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Ustra na Bahia

por Emiliano José — publicado 15/05/2009 18h04, última modificação 31/08/2010 18h07
Edifício Rio Minho, bairro da Barra, Salvador, 4 de julho de 1975. Final de tarde, quase pôr do sol, belo pôr do sol da Barra. Apartamento 301. Morada do casal Marcos Antonio Pinheiro Silva e Vânia Goyanna Pinheiro Silva. Batidas vigorosas à porta. Vânia atende. Eram três homens.

Edifício Rio Minho, bairro da Barra, Salvador, 4 de julho de 1975. Final de tarde, quase pôr do sol, belo pôr do sol da Barra. Apartamento 301. Morada do casal Marcos Antonio Pinheiro Silva e Vânia Goyanna Pinheiro Silva. Batidas vigorosas à porta. Vânia atende. Eram três homens.

- Marcos Antonio está?

- Sou eu – respondeu Marcos, apresentando-se.

- Somos da Polícia Federal. O senhor deve nos acompanhar para esclarecer uma batida de carro com um veículo nosso.

- Mas como? Passei o dia todo fora. E vocês não podiam ter conseguido meu endereço no Detran porque o carro está no nome de minha esposa.

Os policiais o ouviam de má vontade. Marcos Antonio mostrou-lhes sua carteira do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia e a identidade funcional da Petrobrás, onde trabalhava. Um deles saiu para fazer consultas.

Marcos Antonio e a mulher esperavam, ansiosos. Que diabo estava havendo? O tempo demorava a passar. Meia hora depois, que parecera uma eternidade, foi a empregada abrir a porta e Marcos Antonio e Vânia perceberem que o problema era mais grave, Além do que fora fazer a consulta, mais três o acompanhavam.

- É o senhor mesmo. Nos acompanhe.

Marcos Antonio começou a sentir-se num universo kafkiano, sem nada poder fazer. Vânia, grávida de três meses, protestava. Os dois filhos, Hugo, de 4 anos, e Fabíola, de 2, não conseguiam entender nada. Por que estavam fazendo aquilo com o pai?

Os policiais disseram que ele voltaria logo.

Antes que o carro saísse, Marcos Antonio foi algemado, encapuzado e obrigado a deitar no colo do policial ao lado, no banco de trás do fusca. Marcos Antonio, sem ainda compreender tudo, ironizou:

- Isso faz parte do protocolo?

- Da missa você ainda não viu metade. O pior ainda está por vir – respondeu um dos policiais.

Marcos Antonio crê que o fusca andou coisa de 15 minutos. Foi levado para um local que a ele parecia azulejado. Mais tarde soube: tratava-se do Quartel de Amaralina, do Exército. Foi despido e enfiado num macacão. Fizeram-no sentar e colocaram as algemas passando os braços por debaixo das pernas, uma posição absolutamente desconfortável. Levantaram o capuz o suficiente para que ele assinasse uma lista com os pertences dele. Por um tempo, viu-se sozinho.

Súbito chega alguém e pergunta-lhe:

- Você sabe por que está aqui?

- Fui informado que por causa de uma batida de carro.

- Não é verdade. Você está preso porque é da direção do Partido Comunista Brasileiro na Bahia.

- Isso é loucura – retruca Marcos Antonio.

- E não adianta mentir. Já prendemos vários membros do Comitê Estadual, que confirmaram sua condição de dirigente. Logo vamos levá-lo para ser identificado por eles.

Dali a pouco, foi levado para a traseira de um veículo que a ele parecia uma Veraneio. Nela iam outras duas pessoas. Os três no estrado do carro, deitados, encapuzados, com a recomendação de que não trocassem uma única palavra. Os policiais também falavam pouco durante a viagem, que durou coisa de duas horas.
Quando o carro parou no destino, Marcos Antônio ouviu um pássaro cantar, apesar de ser noite. Muito depois, soube que ali estava sendo construído um quartel do Exército, município de Alagoinhas, a pouco mais de 100 quilômetros de Salvador.

