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Vietnã debate consumo de carne de cachorro

por Deutsche Welle publicado 13/06/2015 08h12
A cada ano, milhões de cães acabam na mesa dos vietnamitas. Ao mesmo tempo, huskies, poodles e chihuahuas ganham cada vez mais espaço no coração da nação
ACPA
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Vietnamitas comem cerca de 5 milhões de cachorros por anos

Por Anemi Wick

O cão: melhor amigo ou comida? Nas ruas da capital vietnamita, Hanói, essas contradições são claramente visíveis. Servindo exclusivamente thit cho– "carne canina" na língua vietnamita – das mais diversas formas, numerosos restaurantes continuam atraindo clientela. Ao mesmo tempo, cachorros de diferentes raças são cada vez mais populares no país como animais de estimação. No inverno, pinschers miniaturas desfilam de casaquinhos coloridos, enquanto cocker spaniels passeiam de lambreta, com as orelhas esvoaçando ao vento.

Uma coisa não anula a outra, diz Tuan Bendixsen, diretor no Vietnã da organização de proteção dos animais Animals Asia Foundation: "O melhor exemplo é a família dos meus sogros. Eles possuem poodles e chihuahuas, que adoram e deixam subir na cama – mesmo assim, de vez em quando, a família vai comer num restaurante de carne de cachorro."

Por volta de 5 milhões de cachorros são comidos anualmente no Vietnã, segundo estimativas da Animals Asia Foundation. Como não existem grandes fazendas caninas no país, até há pouco grande parte da enorme demanda era atendida pelo contrabando da Tailândia, onde se capturam cachorros de rua para vendê-los no Vietnã.

Informações de que os cachorros são mortos, de preferência, de forma lenta e dolorosa, porque a adrenalina liberada tornaria a carne mais macia, não foram confirmadas por Bendixsen: "Pelo que sabemos, os cachorros costumam ser mortos rapidamente."

No entanto o ativista considera inaceitável a tortura por que os animais têm de passar durante seu longo transporte. Apertados em gaiolas de arame, muitos morrem de sede no caminho ou se mordem uns aos outros. De forma geral, afirma Bendixsen, a produção de carne de cachorro envolve mais dor e sofrimento do que a de animais de corte como porcos ou galinhas.

Diante das autoridades, porém, os protetores de animais empregam um argumento mais eficaz: a saúde humana. Embora o consumo de carne de cachorro seja legal no Vietnã, é proibido o transporte através das fronteiras nacionais e estaduais sem os certificados necessários de origem e saúde. A falta do devido controle implica o risco de os animais trazerem para o país, por exemplo, a raiva, doença fatal transmissível ao ser humano pela mordida.

A Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) estabeleceu como meta a eliminação da raiva até 2020. Através da cooperação entre as autoridades do Vietnã e da Tailândia, como também com a internacional Asia Canine Protection Alliance (ACPA), também pertencente à Animals Asia Foundation, o comércio proveniente da Tailândia diminuiu maciçamente, aponta Bendixsen.

No entanto, o ativista informa que cada vez mais o fornecimento parte do sul do Vietnã, também envolvendo transportes de longa distância e risco de disseminação da raiva. A carne de cachorro é consumida, sobretudo, no norte, onde não são raras as notícias sobre roubos de animais de estimação de seus proprietários descuidados.

A mídia estatal do Vietnã tem debatido intensamente os prós e os contras do consumo de carne canina, e o tema é muito discutido na internet, polarizando pelo menos a população jovem e urbana.

"Matar um cão, um animal tão próximo de nós, é impiedoso", escreveu um usuário da página de notícias Thanh Nien Online. "Cachorros, porcos, galinhas, patos, vacas – não faz diferença", defende outro internauta os apreciadores da carne canina no site VNExpress.

Bendixsen já considera "um progresso o fato de a população e a mídia do Vietnã estarem dispostas a levar publicamente esse debate". Atualmente, a ACPA chama novamente atenção para o tema com uma nova campanha. Seu vídeo no YouTube mostra a reação repugnada de atores, cantores e outros ídolos da juventude vietnamita ao assistir filmes sobre o tratamento dado aos cachorros antes de seu abate. Uma petição online dos opositores da carne canina reuniu quase 450 mil assinaturas.

A campanha faz parte do trabalho de conscientização dos ativistas, visando chamar a atenção dos políticos. Está em discussão na Assembleia Nacional vietnamita uma nova lei veterinária que, pela primeira vez, considera a proteção dos animais. O projeto – que se aplica a todos os animais de forma igual – inclui a exigência de que eles sejam devidamente alojados, alimentados e transportados, e que, no abate, seu sofrimento se limite ao mínimo absoluto.

Tráfico de cachorros
Uma nova lei quer acabar com os maus-tratos sofridos pelos animais durante o abate

Para os protetores dos animais, o projeto de lei é um passo na direção certa, mas não vai longe o suficiente. Bedixsen critica as formulações demasiadamente generalizadas, que dificultariam sua implementação e controle na prática. A longo prazo, a ACPA visa uma proibição total no país do consumo de carne de cão, a qual, a seu ver, não é adequada como alimento.

De acordo com o coordenador da ACPA no Vietnã, Le Duc Chinh, não há como criar os cães de acordo com os requisitos da proteção aos animais e as normas de higiene alimentar: "A única solução de longo prazo será pôr fim ao comércio com carne de cachorro." Por sua vez Bendixsen, da Animals Asia, ainda considera a proibição uma perspectiva muito longínqua.

Os restaurantes de carne de cachorro de Hanói também estão cientes do debate. "O tema está em toda a mídia", comenta Nguyen Quang Tiep, proprietário de um dos maiores restaurantes especializados perto do Lago Oeste de Hanói. Ali, os cachorros são guisados, cozidos no vapor, fritos ou servidos como sopa. Segundo o proprietário, os negócios vão bem, principalmente na segunda metade do mês no calendário lunar.

Segundo a tradição, consumir carne canina nessa época traz sorte e sucesso nos negócios. Tiep diz não contar com uma redução de sua clientela num futuro próximo, e considera os opositores da carne de cachorro uma minoria no país.

A veterinária Bui Khanh Linh discorda. "Acredito que o número de comedores de cães está diminuindo", afirma ela, que há três anos fundou a clínica veterinária Gaia. Equipada até com um hotel para cachorros, ela também oferece cuidados para os pelos, limpeza de dentes, banho e tosa, assim como tintura – no momento, a grande moda é pintar de cor-de-rosa as caudas dos poodles e lulus-da-pomerânia.

Com a elevação da renda, os cães são vistos cada vez mais como membros da família, diz Linh, "e muitas vezes também como companheiros de brincadeira. Com eles, as crianças aprendem a amar e a repartir". A veterinária observa que também aumentou a conscientização sobre como os animais domésticos devem ser mantidos.

A clínica Gaia possui, ainda, um pequeno cemitério de animais. Lá, ao lado de tantos outros animais de estimação, o gato Hu Chu e o chihuahua Bin encontraram seu descanso final.

Deutsche Welle

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