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Uma final na Páscoa

por Socrates — publicado 26/04/2011 08h02, última modificação 26/04/2011 10h11
Bento era um zagueiro dos bons, meio truculento. Mas naquela final do campeonato estadual de amadores ninguém entendeu seu comportamento "leve" em campo. Por Sócrates

Corria o início dos anos setenta. Era a final do campeonato estadual de amadores. Naquele tempo não existia a taça São Paulo de juniores e por isso tínhamos que enfrentar todo tipo de equipe: de associações, de fazendas, de empresas, etc.. O torneio era exaustivo e difícil exigindo um sem número de viagens desgastantes. A princípio regionalmente e depois pelos quatro cantos do estado. Como tínhamos uma boa equipe, tanto que a maior parte se tornou profissional, fomos gradativamente nos aproximando dos confrontos decisivos. E, finalmente, lá estávamos nós. Na primeira partida da final havíamos vencido por 3X0 em uma preliminar do time principal. Jogamos verdadeiramente muito bem e não demos chances aos nossos adversários. Na semana seguinte, teríamos que visitá-los. Naquele dia, nós acordamos de madrugada para aproveitarmos um pouco a companhia dos nossos pais e encontramos nossos chocolates e podermos chegar a tempo em Andradina onde se daria o último jogo. Bastávamos o empate. Depois de mais de seis horas de vôo rasteiro e absolutamente extenuados, chegamos ao nosso destino. Como havia ainda algum tempo para o início do jogo, ficamos na praça principal da cidade apreciando a bela paisagem colorida pelas meninas que se dirigiam à missa de páscoa. A população em peso se fez presente à catedral.

Pouco mais de meia hora após, estávamos na porta do ônibus para nos dirigirmos ao estádio. Todos, menos um. Enquanto estávamos entretidos com o movimento, deixamos de perceber que um dos nossos colegas havia deixado o local em que se encontrava. Pior é que havia certa pressa. Saímos um para cada lado à procura do desaparecido.

Achá-lo era questão de sobrevivência. Como só poderiam disputar aquela competição os jogadores inscritos no ano anterior quando fomos campeões municipais e já que havíamos perdido vários companheiros por diversos motivos como mudança de cidade, contusões e vestibular, possuíamos apenas treze em condições de jogo. Portanto, a presença dele era fundamental. Foi uma correria sem tamanho e nada de encontrar a figura. Já batia o desespero quando me lembrei de uma particularidade do Bento—o ausente: ele sempre foi muito religioso. Até demais! Voltei-me para a igreja e, sem pestanejar, dirigi-me até lá. A bela catedral estava plena. Era gente que não acabava mais. A princípio tentei localizá-lo da entrada principal, mas logo de cara percebi que seria impossível. Com uma paciência inesperada fui pedindo licença a todos enquanto tentava me desviar dos corpos resistentes que limitavam a minha caminhada. Pouco a pouco, pedindo licença ainda que com pressa, fui conseguindo mesmo provocando desagradáveis sorrisos amarelos e grunhidos ininteligíveis, aproximar-me do interior do templo. Percebi, neste momento, que a liturgia encontrava-se em meio ao sermão do padre. Só faltava ter que invadir o espaço central para procurar pelo Bento! De vez em quando olhava para o relógio e mais desconcertado ficava. Foi quando o vi em uma das portas laterais, absolutamente concentrado nas confortantes palavras do orador. O ideal seria chamá-lo pelo nome, mas naquela situação isso se fazia impossível (nos dias de hoje talvez também parecesse heresia). Não tive outra opção que, mais uma vez, atravessar um mar de pessoas em direção à direita. Quando dele me aproximei, pensei em lhe dar uma dura daquelas, mas a sua expressão de paz me deixou constrangido. Principalmente por ter que retira-lo dali imediatamente. Felizmente ele não se negou a me acompanhar. Aí já seria demais. Depois de nos desvencilhar da multidão que se acotovelava no hall, corremos para o ônibus. Fomos recebidos com uma vaia estrondosa. A maior parte dos nossos companheiros não possuía nenhum vínculo religioso mais profundo, e poucos entenderam o seu gesto. Naquele instante, nada era mais importante do que a sua fé. E isso deveria ser absolutamente natural de compreender.

O que não deu para entender foi o seu comportamento na partida. Ele que era um zagueiro dos bons, meio cintura dura e por isso um pouco, digamos, truculento, não fez uma falta sequer no jogo. Quem queria, passava por ele tranqüilamente. Segundo a sua explicação, não podia ser violento em um dia sagrado como aquele-- levou ao pé da letra o conteúdo do sermão. Mas está tudo bem: ser vice-campeão não é de todo mal.

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