Marcos Antonio começava a compreender melhor no que estava sendo envolvido. Era mais kafkiano ainda. Não tinha nada a ver com o PCB, nem com nenhuma atividade política propriamente dita. Era apenas e tão-somente um engenheiro da Petrobras. Tinha consciência, no entanto, que pouco adiantava dizer isso. Não tinha idéia de como a repressão política tinha concluído que ele era do PCB, e direção do partido ainda por cima.

Era um bom profissional e um pacato cidadão. Um trabalhador. Engenheiro competente. Gostava do que fazia. Desde que começou a sua odisséia, começou a pensar sobre as razões daquela prisão. Imaginou primeiramente tratar-se de perseguição dentro da própria Petrobras.

Tentou juntar as coisas. Havia manifestas divergências profissionais entre ele e Érico Pena, chefe do Setor de Manutenção, e Silvan Ferreira da Silva, chefe do Distrito Sul da Região de Produção da Bahia, com sede em Candeias, município próximo a Salvador. E, para agravar, o chefe da Segurança Patrimonial da Petrobras, Hélio Teles, morava também no edifício Rio Minho. E Teles era um notório bajulador de Silvan Ferreira da Silva e de todas as chefias superiores. Ele sabia da força que tinham os homens da segurança no período. Será que era isso?

Compreendeu que não. Que era mais grave. Tinha consciência de sua inocência, mas isso não resolvia nada. Voltava a pensar em Kafka.

No edifício, o assunto era um só: a prisão de Marcos Antonio. O porteiro encarregava-se de espalhar a notícia.

- O doutor Marcos está preso. Foi levado pela Polícia Federal. O engenheiro João Vianney Gurgel Fernandes, também da Petrobras, amigo da família, estava estupefato:

- Quem diria, hein? O Marcos conseguiu disfarçar esse tempo todo. O Marcos é comunista!

Repetiu isso uma duas dezenas de vezes nas 12 horas que permaneceu no apartamento. Chegou às 19,30 horas e foi obrigado a permanecer no local até as 7,30 horas do dia seguinte. Vianney era da mesma turma de Engenharia Mecânica de Marco Antonio, da Universidade Federal do Ceará.

- Mas, como pode? Marcos Antonio comunista...

O apartamento fora praticamente interditado. Os que estavam em casa e os que foram chegando não podiam sair – Vânia, a filha e o filho, duas primas dela que passavam férias em Salvador, Vianney e a esposa Zuleide, dois oficiais da Polícia Militar, um deles Sigfrid Frazão, atualmente na chefia da Casa Militar da Assembléia Legislativa da Bahia. Estes tinham ido ao apartamento com intenção de passear com as primas de Vânia.

Vianney não parava de dizer:

- Quem diria... Marcos comunista... Quem diria... Comunista...

Logo que chegaram ao destino, os três foram separados. Ao que supõe, Marcos Antonio ficou no meio de um pátio. Confusamente, ouvia vozes, diálogos entrecortados entre presos e policiais, ou, como ele prefere chamar, seqüestrados e seqüestradores. Diálogos é modo de dizer. Gritos, palavrões. Ao longe, gritos de dor. Tortura. Estava em meio ao terror. “Não adianta. Sabemos de tudo. É melhor confessar”. Este era uma espécie de chavão. Sabia que o seu momento ia chegar. Não sabia o que iria acontecer. Desconfiava apenas, cheio de medo, sua companhia mais íntima desde o momento que saiu de casa.

Levaram-no. Fizeram-no sentar numa espécie de calçada. Alguém, que devia ser o chefe, era chamado de Doutor, começa a falar com ele de modo cortês, educado:

- Você tem que colaborar, contar tudo que sabe. É melhor assim.

- Eu não sei nada daquilo que vocês estão me acusando. Vocês estão enganados.

O Doutor mudou completamente a postura.

- Filho de uma puta! Você aqui fala de qualquer jeito! Seu comunista de merda!

