Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / When I’m Sixty-Four

Sociedade

Crônica

When I’m Sixty-Four

por Alberto Villas publicado 18/07/2013 09h32
O que será que vai acontecer quando eu estiver com sessenta e quatro anos?

Tinha eu dezessete anos de idade quando Dona Vanda entrou na sala de aula com o encarte vermelho e amarelo do disco Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band debaixo do braço. A nossa professora de Inglês do Colégio Tito Novais era um estouro, principalmente quando sentava, ajeitava os óculos, cruzava as pernas e dizia good morning!

Depois de levar pau em Francês no Colégio de Aplicação, minha mãe me matriculou no Tito Novais, um colégio localizado no primeiro andar de um prédio de esquina caindo aos pedaços, encravado bem no centro de Belo Horizonte. Lá embaixo, alguns botequins, uma oficina mecânica, uma loja de guarda-chuvas, uma farmácia bem popular, uma barbearia, uma banca de jogo do bicho e algumas prostitutas na calçada rodando a bolsinha em plena luz do dia. Fui pro Tito Novais para terminar a quarta série ginasial de qualquer jeito e acabei brilhando. Passei pro curso Científico em primeiro lugar e ainda fui o orador da turma, aplaudido por pais e mestres.

Bom, voltemos a Dona Vanda. Ela chegou na sala de aula e pediu para que cada aluno escolhesse uma canção do novo disco dos Beatles para traduzir. Já com um olho no Jornalismo pensei em decifrar A Day in the Life, a canção que Lennon fez depois de ler notícias ruins no Daily Mail, mas acabei optando por When I’m Sixty-Four. Com um Merrian-Webster Dictionary aberto em cima da carteira lá fui eu traduzir a letra da canção de Lennon e McCartney.

O que estava acontecendo no Brasil e no mundo naquele 1967, além dos Beatles viajando em treze canções de um disco psicodélico? O marechal Arthur da Costa e Silva tomava posse como segundo ditador do golpe militar enquanto os hippies invadiam o Central Park de Nova York para fazer a primeira grande manifestação. Os astronautas Virgil Erissom, Edward White e Roger Chaffee morriam sufocados dentro da Apollo 1 antes mesmo de irem pro espaço e, lá na África, a Nigéria Oriental mudava de nome e virava uma Biafra. Enquanto nas matas da Bolívia Ernesto Che Guevara morria de susto e de bala, eu ali no Tito Novais, com o Websters ao meu lado, tentava entender o que significava “when I’m sixty-four”.

Não foi fácil. Ia traduzindo palavra por palavra  tentando decifrar aquele quebra-cabeça que ia um pouco além do “the book is on the table”. “Quando eu ficar mais velho, estiver perdendo meus cabelos, daqui a muitos anos, você ainda irá me mandar presentes no dia dos namorados, saudações de aniversário e garrafas de vinho?  Será que você ainda irá precisar de mim, ainda irá gostar de mim quando eu estiver com sessenta e quatro?”

John Lennon tinha 27 anos, Paul McCartney 25 e eu 17. Não conseguia me imaginar com 64 anos no tão distante ano de 2014. Hoje, a cada dia que passa me sinto mais e mais perto dos tais sessenta e quatro. “Quando as luzes apagarem você poderia me tricotar um suéter perto da lareia. Nas manhãs de domingo iremos dar uma volta, cuidar do jardim, arrancar as ervas daninhas. O que mais eu poderia querer?”

Fico aqui pensando com os meus botões. Ainda não perdi meus cabelos mas recebo saudações de aniversário e garrafas de vinho do meu amor. É verdade que aos domingos arranco sim ervas daninhas do pé de romã, das orquídeas e da hortinha que cultivo na varanda do meu apartamento. Minha casa não tem lareira, a minha mulher não sabe tricotar mas, sinceramente, acredito que ela ainda goste muito de mim que estou chegando aos sessenta e quatro.

E eu continuava traduzindo aqueles versos de Lennon e McCartney sob o olhar de lince de Dona Vanda. “Todo verão poderíamos alugar uma cabana na Ilha de Wight, se não for caro demais, querida. Sei que iremos passar por um aperto mas economizando dá. E os netos nos nossos colos, Vera, Chuck & Dave”. Mesmo sabendo que não temos netos chamados Vera, Chuck ou Dave, mesmo sabendo que o preço da passagem pra Ilha de Wight é salgado, vamos sim. Bora ir! Mas no verão do ano que vem, quando eu fizer sessenta e quatro, combinado?