornar um exportador de etanol para os norte-americanos. A lei dos combustíveis renováveis, assinada em 2007 pelo presidente Bush, estabelece metas crescentes e obrigatórias para a mistura do etanol na gasolina. O país já é o maior produtor mundial de etanol, com um volume estimado em 45,4 bilhões de litros para 2010. Até 2022, o volume será triplicado. Mas o mandato estabelece que o uso de etanol convencional, produzido a partir do milho, não poderá passar de 57 bilhões de litros, limite que deve ser atingido nos próximos cinco anos. A partir daí, a meta terá de ser cumprida com a mistura de etanol avançado, capaz de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em ao menos 50% em relação à gasolina. O etanol de milho reduz a emissão em apenas 21%.

No ano passado, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos Estados Unidos concluiu que o etanol brasileiro – já colocado no mercado americano – reduz as emissões em 61%. Por isso, passou a ser classificado internacionalmente como um “biocombustível avançado”. A lei americana estabelece que o país terá de adicionar, aproximadamente, 75 bilhões de etanol avançado à sua gasolina até 2022. Desse total, 60 bilhões deverão ser de etanol celulósico, ou de segunda geração. Aos combustíveis avançados convencionais, como o etanol de cana-de-açúcar, restará um mercado anual de 15 bilhões de litros. É esse espaço, nada desprezível, que o Brasil vai tentar ocupar nos próximos anos. “Não temos a menor pretensão de dominar o mercado americano. Vamos chegar a 10%, se tanto. Trata-se, porém, de um mercado imenso”, afirma Jank. Atualmente, os Estados Unidos consomem 520 bilhões de litros de gasolina.

Apesar de toda sua tradição, o Brasil está atrasado na corrida pelo desenvolvimento do etanol celulósico – combustível produzido a partir de biomassas como o bagaço da cana ou a palha do milho, por meio de processos químicos. Os pesquisadores calculam que, ao aproveitar essas biomassas para a produção de etanol, a produtividade na obtenção do etanol pode saltar até 40%. Estados Unidos, Europa e China estão no primeiro pelotão. Se quiser garantir um lugar no pódio, o Brasil terá de acelerar o passo. “A produção de álcool a partir da celulose é um processo dominado, mas ainda caro”, explica José Gusman Ferraz, pesquisador da Empresa Brasileira de -Pesquisa Agropecuária. Segundo Jank, os Estados Unidos gastam 20 vezes mais que o Brasil com pesquisa e desenvolvimento das novas gerações de etanol.

“Vamos ser grandes usuários dessa tecnologia, mas teremos de pagar royalties. Nossa vantagem competitiva está na produção de uma matéria-prima barata e muito produtiva”, afirma Carvalho, da Abag. Segundo ele, a competitividade da cana-de-açúcar explica o enorme interesse de empresas e investidores estrangeiros pelo setor sucroalcooleiro no Brasil. A indústria canavieira passa por um rápido processo de desnacionalização. Nos últimos meses, o mercado testemunhou uma verdadeira avalanche de fusões e aquisições bancada pelo capital externo. Em 2008, a petroleira BP entrou no mercado brasileiro ao assumir metade da Tropical Bioenergia.

No fim do ano passado, a multinacional americana Bunge arrematou cinco usinas do Grupo Moema por 1,5 bilhão de dólares, triplicando sua capacidade de moagem e assumindo o posto de terceiro maior produtor de açúcar e álcool do País. Em setembro, a francesa Louis Dreyfus Commodities comprou o controle da Santelisa Vale e criou a segunda maior companhia do setor em todo o mundo. Neste ano, a anglo-holandesa Shell uniu-se à Cosan, maior empresa de álcool e açúcar do mundo, e formou um gigante com faturamento estimado em 40 bilhões de reais. Mais recentemente, os indianos da Shree Renuka Sugars assumiram o controle acionário do Grupo Equipav.

Segundo a consultoria Datagro, a participação estrangeira no setor saltou de apenas 4%, em 2003, para 25,6% este ano. A previsão é de que, até 2020, quase metade das usinas esteja nas mãos de companhias internacionais. Ao mesmo tempo, cresce a concentração no setor. “Hoje, temos 179 grupos econômicos que controlam 457 usinas no País. Em 15 anos, vamos ter não mais do que 50 ou 60”, afirma Plínio Nastari, presidente da Datagro. Segundo o consultor, o setor pode ser facilmente incorporado pelas petroleiras estrangeiras. “Para essas companhias, o esforço necessário para entrar no mercado de biocombustíveis é muito pequeno”, afirma. Os números deixam isso muito claro. De acordo com Nastari, o valor de mercado da indústria sucroalcooleira é de, aproximadamente, 70 bilhões de dólares – valor equivalente a dois anos de faturamento da petroleira americana Exxon. “Se quiserem, elas compram 100% da indústria com alguma facilidade.”

Na contramão desse movimento, a Petrobras acelerou os investimentos no setor. Recentemente, a empresa adquiriu 40% da Usina Guarani, pertencente à cooperativa francesa Tereos, e anunciou uma joint venture com a Usina São Martinho para a produção de etanol. Até 2014, a estatal prevê investir 2,4 bilhões de reais em biocombustíveis – 80% na produção de etanol. No período, a empresa planeja triplicar sua produção de etanol, dos atuais 900 milhões para 2,6 bilhões de litros ao ano. O presidente da Petrobras Biocombustíveis, Miguel Rossetto, nega que o movimento seja uma resposta à invasão dos estrangeiros. “A Petrobras tem um planejamento de longo prazo. A nossa visão é ser um dos grandes operadores desse mercado nos próximos anos”, conclui.

Roberto Rodrigues afirma que o processo de concentração e internacionalização do setor é inevitável, mas cobra regras para disciplinar o movimento. “Combustível é um setor estratégico. O governo não precisa intervir, mas deve regular o setor. Os Estados Unidos sabem quanto vão produzir em 2022. O Brasil não sabe nem quanto vai produzir no ano que vem”, afirma. Segundo o ex-ministro, mais de 12 ministérios cuidam direta ou indiretamente do setor. “É uma série de entidades trabalhando sem qualquer estratégia”, reclama.

O certo é que, mais cedo ou mais tarde, haverá um mercado internacional para as energias de biomassa. O desenvolvimento de produtos químicos à base de cana, como resinas e plásticos, e a transformação de açúcares em hidrocarbonetos, como diesel e petróleo, sinalizam um futuro de possibilidades incalculáveis. Mas esse mercado dificilmente dará ao Brasil posição semelhante a que tiveram os grandes produtores de petróleo do século XX. Estima-se que as biomassas vão responder por, no máximo, um décimo da matriz energética mundial até 2050. De todo modo, o País nunca esteve em posição tão favorável do ponto de vista da questão energética. O desenvolvimento de tecnologias como o carro movido a eletricidade ou equipado com células de hidrogênio ainda enfrenta barreiras que estão longe de ser solucionadas, o que abre um imenso campo para os combustíveis renováveis.
Além disso, a diversidade de alternativas à disposição nos permite manter uma matriz energética amplamente renovável, vantagem comparativa em um mundo que caminha cada vez mais para uma limitação no acesso a fontes eficientes e viáveis. Contudo, sem investimentos fortes em pesquisa e sem uma política clara de defesa da produção nacional, corre-se o risco de o Brasil manter o que se tem tornado uma sina: ser um fornecedor de matéria-prima barata, uma enorme fazenda.