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Uma agenda para o crescimento latino

por Redação Carta Capital — publicado 29/09/2012 16h10, última modificação 29/09/2012 16h10
Educação, investimento e produtividade são os pontos centrais do planejamento, diz Pablo Fajnzylber, economista do Banco Mundial
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Pablo Fajnzylber. Foto: Divulgação / Banco Mundial

Por Thaís Costa

Um novo salto de desenvolvimento na América Latina nos próximos anos só será possível se os países aumentarem as taxas de poupança e investimento, ampliarem a quantidade e a qualidade da educação da população e melhorarem a produtividade do setor privado, analisa o economista-chefe do Banco Mundial para o Brasil, Pablo Fajnzylber. Ele reconhece que a América Latina tem feito grandes avanços na última década em termos de redução da pobreza e estabilidade macroeconômica, mas prevê para este ano um crescimento inferior ao constatado no ano passado.

CartaCapital: Como o senhor enxerga o futuro de curto prazo da América Latina?
Pablo Fajnzylber: Os principais riscos para o crescimento dos países da América Latina estão associados, pelo menos no curto prazo, a fatores externos. O mundo atravessa um período de elevada volatilidade e incerteza, o que tem se refletido em mudanças muito rápidas no humor dos investidores, assim como na magnitude e direção dos fluxos internacionais de capital. O primeiro trimestre de 2012, por exemplo, foi caracterizado por uma recuperação da economia mundial mais rápida do que o que tinha sido esperado, puxada por melhores perspectivas de avanço na resolução dos problemas fiscais e financeiros na área do euro. O bom humor dos investidores, no entanto, durou pouco. Entre maio e junho, as más notícias vindas da Grécia, Espanha e de outros países europeus eliminaram a maior parte dos ganhos verificados durante os primeiros quatro meses do ano nas bolsas de valores de países avançados e emergentes. No futuro próximo, o crescimento da América Latina continuará a depender em grande medida de fatores externos à região. Estes incluem o ritmo de avanço na resolução dos problemas fiscais e financeiros na área do euro, a possibilidade de evitar uma contração fiscal excessiva nos Estados Unidos, o avanço no desenvolvimento de planos de consolidação fiscal de médio prazo nesse país e no Japão, o ritmo de desaceleração da economia chinesa e a evolução dos preços das commodities. É claro que há também fatores internos aos países da América Latina que afetam o seu potencial de crescimento no futuro próximo. Esses fatores variam muito de país a país. Eles incluem o tamanho das pressões inflacionárias, o espaço existente para a implementação de estímulos fiscais e a possibilidade de manter um ritmo elevado de crescimento do crédito sem criar ameaças à estabilidade financeira.

CC: A percepção do Banco Mundial é otimista para todos os países da região?
PF: De maneira geral, a América Latina deve crescer menos em 2012 que em 2011. A desaceleração observada desde meados de 2011 se deve em grande medida à elevada volatilidade externa. Em muitos países, no entanto, o menor ritmo de crescimento observado no último ano tem sido causado, também, por uma desaceleração da demanda doméstica. Esta esteve associada ao fato de que vários países implementaram, desde 2010, políticas monetárias restritivas em resposta a sinais de sobreaquecimento após a recuperação da crise de 2008-2009. Tal como no caso do Brasil, desde meados de 2011 vários países têm mudado o sinal de suas políticas macroeconômicas e o impacto desses novos estímulos devem se fazer sentir na segunda metade de 2012. No caso do Chile, a economia já está dando sinais de aceleração, puxada pela demanda doméstica: o investimento cresceu 8% e o PIB, 5,4% no primeiro semestre. No resto do ano, no entanto, espera-se que o Chile sinta novamente os efeitos da desaceleração da economia mundial — por exemplo, através da queda no preço do cobre — e cresça menos de 5% em 2012. O Peru e a Venezuela também têm mostrado grande dinamismo. O Peru cresceu 6,1% no primeiro semestre de 2012 e tem boas perspectivas de manter esse desempenho no restante do ano. A sua boa situação econômica e fiscal levaram a um recente upgrade por parte da agência de avaliação de risco Moody’s. A Venezuela também tem crescido acima de 5% em 2012 e espera-se que mantenha esse desempenho no restante do ano. As perspectivas para 2013, no entanto, são bastante menos positivas para esse país: boa parte do crescimento em 2012 se deve a gastos públicos que devem se desacelerar após as eleições de outubro. E apesar de o salário mínimo ter tido um aumento de 32% neste ano, ele tende a ser erodido por uma inflação próxima a 20% ao ano. Quanto ao México, o crescimento do PIB tem ficado acima de 4% no primeiro semestre, e as suas perspectivas dependem em grande medida da evolução da economia americana.

CC: De que forma a maior parte dos integrantes da região — exceção seja feita ao Chile e Peru — poderia vencer as dificuldades tradicionais de carência de infraestrutura, burocratização excessiva, sistema tributário oneroso, judiciário moroso, carência de recursos públicos para obras públicas?
PF: Os países da região enfrentam o desafio duplo de responder adequadamente aos choques externos, em particular a desaceleração da economia mundial e a volatilidade dos fluxos de capital, e ao mesmo tempo desenvolver uma agenda de reformas estruturais que permita criar condições melhores para o crescimento de médio e longo prazo. Ambos objetivos não são necessariamente excludentes. Por exemplo, o pacote de estímulo aos investimentos privados em infraestrutura anunciado recentemente no Brasil pode contribuir tanto com a aceleração da recuperação econômica no curto prazo, quanto com o aumento do potencial de crescimento do País no médio prazo. É importante, no entanto, não descuidar do controle das finanças públicas e da estabilidade do sistema financeiro, inclusive para garantir que o País tenha condições de responder a novos choques externos, tal como o fez de forma tão bem sucedida em 2008 e 2009.

CC: Como o senhor vislumbra o horizonte de dez anos? Será que a América Latina vai aproveitar esse bom momento da economia vivido hoje, com o auge das exportações de commodities e a crise vivida pelas economias desenvolvidas dos Estados Unidos e da União Europeia?
PF: A América Latina tem feito grandes avanços na última década em termos de redução de pobreza e estabilidade macroeconômica. Para dar um novo salto nos próximos anos, será fundamental que a região mantenha o avanço nessas áreas mas o complemente com novos avanços em três áreas fundamentais: o aumento das taxas de poupança e investimento, o aumento da quantidade e qualidade da educação da população e o aumento da produtividade do setor privado.