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Sociedade

House of Cards

Uma conversa com a Lady Macbeth de Washington

por Eduardo Graça — publicado 16/02/2014 18h03, última modificação 17/02/2014 08h54
Em entrevista exclusiva, Robin Wright revela como reinventou sua carreira e criou uma das personagens mais fortes da atual safra das séries americanas
Divulgação
Robin Wright

Robin Wright interpreta Claire Underwood

O risco é nítido já na primeira troca de olhares com a bela atriz de 47 anos. Robin Wright é Claire Underwood. Confundir atriz com personagem é um passo em falso imperdoável. Mas a ex-senhora Sean Penn, 53, hoje companheira de outro colega de ofício, o intenso Ben Foster, 33, notório por seguir rigorosamente os ditames do ‘método’, permanecendo no personagem, a la Christian Bale, durante as filmagens, está vestida com as armas e as roupas da mulher do político mais ardiloso da ficção audiovisual americana.

House of Cards, cuja segunda temporada já pode ser vista, a partir deste fim de semana, de cabo a rabo, pelos fãs da série, é tanto o show de Kevin Spacey quanto o de Wright. Pelo papel da comandante de uma ONG que na verdade é a faceta lobista menos visível do vice-líder do partido majoritário no Congresso americano, o sulista Francis Underwood, Wright recebeu um Globo de Ouro.  E avisa, achando graça do espanto do repórter: “Não, eu não sou a Claire. Aliás, ainda estou descobrindo quem ela é. Ás vezes, percebo uma faceta a mais dela, na hora das filmagens, no ato”, diz. Ato não é modo de falar. A qualidade dos diálogos, a engenhosidade da trama, o espelho mais ou menos de exato de Hollywood estabelecem um paralelo imediato com o teatro. “É mesmo. A única coisa que percebi, imediatamente, de minhas conversas com David Fincher, foi o paralelo com Lady Macbeth. Foi o suficiente para mim”, diz. Bastou também para levar para casa o laurel, que evidenciou, no entanto, o crime de a indústria cultural americana ter ignorado por tanto tempo a beleza, o talento e a capacidade de encarnar personagens com tamanha veracidade da texana lembrada pela Associação de Jornalistas Estrangeiros de Hollywood anteriormente uma única outra vez, pela Jenny de “Forrest Gump, o Contador de Histórias”, no longínquo ano de 1995.

“House of Cards”, cuja terceira temporada já foi garantida, revolucionou a maneira como os americanos vêem seus seriados televisivos. Televisivos, aliás, é a maneira de falar. A série política, que gira em torno da ambição de um casal mais ou menos inspirado em duplas icônicas como Bill e Hillary Clinton, é a principal razão de o serviço de conteúdo online Netflix contar com 31 milhões de assinantes hoje nos EUA, à frente de gigantes do cabo, como a HBO. Filmado tal qual um “filme de 13 horas, ao longo de sete meses”, nas palavras da atriz, com produção do diretor David Fincher (“A Rede Social”, “Clube da Luta”), é uma das atrações prediletas do presidente Obama e de boa parte da realeza política americana da vida real. O presidente só oferece um senão à representação dos jogos políticos contemporâneos no universo da ficção imaginado por Fincher & cia: “Lá, o Congresso funciona bem melhor”. Wright, em entrevista exclusiva à Carta Capital, dá o troco e oferece uma análise da adminsitração Obama e do “papel dos EUA” nos dias de hoje. E depois de uma série de respostas curtas e encaradas que parecem desvendar a alma do entrevistador – “meu trabalho também é investigativo, não é tão diferente do dos repórteres”, afirma – ainda faz questão de dar a última palavra, aumentando a confusão entre criadora e criatura: “acho que eu acabando falando demais, não?”.

CartaCapital: Longe de querer arrancar algum ‘spoiler’, mas na segunda temporada veremos sua Claire ainda mais maquiavélica, compreendemos mais seus motivos, sua linha de pensamento. É isso?

Robin Wright: É. A gente testemunha...huuum...certas coisas. Aliás, muitas coisas. E é só o que vou dizer.

CC: A senhora diria, no entanto, que agora conhece mais sua própria personagem?

RW: Confesso que quando aceitei fazer “House of Cards” não tinha a menor ideia de quem Claire iria ser. Zero. Quem era esta mulher? No início, só tínhamos, eu e Kevin [Spacey], uma ideia mais ou menos vaga do tipo de união que os dois personagens haviam construído. Minhas primeiras conversas, com Kevin, com Fincher, foram sobre que tipo de casal eles eram, esta espécie de ‘time Underwood’. Uma união bem específica. Sei que são características um tanto etéreas, mas o que logo percebi foi que ela era ao mesmo tempo uma mulher decidida e profundamente analítica. A primeira temporada me serviu como um molde bem genérico para tentar descobrir quem era Claire e para onde ela iria. A colaboração, neste trabalho específico, foi muito intensa. Tanto que, muitas vezes, chegávamos a certas conclusões sobre nossos personagens na hora de gravar, durante a cena.

CC: Parece, para quem olha de fora, que vocês formam uma companhia de teatro. E que se vê, na tela, da televisão, do computador, ou do celular, uma peça de teatro filmada, no melhor sentido da comparação...

RW: Entendo como um elogio, bate com o que queríamos fazer, como se fosse uma grande peça, com vários atos. Em programas da televisão mais clássicos em termos de formato, como ‘Lei & Ordem’, por exemplo, cada episódio é uma entidade própria. Eles não são, necessariamente, co-relacionados. Você pode ver o sétimo tomo de determinada temporada, e tudo bem. Conosco, não. “House of Cards” é sim uma peça ou um imenso filme de 13 horas. Por isso filmamos tal qual fosse cinema, com início, tramas no meio, e um fim.

