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Brasiliana

Vai, João, ser gaúcho na vida

por Mauro Graeff Júnior e Dionara Melo — publicado 14/03/2011 09h05, última modificação 14/03/2011 09h05
Imortalizado em estátua, Côrtes segue a catalogar o folclore e as tradições do Rio Grande, Por Mauro Graeff Júnior e Dionara Melo

Imortalizado em estátua, Côrtes segue a catalogar o folclore e as tradições do Rio Grande
Ele se apresenta como engenheiro agrônomo especializado em ovinocultura. Mora em um apartamento antigo na região central de Porto Alegre, longe de qualquer badalação. À primeira vista, João Carlos D’ávila Paixão Côrtes parece um típico gaúcho do interior, costeletas grandes emendadas com os cabelos grisalhos. Mas o homem de 83 anos, dono de um vasto bigode branco que cobre o lábio superior, é uma lenda viva para o Rio Grande do Sul.
Lenda viva não é força de expressão. Côrtes é um dos fundadores do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), criado na década de 50 em um grêmio estudantil e hoje espalhado por mais de 6 mil pontos nos cinco continentes. O movimento deu origem aos CTGs, centros de tradições gaúchas, e uma série de ritos do tradicionalismo dos pampas, como o desfile da Semana Farroupilha. A imagem do folclorista está imortalizada na estátua do Laçador, um dos maiores símbolos do Rio Grande. Para quem não sabe, o monumento do gaúcho pilchado a caráter na entrada de Porto Alegre não é de herói da Revolução Farroupilha. Côrtes serviu de modelo quando tinha 27 anos.
A estátua de gesso é obra do escultor Antônio Caringi e foi encomendada para representar o Rio Grande do Sul em uma feira comemorativa do IV Centenário de São Paulo em 1954. Quatro anos depois, a peça de 4,45 metros de altura foi fundida em bronze e instalada em uma das entradas da capital gaúcha. O laçador é um gaúcho vestido de bota, bombacha, lenço no pescoço e tirador (espécie de avental de couro que os laçadores prendem à cintura para proteger o corpo do atrito do laço). A praça ao redor virou ponto de comemoração, principalmente futebolística. Não é raro o laçador ser vestido com o vermelho e branco do Internacional ou com o azul, preto e branco do arquirrival Grêmio.
Radicado em Porto Alegre desde a juventude, Côrtes nasceu em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai. Apesar do diploma de agrônomo, dedica a vida a pesquisar os costumes do estado. Nos últimos 60 anos, documentou tendências, escreveu livros, transcreveu partituras musicais, fez teatro e cinema e percorreu o mundo a expor as tradições do pampa. “Não fiquei preso ao galpão. A minha preocupação em estudar o antigo (as tradições) me levou à França, Itália, Escócia e Alemanha”, enumera ao relembrar as viagens feitas nas décadas de 50 e 60, época em que fez show no Olympia e no Hotel-de-Ville, além de apresentações em tevês e teatros.
Atento ao português correto, sonoros “erres” e “esses”, Côrtes conversa pausadamente como se contasse uma história a crianças. Não gosta do estereótipo do gaúcho típico – rude, grosso, que fala errado. É um devorador de livros, consulta sites e está sempre ligado aos compromissos que chegam por e-mail. No ano passado, lançou um blog (paixaocortes.blogspot.com), administrado por seu filho. Anda de bota e bombacha, sim. Mas usa também calça e sapato. Não é de ostentar a pilcha só para mostrar seu gauchismo.
Suas pesquisas renderam centenas de publicações distribuídas gratuitamente em escolas, secretarias de cultura e entidades ligadas à educação. Para ele, não basta. O octogenário continua a catalogar roupas, cantigas, danças, comidas. Cada novo passo de dança surgido no rincão ou na capital é devidamente registrado em seu acervo. Não gosta do status de ícone. Considera-se apenas um colaborador para que os hábitos e costumes sejam revitalizados. Sobre como se sente por estar imortalizado em uma estátua, é direto: “Não sou de holofotes, me criei no campo. Sou homem simples, só procuro acompanhar a evolução, sem modismos. Reproduzo o que é do povo para o povo”.
O bibliófilo paulista Waldemar Torres, dono de um dos acervos mais variados sobre modernismo brasileiro, define Côrtes como o inventor do maior movimento regionalista da América Latina. “Ele fez todas as pesquisas como uma monografia, com trabalho de campo e fundamentação teórica.”
A obra mais recente de Côrtes chama-se Paixão e o Momento, um compêndio com 87 publicações lançado em 2010. O autor agora finaliza um livro de 700 páginas sobre danças gaúchas. Em 2010, o lado escritor (apesar de preferir a alcunha de escrevinhador) ganhou destaque. O folclorista foi escolhido patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. Sempre de lenço no pescoço (ao estilo gaúcho), virou celebridade no evento. Sua presença arrastou à feira uma multidão desacostumada ao mundo dos livros. De todos os cantos do estado partiram excursões para vê-lo. “Ele trouxe um público diverso, gente que nunca havia vindo à capital, todas movidas pela figura lendária representada por ele”, conta João Carneiro, presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, responsável pela organização da feira. “Foram mais de mil fotos”, lembra o pesquisador.
Gaúcho de bota e bombacha, o ex-ministro e ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra lembra que Côrtes tem um grande valor para a história do estado. “Ele tem um papel muito importante na afirmação da identidade do gaúcho, na expressão de uma história em que se mesclam várias etnias.”
A contribuição do comunicador, tradicionalista e compositor já foi reconhecida publicamente em outras oportunidades. Em um ranking elaborado pela RBS TV, afiliada da Rede Globo, em 2000, Côrtes figurou entre os 20 gaúchos que marcaram o século XX, ao lado de nomes como Getúlio Vargas, Erico Verissimo, Elis Regina, João Goulart, Lia Luft e Lupicinio Rodrigues.
Côrtes não gosta de conjugar verbos só no passado. Sobre o seu legado, é lacônico: “Estou em plena atividade. Estou ótimo. A dança é uma forma de exercício. Eu danço, canto e me divirto”. E, a cada dia, reforça sua imagem de lenda no Rio Grande. •

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