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Universidade: paternalismo x liberdade

por Pedro Estevam Serrano publicado 16/03/2015 13h29, última modificação 15/06/2015 16h56
A falta de autonomia no ambiente acadêmico se revela também na sala de aula e revela instituições que não cumprem sua missão educadora
Marcos Santos / USP Imagens
Universidade de São Paulo

O campus da USP, em São Paulo. Qual é o papel da universidade na vida de seus alunos?

A morte do jovem estudante do curso de engenharia da Unesp em Bauru, no interior de São Paulo, que, durante uma gincana de bebedeira, ingeriu cerca de 30 doses de vodca, e as investigações acerca de estupros praticados em festas na Faculdade de Medicina da USP, têm suscitado na sociedade as mais variadas e controversas discussões.

Fala-se sobre o suposto exacerbamento do comportamento autodestrutivo dos jovens em geral, e dos brasileiros em particular que, segundo estudos do Ministério da Saúde, são cada vez mais acometidos por “transtornos ocasionados pelo uso de álcool". Em 2012, último levantamento disponível no portal da pasta, 242 mortes na faixa etária dos 20 aos 29 anos foram registradas com essa motivação. Discute-se a legitimidade e a importância de rituais de iniciação como os trotes, o questionamento das responsabilidades, sobretudo nos casos que terminam em eventos trágicos.

A universidade, ávida por esquivar-se de um problema que lhe diz total respeito, geralmente é a primeira a tirar o corpo fora. No caso do estudante da Unesp não foi diferente. Diante da notícia da morte de seu aluno, a instituição logo disparou por assessores a informação de que a festa da qual ele participara ocorrera para fora de seus muros, ressaltando que veta o uso de bebidas alcoólicas nas dependências de seus campi. Aqui chega-se a um ponto crucial para debater o papel da universidade na vida do jovem.

A proibição de festas e determinadas tradições acadêmicas dentro das universidades, como forma de isentarem-se de responsabilidade em caso de abusos e desfechos indesejáveis, tem sido procedimento corriqueiro. A proibição, entretanto, é mais do que um ato preventivo, pois contém em si a incapacidade dessas instituições em cumprirem plenamente o seu papel. Ao jogar o problema para fora dos portões, demonstrando maior preocupação com sua responsabilidade jurídica e patrimonial, a universidade abdica de seu papel pedagógico.

O conceito de universidade está atrelado à produção de conhecimento. E uma universidade verdadeira, que não seja um mero caça níquel ancorado em um modelo de business cada vez mais aplicado no Brasil e no mundo, sabe que sua missão primeira é renovar os saberes já existentes. E sabe também que essa atividade tão nobre tem um custo humano. Ora, nada que é humano é produzido de forma bem pensante, tranquila – tal ordenamento não se conhece na história humana. Não se consegue produzir conhecimento sem amplas doses de liberdade. Como dizia Durkheim, o verdadeiro ambiente coletivo livre é aquele que convive, em certa medida, com alguma dose de transgressão. A universidade, para produzir verdadeiro conhecimento, também tem que ser livre e conviver no seu interior com alguma transgressão.

Essa convivência da universidade com a transgressão inerente à liberdade só se viabiliza pela produção de relações pedagógicas não paternalistas, verdadeiramente informativas e libertárias, que se estendam do campus à sala de aula. Mas não é o que se tem observado. Ao contrário, o que se vê no campus hoje é uma tendência do aumento da presença inexplicável da polícia, ou do bedel, e de mecanismos de fiscalização que impedem o jovem de assumir o papel de adulto livre para fazer escolhas. E aí se descortina um dos grandes paradoxos desse modelo. Há a expectativa de que os jovens desenvolvam um senso moral ultra ativo, ao mesmo tempo em que são obrigados a agir de acordo com mecanismos normativos extremamente rígidos, onde não há liberdade de escolha. Espera-se que saiam da universidade com uma capacidade de opção moral que o próprio ambiente universitário desencoraja, ao desconstruir os espaços onde se pode fazer escolhas, errar, retroceder e avançar. E daí cabe questionar também como se combate a corrupção numa sociedade onde o sujeito não se cria como um adulto que tem capacidade de opção ética.

Essa postura paternalista de impedir que o jovem tenha autonomia no ambiente acadêmico contamina também a sala de aula e a relação professor-aluno. A universidade – especialmente as instituições privadas –, para reproduzir o ambiente confortável a que o jovem de classe média está habituado, exige que seu corpo docente seduza e atraia o aluno por meio de conceitos simplificados dos tratados e conhecimentos científicos. O professor ultradidata, que personifica o showman, e a mercantilização dos saberes em formatos “amigáveis” – resumos, apostilas, conceitos sintéticos – como forma de tornar o aprendizado mais palatável, representa hoje o sucesso e a ruína desse modelo de ensino. Desse modo, perde-se de vista que, na maioria das Ciências Humanas, por exemplo, não é possível traduzir em conceitos simples pensamentos complexos, sem sacrificar a amplitude desse saber, sem fraudar aquilo que se pretende transmitir. Além do mais, estudar em uma universidade pressupõe, sob diversos aspectos, a saída da zona de conforto, do mundo até certo ponto protegido de uma parcela da juventude que ainda não chegou à idade adulta. Permitir ou favorecer que o jovem exerça liberdade de opção moral e ética é permitir que ele adentre a zona de desconforto e se torne adulto.

O mesmo processo vale para o campo do saber. Para que se torne um adulto no conhecimento e passe a entender as complexidades daquilo que lhe cerca na sociedade, no mundo cultural e natural, não é recomendável que o jovem absorva essas complexidades de forma simplificada. Seres humanos que compreendem o mundo político e cultural de maneira superficial são seres humanos domináveis, porque deixam escapar as complexidades da realidade que estão no entorno, tornando-se alienados em relação a elas. O cidadão alienado nada mais é do que um cidadão infantil que não teve oportunidade de se tornar um adulto do saber.

A universidade, ao proibir, refrear e desestimular a autonomia do jovem, moldando seres alienáveis, perverte o seu papel pedagógico e decreta sua ruína enquanto potência educadora. Na medida em que opta por colocar o problema para fora de seus portões, ao invés de absorvê-lo e resolvê-lo de forma adulta, intramuros, escancara sua incapacidade de guiar os jovens na direção de uma formação adulta e verdadeiramente cidadã e reflete um sistema pedagógico-educacional declaradamente falido.