CC: Faz alguma diferença as possibilidades múltiplas de formato oferecidas pela maneira como a série chega ao espectador?

RW: Para quem atua? Zero. É o de sempre: meu trabalho é o de pesquisar muito com o norte na busca, o que é sempre difícil, mas igualmente essencial, da humanidade do personagem. Ousaria dizer a você que meu trabalho não é tão diferente assim do seu. Você pesquisa para entrevistar melhor. Eu faço a minha também, muito própria, muito específica, para atuar melhor. É, no fim, um trabalho investigativo.

CC: A senhora se inspirou em mulheres de políticos, correu atrás de biografias de figuras específicas, como Hillary Clinton, Michelle Obama, Barbara Bush?

RW: Não. Nem pensei nisso. Mulheres de políticos ou lobistas são personagens jamais expostos, tal qual eles de fato o são, ao público, ao eleitor, aos espectadores. Eles estão imersos em seu próprio teatro. Há, no entanto, um paralelo possível: também faço meu teatro quando circulo pelo tapete vermelho, em uma tentativa de ajudar a promoção de determinado filme. Eu sorrio, dou aquelas entrevistas de cinco segundos cada, mas sei, conscientemente, que aquilo tudo é parte do ritual. É o alimentar da besta. Políticos são atores também. O processo de pesquisa, para mim, começou justamente ao perceber que não teria como descobrir de fato quem ela é, e teria de abraçar o mistério.

CC: Mas este mistério, para ser traduzido na representação, imagino eu, precisaria de um ponto de partida mais concreto, não?

RW: Nas primeiras conversas com Fincher surgiu a imagem de que a Claire seria a Lady Macbeth do Richard III do Kevin. Entendi isso e percebi que não precisava mais ir tão profundamente além deste signo. Mesmo. De verdade, Fisicamente, pensei em animais, por incrível que pareça. Fui ver documentários sobre a águia americana, por exemplo, uma predadora interessantíssima. Prestei muita atenção em seus movimentos, em como esta ave opera na natureza. A Claire vem dali bembém.

CC: A senhora recebeu um Globo de Ouro mês passado por sua interpretação na série e se disse, na ocasião, absolutamente surpresa. Qual a importância de um reconhecimento como este?

RW: Fiquei completamente surpresa, honestamente, não estava fazendo gênero. E a importância é a de ter seu trabalho rotineiro, aquele que você dá um duro danado, lembrado de alguma forma. São sete meses filmando, é uma dinâmica de família, de casa, é, para mim, nada mais do que rotina. Não sei se o prêmio muda algo na prática em minha carreira, em minhas escolhas, de novo, no meu dia-a-dia, que no ano que vem não deverá ser tão diferente assim. No fundo, encaro como parte do meu trabalho, que penso como sendo o de contar histórias para as pessoas, e tentar tocá-las com minha interpretação. Se a indicação e o prêmio são, de alguma forma, uma confirmação de que este momento de sensibilidade coletiva aconteceu, só posso celebrar. Fica a sensação de que eu não estou fracassando no meu trabalho. Mas, veja bem, é só uma sensação, não me iludo com nenhuma interpretação que ultrapasse esta percepção.

CC: A senhora acabou de apresentar no Festival de Sundance seu mais recente filme, “A Most Wanted Man” (ainda sem titulo em português, com estreia em junho nos cinemas brasileiros), cujo protagonista é Philip Seymour Hoffman. Como foi dividir o set com ele?

RW: Foi magnífico. Perdemos um artista verdadeiro, e um homem muito especial também. Philip era brilhante, um talento raro. É uma perda enorme para os que tiveram a sorte de estar próximos dele.

CC: O presidente Obama é fã de “House of Cards” mas brinca que o Congresso da série é de mentirinha mesmo, porque aprova muitas leis...

RW: Sabe que chegamos a pensar se não ficaria muito longe da realidade justamente por conta de tamanha eficiência? Mas pensamos que precisávamos de um Congresso que de fato fizesse seu trabalho, ou seja, discutisse e aprovasse legislação, para a série seguir adiante. Do jeito que é na vida real, ao menos aqui nos EUA, não tem como retratar o Poder Legislativo em uma série de ficção, ou a narrativa, também, empaca.

CC: A senhora foi casada com um ator que sempre fez questão de expressar politicamente com nitidez. A senhora acompanha a política americana com atenção? Poderia devolver o comentário do presidente Obama e dizer se está satisfeita com as seis temporadas da adminsitração democrata?

RW: Não leio sobre política, não sou um ser político. Não mesmo. Então, este é um comentário de quem, ao contrario do presidente, que segue nossa série, não acompanha tão de perto assim seu trabalho em Washington. Mas me parece que há um senso geral de desapontamento com esta administração. Não tenho conhecimento o suficiente para julgar o governo Obama, mas o índice de desemprego dos EUA é devastador para as famílias americanas. Não quero estabelecer aqui uma comparação ingênua entre o que passa uma família típica americana e uma outra de um país do chamado Terceiro Mundo, mas, para nós, hoje, nosso país parece estar em um processo de dificuldade perpétua, nada progride facilmente. Aliás, qual o lugar dos EUA no mundo de hoje? Acho que nos debatemos, neste momento, de forma profunda, em torno desta questão. É um momento histórico complicado. Sabe qual meu sonho? Passar alguns meses nos países nórdicos e trazer para Washington um manual de políticas públicas, de como reinventar a noção do estado de bem-estar social em um país continental como os EUA, se é que isso é possível. Ih, acho que acabei falando demais, não?

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