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Uma reflexão necessária

por Redação Carta Capital — publicado 16/07/2012 11h29, última modificação 16/07/2012 11h53
Sim, o futebol é um negócio lucrativo. Mas ao priorizar jogadas de marketing, em vez da qualidade de seu produto, os clubes oferecem espetáculos cada vez menos atraentes à torcida

Por Afonsinho

Após esse longo período de disputas intrincadas, dá para pensarmos de forma mais ampla e aprofundada questões essenciais do esporte. Uma reflexão necessária, antes que comecem os Jogos Olímpicos e tornemos, agora mais intensamente ainda, a nos ocupar de classificações, medalhas etc.

São tantos esportes que fica impossível abraçar todas as conquistas. À primeira vista parece aflitivo, mas em seguida a sensação é de libertação. Não há mais um rei disso ou daquilo. Recordes vão caindo e o número de esportes olímpicos aumenta cada vez mais. O sonho de que uma medalha não signifique mais a imolação de ninguém. Apenas a leveza do voo dos campeões. A volta do Barão de Cubertin? Delírio? Romantismo? Pode ser.

Enquanto isso, o Campeonato Brasileiro continua a servir de pano de fundo. Não se pode descuidar. Quem se distrair cai do cavalo. Hoje ocupam a zona de rebaixamento três ou até mesmo quatro equipes que vão se desgarrar de lá. São times fortes que estão ali provisórios, enquanto se voltam para outras disputas prioritárias. Quando apontarem suas baterias de volta, vão deixar as vagas em aberto e quem vai preenchê-las?

O Botafogo em transe com a chegada do extraordinário Seedorf precisa abrir o olho. Mexeu muito no elenco e por mais que seja boa a adaptação do novo líder sempre há uma diferença a ser equilibrada. Agora vai aparecer a importância dos pontos acumulados no princípio e que farão suar muito os times do “rabo da fila”.

Esse é um ponto-chave da nossa reflexão. O número de jogos de cada equipe não cabe mais no calendário. As datas se encavalam, provocando adiamentos ou jogos valendo três pontos sendo disputados com equipes reservas. Pior que times favoritos ao título são prejudicados e perdem-se pelo caminho.

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Já que falamos em Seedorf, surgem outros pensamentos sobre a movimentação dos clubes. Temos insinuado que os grandes times brasileiros deveriam se adaptar aos campeonatos globalizados que vêm por aí. O Corinthians vem se preparando para isso. Teve mudanças políticas de rumo, trouxe o Ronaldo Fenômeno, que seguiu como empresário e falou em trazer da Europa um nome sonoro, mas não emplacou. Até já trouxe um chinês. Coisas de mercado. O Botafogo, em grande jogada de “marketing”, apostou forte nessa ideia de se equiparar aos maiores clubes internacionais. Contratou um profissional excepcional. O atleta nascido no Suriname, craque da seleção holandesa, do Real Madrid e do Milan, pode dar um brilho especial à “Estrela Solitária”.

Ao trazer o Forlan, o Internacional parece preocupar-se mais com o futebol em si, embora ninguém se descuide dos negócios. Profissionais do mercado esportivo repassam à mídia muitos números e dados sobre as posições dos maiores clubes do mundo em relação ao total de torcedores (consumidores), arrecadação, outras fontes de renda e fatores necessários para se alcançar o status de “superclubes”. Nessa direção caminham esses times com essas contratações bombásticas e outras estratégias.

Mesmo admitindo o esporte como um dos grandes negócios do nosso tempo, não se pode descuidar de sua qualidade. Deve haver um produto sempre melhor, e não ao contrário. Um espetáculo cada vez mais atraente.

Estou arrasado depois da convocação da seleção olímpica. Por consequência, me desencantei com a Copa do Mundo. Tomara que passe com o tempo. Sem ilusão não dá para viver. Naquela relação de jogadores fica claro que o “olho grande” é maior que o bom senso. Tem jogador que não pode vestir a camisa amarela e os outros interesses ficam escancarados. Melhor voltar a se iludir. Pensar que se deixou a Olimpíada para servir de “laboratório” e a Copa das Confederações para se montar a Seleção do Mundial. Tomara que não seja tarde demais. Sei não.

O alento vem nas revelações jovens que despontam em bom número e podem aumentar até o Mundial. Despontam nomes como o Romarinho corintiano e o flamenguista Adryan. Outro motivo de apreciação, o ressurgimento do “drible”. Ele é a essência do futebol. A pedra de toque da eterna discussão entre o futebol arte, futebol de resultado, futebol força e futebol malícia. O drible magnetiza o espectador, tem o poder de paralisar tudo até a respiração. A emoção do drible prende a alma do torcedor. O drible faz luzir todo o trabalho preparado, racionalizado.

A falta do drible esteriliza o futebol. O drible é a liberdade, a apoteose, o gol, o êxtase.

Em tempo: Inteligência e não somente sorte marcam a carreira vi­toriosa do Emerson, herói corintiano. Lembra a trajetória do gran­­de goleiro Manga, ironizado pe­la baixa escolaridade, nunca lem­brado por sua inteligência co­mo jogador. Foi campeão por todos os times em que atuou, como Botafogo, Coritiba, Internacional.

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