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Você está sendo roubado

por Aurélio Munhoz — publicado 25/04/2011 11h42, última modificação 25/04/2011 16h30
O colunista Aurélio Munhoz convida os leitores a refletirem sobre outra estirpe de usurpadores do seu dinheiro: os empresários desonestos

Diferentemente do que pode sugerir o título que você acaba de ler, este artigo não trata de políticos corruptos. Mesmo reconhecendo que parcela significativa dos nossos representantes no Executivo e no Legislativo merece o nada honroso estigma de expert em desonestidades, o foco deste texto é outro. Desejo convidá-lo a refletir sobre outra estirpe de usurpadores do seu dinheiro.

Falo dos vigaristas de paletó, gravata, sapatos bem lustrados e polpudas contas bancárias. Aqueles que, a julgar pela sua aparência, você não identifica como meliantes, mas que, dotados da verve dos bons malandros, apropriam-se dos seus suados tostões com chame e simpatia. E, o que é pior, com a sua aquiescência.

Falo dos empresários desonestos e sua caterva, sobretudo os grandes. Em especial, os poderosos operadores dos oligopólios da nossa ainda frágil economia de mercado, que definem, ao seu bel prazer, os preços que pagamos por tudo o que consumimos, alimentando uma longa cadeia de abusos e saques aos bolsos dos cidadãos.

Tanto quanto a unanimidade, a generalização peca pela parvoíce. Logo, assim como nem todo político é ladrão, é óbvio que nem todo grande empresário é desonesto. Reconheço o brio da elite dos executivos que trabalham duro, investem na produção, desenvolvem ações de responsabilidade social, geram milhares de empregos e pagam seus impostos em dia.

O que afirmo é que, escorada na ineficiência dos mecanismos de fiscalização do Estado, na liberdade excessiva que a economia de mercado lhes proporciona no Brasil e na enorme generosidade dos consumidores, a quadrilha dos maus empresários abusa na sua política de preços, com o aval de muitos lojistas, comerciantes, supermercadistas e afins. Se acha que há exagero no ataque, faça as contas comigo - mesmo convite feito por um internauta anônimo, com quem divido a paternidade deste artigo.

Para os cálculos abaixo, tomei como base os preços cobrados por produtos fabricados por grandes empresas nacionais e vendidos em uma mega rede de supermercados do Paraná. Produtos nada sofisticados, aliás, mas que dão a exata medida da ambição desta gente.

Primeiro caso: um pote com 55 gramas de pimenta branca estava sendo vendido por R$ 17,79. A grama do produto sai, portanto, por R$ 0,32; o quilo, por R$ 323,45. Quer mais? Um cartucho de tinta de impressora de uma marca famosa com 26 ml estava sendo vendido por R$ 39,99. O valor do litro da tinta da impressora, portanto, é de R$ 650,16.

Para quem acha que o culpado por este assalto legalizado são os impostos, uma informação: nos países desenvolvidos, considerando-se apenas o setor automobilístico, as taxas médias de lucro líquido das empresas são até três vezes menores. Em outras áreas, dependendo da demanda, passa de 1000%. E o que dizer do setor bancário?

Paga quem quiser? É ingenuidade afirmar que a concorrência supera os abusos. Contra cartéis e monopólios, não há quem possa. Faça o teste, usando outros produtos como exemplos. Compare os preços, quase tabelados, cobrados por mercadorias fabricadas por algumas grandes e conhecidas empresas do mercado. Você não vai encontrar grandes variações nos valores das mercadorias fabricadas pelos oligopólios, a não ser que alguma tramóia esteja sendo engendrada contra você.

Para seu conhecimento: o Código do Consumidor, que chegou a maioridade no dia 11 de março, proíbe esta prática e tem sido usado sistematicamente para coibir estes abusos, no Brasil inteiro, por promotores públicos e advogados bem intencionados.

Você, eu e todos nós somos roubados cada vez que pagamos caro demais pelas mercadorias que levamos para casa. Triste é que concordamos com isso, quando nos rendemos ao vil argumento de que, nas economias de mercado, é assim mesmo que as coisas funcionam. Até nas economias abertas, liberdade pressupõe responsabilidade.

Aurélio Munhoz no Twitter: http://twitter.com/aureliomunhoz

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