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'Vermezinhos'

por Rui Daher publicado 09/05/2014 12h21
Organismos provenientes de fermentação natural são benéficos e podem trazer economias brutais em lavouras pela redução de aplicações de adubos químicos e agrotóxicos

No final da década de 1980, trabalhando numa empresa de fertilizantes, em São Paulo, fiquei feliz quando os donos decidiram operar uma fábrica em Porto Alegre.

Incentivei-os, garantindo que apesar de no Sul estarem alguns dos principais concorrentes, com enormes complexos industriais no porto de Rio Grande, montaríamos uma equipe comercial imbatível.

Acreditava à vera no projeto. Afinal, minha mãe era gaúcha de Pelotas, nas minhas infância e juventude convivera com ventos minuanos soprados na forma de tios, primos e gulodices que vinham de lá. Também lera sobre maragatos, chimangos, Getúlio Vargas, além de ferrenho defensor de João Goulart e Leonel Brizola, antes e durante o golpe civil-militar de 1964.

Não me faltavam requisitos para levar a empreitada ao sucesso.

Durante alguns anos, pelo menos uma vez por mês, em meu cartão de embarque o destino era POA, a partir de CGH ou GRU.

Primeiro, contratei um dos melhores profissionais da concorrência para gerir a unidade. Gaúcho experiente, forte aparência vêneta, charla milonguera, nascido em Flores da Cunha.

O José Luiz logo completou a equipe com bons vendedores em Ijuí, Passo Fundo, Santas Maria e Rosa, Uruguaiana, Vacaria.

E assim a vida seguiu, entre convenções de vendas, churrascos, rodadas de chimarrão, embutidos da “colônia” e vinhos de excelentes adegas serranas.

Calma, trabalhava-se também. Muito. Tanto que nos negócios feio não fazíamos. A magia da venda pessoal ainda tinha grande força e disputávamos bem o mercado, embora reconhecendo limitações na forma da brutal concentração que viria com a privatização das estatais produtoras de matérias-primas e fertilizantes intermediários.

Processo curioso, esse. Iniciado na primeira metade da década de 1990, supunha o domínio sobre a esfera da produção permitindo controlar os preços aos consumidores finais, então sob concorrência predatória.

Ampliando a rentabilidade, o setor privado investiria em aumento de capacidade e diminuiria a dependência de importações. O risco de cartelização pouco importava.

Passados mais de vinte anos, fora a concentração econômica provocada pelo processo, nada do que se pretendia aconteceu.

Foram mínimos os investimentos em mineração e indústria, e o grosso da produção de matérias-primas restou com Petrobras e Vale, que por não terem no segmento o foco principal, vão adiando ou abandonando os projetos no setor.

Resultados: a entrega aos agricultores está 2/3 concentrada em quatro empresas; em 2013, 70% de nossas necessidades vieram do exterior.

Pois bem, se até aqui o texto entregou a austeridade pré-eleitoral que economistas têm sugerido ao governo em nome de um futuro que nunca foi permitido chegar aos pobres, chego ao tema principal desta coluna: o vinagre ou, melhor, a madre do próprio, em saudação ao Dia das Mães.

A minha querida pelotense partiu em 2009, um mês antes de completar 86 anos de idade. Restou-me, porém, outra mãe, a de um vinagre, conservada há mais de 30 anos num canto escuro de um móvel antigo em minha sala.

A exemplo da que partiu, essa também se renova a cada talagada de vinhos de finas cepas.

Foi-me dada pelo amigo José Luiz, de Flores da Cunha, companheiro da aventura garibaldina, que há muitos anos não vejo e tenho saudade.

Certa noite, após provar aquela maravilha sobre folhas fresquíssimas de almeirão, acompanhando um churrasco em sua casa, ele me presenteou com essa mãe, escondida numa garrafa quadrada de Beefeate Gin.

Sabe-se que a fermentação acética, inventada por Louis Pasteur (1822-1895), pode ocorrer com maçãs, arroz, sidra, cana, malte, nada porém como a do vinho, que desde 8.000 anos a.C. prolifera microrganismos benéficos e desinfeta e torna mais digestivos os alimentos.

Trato bem da mãe que me restou. Garrafas e rolhas são trocadas de tempos em tempos, e o consumo é imediatamente reposto com vinhos de qualidade suportada pelo meu bolso.

Antes de passar da garrafa para o vinagreiro, dou uma coada, embora não me incomodem os ‘vermezinhos’ que a família, horrorizada, diz detectar e preferir o “Castelo”, em insuportável agressão.

O mesmo que fazem muitos agricultores brasileiros, sem reconhecer o quanto tais ‘vermezinhos’, provenientes de fermentação natural são benéficos e podem trazer economias brutais em suas lavouras pela redução de aplicações de adubos químicos e agrotóxicos.

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