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Universidade Federal em Embu das Artes: bem vinda?

por Coluna do Leitor — publicado 10/12/2010 08h59, última modificação 10/12/2010 12h13
A universidade na cidade, tão desejada, é bem vinda. Principalmente se ofertar oportunidades e condições para ingresso aos alunos da região. Pelo leitor Douglas Sempre

Por Douglas Sempre

Li em um dos grandes jornais de S.Paulo entrevista com o reitor da Unifesp, quando da inauguração ou aprovação do projeto de instalação de um módulo da Universidade em Osasco. Dizia ele: Vamos implantar lá os cursos que são a vocação da região. O jornal da Prefeitura de Embu das Artes de novembro de 2010 atribui ao Ministério da Educação afirmação semelhante em relação ao módulo a ser implantado em Embu das Artes.

Provavelmente serão estes os cursos oferecidos: Administração, Pedagogia, Geografia, História... Tudo bem, são carreiras necessárias para a sociedade, mas quando a nossa região terá vocação também para a Engenharia, Medicina, Matemática, Física, Química, Empreendedorismo de ponta, vocação para as importantes funções no ramo do petróleo, do açúcar, do álcool, da alta tecnologia? É possível que quando nasça, o ser humano, qualquer um, tenha em potência maior aptidão para desempenhar uma ou outra atividade, mas ele se constrói a cada dia. Caso não lhe seja ensinado esta atividade específica, mesmo que tenha aptidão em potência para desempenhá-la, não terá condições de desenvolver aquilo que desconhece.

Por outro lado desenvolverá, razoavelmente ao menos, uma atividade específica, caso seja ensinado, mesmo que não tenha nascido com aptidão em potência para ela. Deram, a meu ver, significado limitadíssimo à palavra vocação; esquecem que têm o dever de educarem todos os cidadãos do país para serem cidadãos do mundo. É verdade que a maior parte das pessoas de nossa região escolhe carreiras na área das ciências humanas. O aluno do ensino público, fundamental e médio, – é onde está ou esteve a quase totalidade de nossos jovens – não têm sido educado para desempenhar funções em que sejam predominante o cálculo matemático, nem as carreiras mais rentáveis da sociedade.

Infelizmente, se perceber mais bem educado para o desempenho de funções na área das humanas, também não quer dizer que a maioria tenha sido eficientemente educada para esta área, haja vista a dificuldade de interpretação e construção de textos, usar bem nosso idioma.

Consequentemente, a maior parte das vagas nas Universidades públicas não está ocupada pelos egressos do ensino público. Se nada for feito para melhorar o ensino de base na região, o que teremos aqui é o aumento substancial de alunos de outros lugares, inflacionando o valor dos aluguéis, das baladas, inchando ainda mais o já saturado sistema de transporte público, de saúde.

Ainda, a concretização da construção do complexo da Universidade não garante uma boa Universidade. Prédios sem boas condições de trabalho, de pesquisa, sem professores capazes, não representa muito. Para que isso não aconteça, é necessário se pensar em parcerias entre prefeituras, empresas e União até, para tornar atraente aos bons professores ensinarem aqui. Caso não se atine para estes problemas, teremos um complexo imobiliário, exuberante cartão postal, insumo para propaganda política, sem, no entanto, ver desenvolvida sua função principal que é a de ensinar bem, e principalmente, aos da região.

A Universidade Federal, tão desejada, é bem vinda, mas principalmente se vier como orientadora para que governantes, professores e reitor percebam que vocação, no sentido usado, é mais fruto de deficiência do que de preparo. Que ofertem oportunidades e condições a estes nossos alunos para que ao escolherem uma carreira escolham uma que lhe agrade, - tendo posse, tanto quanto possível, de bem desenvolvida capacidade de análise de si mesmo -, e não uma que a seus olhos lhe é inferior, mas mesmo assim a escolhe, por não ter tido oportunidade suficiente de se preparar para ter uma "vocação" melhor, rentável.

Douglas Sempre é embuense, músico e corretor de imóveis. Estudou filosofia na PUC-SP

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