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Vela no breu

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 16/11/2009 18h51, última modificação 20/09/2010 18h54
O apagão não foi privilégio do Rio de Janeiro. Mas ficamos entre as últimas cidades a ter a energia restabelecida entre as tantas que sofreram com o negrume que pegou a todos de surpresa.

O apagão não foi privilégio do Rio de Janeiro. Mas ficamos entre as últimas cidades a ter a energia restabelecida entre as tantas que sofreram com o negrume que pegou a todos de surpresa. Muita gente só voltou ao fiat lux depois das quatro da manhã. Isso em bairros nobres, como Jardim Botânico, por exemplo, na Zona Sul. Os da periferia e comunidades, não se sabe.

O Rio é uma cidade que nem sempre reserva suas agruras apenas aos menos aquinhoados. Foi uma noite difícil e um dia seguinte complicado para a maioria. Maldormidos, havia pelas ruas e escritórios caras e rostos amassados. Havia o temor vencido de que a cidade, em tom de breu fechado, ficasse entregue aos vândalos e o alívio de constatar que, entre raios e trovões, salvaram-se todos. Ou quase. Aqui e ali, cada um viveu a desventura da passageira treva urbana a seu jeito.

O maior medo, no entanto, foi o medo. O medo de andar pelas ruas até chegar em casa. Quem estava em casa, é claro, também sentiu medo de não conseguir ver o que se passava na rua, ou além do olho mágico de sua porta trancada a sete chaves. Foi o pedido das autoridades e o conselho do bom senso. Quem pensou conhecer a orla às escuras, uma experiência inédita para os acostumados com as avenidas pretensamente feéricas, teve de guardar a curiosidade em troca do juízo.

Ainda bem que, durante o blecaute, os não-cidadãos, que tornaram a vida por aqui uma aventura de guerra, parecem ter se recolhido em seus cantos. Quem sabe, em meio à sua parafernália do mal, não estivessem também à procura de tocos de vela, luzes de emergência, lanternas e pilhas, como qualquer cidadão verdadeiro, em busca de uma centelha para tocar o próximo momento. Houve exceções. Mas delas não falaremos.

Quem sabe os não-cidadãos estivessem preocupados também em encontrar seus caminhos de volta e saber se suas famílias, ou o que seja, estavam em segurança. O saldo deste grande blecaute, dez anos depois, não foi dos mais dramáticos, embora haja sempre um drama por trás de obscurantismos de qualquer natureza. As teorias conspiratórias falam em aviso-ameaça da bandidagem paulista, em Ovnis se abastecendo de energia, “tal como aconteceu no apagão de Nova York em 1977.”, e cositas mais que poderiam resultar em suspeitas sem provas.

Nos lampejos da escuridão há sempre uma piada. A de que Madonna estava na cidade com seu gerador próprio, o namorado Jesus Luz, foi a mais votada. E não é que ficar muito tempo à luz de velas faz lembrar coisas do tempo em que os bichos falavam? Quando a cidade era a Capital da República (como então se dizia), havia uma marchinha carnavalesca que deitava sobre as dificuldades de se viver na gleba de São Sebastião: “Rio de Janeiro, cidade que a todos seduz, de dia falta água, de noite falta luz.” E também cantava Emilinha Borba: “Tomara que chova, três dias sem parar. A minha grande mágoa é que lá em casa não tem água nem pra cozinhar”.

Eram críticas ao então Departamento de Águas do Distrito Federal (hoje Cedae) e à Light (hoje Light, mesmo). Sem querer simplificar a questão, parece que mais de meio século depois os problemas continuam os mesmos.

No caldo do pré-verão Virando a página do blecaute, ma non troppo. A sensação que um calor sênior, desse que anda escaldando o carioca, causa é de alta tensão. Nos dias de lazer as praias andam socadas de banhistas de todos os confins. Há dois fins de semana se registram bafafás nas areias de Ipanema – há dias considerada por um organismo do turismo internacional a melhor praia da América do Sul (e é mesmo).

Parece haver uma nova tática de se promover arrastão usando o pânico como estratégia. E dá certo. Arma-se um princíipio de briga, e a multidão antevendo o pior corre para a calçada deixando seus badulaques na areia. Na volta, cadê? A turma do pente fino passou na clareira e carregou o que pode e o que não pode. É uma forma cinicamente pacífica de assaltar em massa na temporada 2009/2010.