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Crônica do Villas

Vou de ônibus!

por Alberto Villas publicado 20/06/2013 10h20
Você já foi de ônibus a algum lugar da cidade? Não? Então vá! Por Alberto Villas
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Crônica do Villas

Você já foi de ônibus a algum lugar da cidade? Não? Então vá!

Não dirijo. Aliás, nunca liguei um carro. Recentemente aprendi a abrir e fechar a porta do automóvel com aquela chave de apertar. Mesmo assim muitas vezes me atrapalho e o alarme dispara. Sou um fracasso! Logo eu que lá em Brasília, no início dos anos 60, participava de empolgantes corridas de Autorama e sonhava, juntamente com Alex Dias Ribeiro, ser piloto de Fórmula 1.

Fico em dúvida se decidi não dirigir por causa de um grave acidente aos onze anos de idade na Avenida do Contorno, que me deixou uma semana de molho num hospital de Belo Horizonte. Talvez. Hoje sou um carona de terceira categoria. Para mim não existe contramão, preferencial, estacionamento proibido ou limite de velocidade. Sou pedestre. Pra ir de um ponto a outro da cidade vou de táxi ou vou de ônibus.

Confesso que prefiro ir de ônibus. Torço para o América Mineiro, conheço pouco do futebol paulista e, por isso, entrar num táxi em São Paulo é um sofrimento. Preciso sempre saber quanto foi o último Corinthians e Santos, quem é o técnico do São Paulo, quem foi vendido pro Barcelona, em que divisão está o Palmeiras e em que time joga Alexandre Pato. Se não souber estou perdido porque toda vez que entro num táxi o motorista vai logo dizendo:

- Esse Corinthians, hein?

E a única coisa que consigo responder é um tímido e constrangedor:

- Que coisa, né?

Sendo assim, o ônibus é minha praia. Sempre gostei de andar de ônibus. Adorava aqueles trólebus que subiam a Rua da Bahia e iam direto até a faculdade de Filosofia no Bairro de Santo Antônio. Mas agora, vou relacionar  aqui o que tenho observado nos ônibus de São Paulo ultimamente pra quem não anda ficar sabendo.

Os motoristas geralmente correm demais.

Na cestinha de lixo que fica perto da porta tem mais chicletes e embalagens de Toddynho do que papel.

As pessoas sentadas geralmente fingem dormir quando uma pessoa idosa entra.

Passageiros costumam escrever nos bancos lá do fundo coisas do tipo “Pirituba é nóis na fita!”

Outros desenham corações com a flecha do cupido e dentro deles escrevem os nomes dos apaixonados:  “Marcelo e Diane”, por exemplo.

Os cobradores estão sempre com fone de ouvido escutando música e nunca entendem da primeira vez o que você pergunta.

Celulares tocam a todo momento dentro do ônibus. Geralmente são faxineiras atendendo suas patroas.

“Já estou chegando”, “está tudo parado”, “estou atrasada porque tive um problema” ou “pode ficar tranquila que eu chego” é o que mais ouço.

No teto do ônibus tem um cartaz pedindo para respeitar a faixa todo pedestre que é Vivo.

Sempre que alguém pergunta onde é rua tal, é um passageiro ao lado quem responde.

Muitas pessoas antes de subir no ônibus perguntam pro motorista: “Passa na rua tal?”

Tem passageiro que não senta, mesmo com o ônibus vazio.

Tem passageiro que só viaja perto da porta.

O Jornal do Ônibus dependurado numa janela pergunta em sua manchete: “Eu dou sangue por São Paulo. E você?”

Tem passageiro distraído que quando o ônibus fecha a porta pra partir ele se levanta e grita pro motorista: “Ei, vou descer!”

Tem muito vendedor ambulante que coloca a mercadoria pela porta de trás e corre pra entrar pela porta da frente.

Atrás do cobrador uma placa anuncia o novo preço da passagem que será retirada segunda-feira, com certeza.

Dentro dos ônibus não existe nenhuma indicação dizendo para onde ele vai. É um voo cego.

Uma plaquinha em cima da porta de saída avisa: “Deficientes físicos podem parar fora do ponto”.

Tem passageiro que abre a janela quando está frio e fecha quando está calor.

Pra toda estudante bonita e gostosa tem sempre um  que pergunta: “Quer que eu segure sua mochila?”

Os trocadores nunca tem troco. Nem mesmo quando você dá uma nota de 5.

Outro dia uma amiga minha que não andava de ônibus há mais de vinte anos, pegou o 817-C na Heitor Penteado e na hora de passar na catraca perguntou pro trocador:

- Posso pagar com cartão?

Mas isso é outra história.