O policial que estava junto do Doutor levantou o capuz de Marcos Antônio e deu-lhe muitos tapas na cara. Levaram-no depois para o centro do pátio, levantaram o capuz, iluminaram-no com uma forte luz de lampião, e o doutor, então, concluiu que de fato havia um engano. Não era ele a pessoa que procuravam.

Marcos Antonio nasceu em Baturité, município situado a 100 quilômetros de Fortaleza. Fez o então chamado primário – até o 5º ano – com os frades franciscanos em Canindé, até o 3º ano ginasial em Campina Grande, na Paraíba, e terminou o ginásio e científico no Colégio Estadual Liceu, em Fortaleza. Concluiu Engenharia Mecânica na Universidade Federal do Ceará. Hoje ironiza as datas: começou a universidade no ano do golpe, 64, e terminou em dezembro de 1968, mês do AI-5.

Nas movimentações estudantis, nunca se filiou a qualquer partido revolucionário. Lembra-se de ter sido do Conselho de Líderes de um cursinho pré-vestibular da Sudene e de ter escrito alguns artigos em jornaizinhos estudantis, onde especulava sobre o mundo baseado nas encíclicas papais, natural para quem tivera uma formação cristã junto aos franciscanos. Esteve à margem da luta frontal contra a ditadura. Isso não o livrou de cair nas malhas da Operação Radar, que fora desencadeada em 1973 e durou até 1975, seu auge, e que visava destruir o PCB, sobre a qual já falei em outros artigos, aqui mesmo neste site. Por engano, mas caiu. Na verdade, pretendiam prender Marco Antonio da Rocha Medeiros, este sim, dirigente do PCB.

O Doutor que interrogou Marcos Antonio era ninguém menos que o torturador-assassino Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante da Operação Radar na Bahia, ao lado de outro assassino-torturador, Sérgio Paranhos Fleury. Foi saber disso, me confessou Marcos Antonio, a partir de textos meus onde falo sobre a Operação Radar, inclusive no site da CartaCapital.

Ustra – o Doutor – reconhecido o equívoco, pede desculpas a Marcos Antonio.

- Devo alertá-lo, no entanto, que você não deve contar isso a ninguém, nem mesmo à sua esposa. Logo vamos levá-lo para casa.

Marcos Antonio protestou contra o absurdo de sua situação.

- Trate de ficar bonzinho. Ou você quer ficar aqui com os outros?

Era melhor silenciar. Ainda era o reinado de Kafka.

Retiraram-lhe as algemas. A escuridão continuava – nada de lhe tirarem o capuz. Um vento frio o castigava, junto com as muriçocas.

Às quatro da manhã, a equipe de Ustra liga para os policiais que estavam no apartamento e avisam que Marcos Antonio seria libertado. Às 7,30 horas, o apartamento foi liberado.

Marcos Antonio considera que a viagem de volta foi bem mais rápida. O destino foi novamente o Quartel de Amaralina. E ainda veio com as algemas por debaixo das pernas, mesmo inocente. Foi mais bem tratado.Comeu biscoitos com queijo e café. Dormiu num colchonete, no chão. Dormiu bem. O doutor voltou a falar com ele, repetiu as desculpas e as ameaças.

- Trate de ficar de bico calado. Se falar, você sabe as conseqüências.

Os três policiais que o prenderam repetiram os pedidos de desculpas.

- Você sabe... Infelizmente, às vezes, quem paga o pato às vezes não tem nada a ver com a coisa.
E aí o informaram que haviam prendido o verdadeiro Marco Antonio, o procurado.

Ajudaram-no a se vestir, retiraram as algemas, friccionaram-lhe os pulsos, mandaram-no flexionar as pernas e mãos, que normalmente ficam entorpecidas nessas situações. No fusca, após lhe devolverem os pertences, o encapuzaram e o levaram até perto de seu apartamento, não sem antes repetir as recomendações e ameaças.

O pesadelo terminara.

Marcos Antônio, no entanto, nunca o esqueceu.