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Sociedade

Da Edição 630

Verão barata voa

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 26/01/2011 09h00, última modificação 26/01/2011 10h33
Nesta época do ano, as cucarachas invadem as casas. O chinelo não costuma funcionar. A coluna "Cariocas quase sempre", de Carlos Leonam e Ana Maria Badaró

Nesta época do ano, as cucarachas invadem as casas. O chinelo não costuma funcionar

Parecia meio doidona, embora estivesse ali parada, pesada, entre duas caixas brancas e um livro de capa preta, sobre a cômoda clara. Talvez, por isso, tenha sido descoberta imediatamente. Se as baratas têm antenas, pode ser que emitam algum sinal para as nossas antenas. Mas nem sempre essa improvável comunicação entre seres atavicamente inimigos figadais funciona. É preciso sorte e olhar atento àquela mancha escura que aparece subitamente do nada.
Na ausência de um homem forte e destemido, pois há os que têm horror a elas como a maioria das mulheres, é preciso rapidez e planejamento. Jamais deixar faltar um aerossol salvador, e calcular onde a bicha poderá ir se, perscrutando o perigo, sair dali enquanto você pega a arma letal. Chinelo não costuma funcionar para almas claudicantes. Haja sangue de barata.

A uma distância segura, o spray desestabiliza a nojenta, que dispara imediatamente já combalida, enquanto se lhe taca mais e mais jatos do inseticida, perseguindo-a, esgueirando-se, como se barata também fôssemos, pelas frestas e por trás dos móveis da casa. Em coisa de minutos e com alguns gritos de pânico a batalha está vencida e o coração saltando. O resgate da carcaça é o que podemos chamar de fase disgusting.

Registros fósseis dão conta de que as baratas existem e são as mesmas há 400 milhões de anos. Assim, a guerra ancestral voltará sempre que aparecerem egressas da vizinhança, ou sabe-se lá de onde, para macular a paz do seu lar. No verão, elas surgem do nada. Gostam de calor e umidade e entram, quando não voam, pelas janelas escancaradas, ralos e outros buracos domésticos.
Uma amiga jornalista narra que apenas se deu conta de que tinha se divorciado­ do marido, que já estava matando baratas para outra, no dia em que teve de liquidar uma cascuda sozinha: “Era ela ou eu”. E enfrentou o medo paralisante munida do único arsenal disponível: uma vassoura de piaçava. Valente menina!
Não há como pegar no sono sabendo que há uma barata rondando os seus domínios e que a qualquer momento ela poderá fazer um rapel sem corda na sua cama mesmo que você não leve biscoitos para lá.

Uma noite na redação de um histórico e extinto jornal carioca, um boy, função hoje nomeada “auxiliar de serviços gerais”, decidiu pousar uma barata de plástico na imensa cabeleira negra de uma estagiária. Pressentindo algo estranho entre os fios fartos, a incauta, que tinha a mania de passar a mão nos cabelos, veio trazendo entre os dedos curiosos a réplica de uma cucaracha de perninhas peludas.

Não fosse a sua juventude e um coração sadio, posteriormente revelado também generoso, ela teria tido um troço. Mas não só resistiu ao próprio surto, que chegou a interromper o fechamento da edição, como intercedeu junto à chefia para que o boy engraçadinho não fosse para o olho da rua.

Outra jovem almoçava num restaurante modesto, mantido por católicas, na Rua da Quitanda, no Centro do Rio. As mesas eram forradas por toalhas simples e curtas. No meio de uma garfada, a moça de minissaia sentiu um arrepio num dos joelhos. A cosquinha foi subindo ligeira e ela afastou a cadeira mecanicamente. Antes tarde, deparou-se com uma barata na coxa.

Possivelmente, andando de ponta cabeça, a repugnante despencara da parte interna do tampo da mesa. Houve testemunhas de que a moça levantou a saia e pôs-se a sapatear em transe até a barata se desgrudar de sua pele. A molestada abandonou o restaurante aos berros sob o olhar estupefato, mas indulgente das freiras, essas devidamente protegidas por seus hábitos e panos.

Para não esquecer: nem sempre a dedetização pode evitar essas histórias; assim como humanos e cães, as baratas conseguem aprender.

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