Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Um tsunami nas ideias

Sociedade

Carnaval

Um tsunami nas ideias

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 05/04/2011 10h02, última modificação 05/04/2011 10h02
Por que não transformar, nas semanas de Momo, a orla e o Aterro do Flamengo num grande blocódromo?

Poderíamos falar do Abaporu (1928), a tela que vive em terras portenhas, a mais famosa de Tarsila, e que pousou no Alvorada numa exposição em homenagem à mulher. Por falar em mulher, aquele programa de estréia da Hebe  pecou pelo excesso de tudo, do sentimentalismo ao brilho e aos brilhantes.

Foi over na breguice, com o respeito que merece a prima donna da TV brasileira.  Mas ressalve-se, ainda, a frase (colocada na boca) de Joãozinho Trinta: - “Quem gosta de pobreza é intelectual.” Adaptemo-la para: - “Quem gosta de minimalismo e conteúdo...”

As autoridades cariocas finalmente reconheceram que a cidade não aguenta um novo Carnaval com a frequência dos foliões de blocos de ruas crescendo geometricamente. Nada de licença para novos blocos (ufa!), prometem. Aguardemos a chegada de um novo fevereiro.

Levanta-se uma boa idéia, repetida por muitos taxistas e moradores da Zona Sul. Por que não transformar, nas semanas de Momo, a orla e o Aterro do Flamengo, já fechados como área de lazer nos fins de semana, num grande blocódromo?

A medida liberaria as ruas internas dos bairros tomadas pelas hordas foliãs e não atrapalharia a vida de quem quer ir à padaria ou pegar um táxi que, aí, sim,  voltariam às ruas em busca de passageiros.

Os moradores da orla, coitados, sofreriam um pouco mais no Carnaval, além do que já passam durante todo o ano. Mas, altos escalões guanabarinos já disseram que há de se pagar, além do um proibitivo IPTU, um sobrepreço por morar nos “cartões postais” da cidade, como Copacabana e Ipanema. Não sabemos se vira um inferno a vida da vizinhança das atrações turísticas internacionais.

Muitos poderão alegar que tais corredores descaracterizariam os desfiles das agremiações que nasceram da identidade de cada bairro, como sob o sovaco do Cristo, à vista das reclusas Carmelitas de Santa Teresa ou balançando os grilhões na Praça Mauá.

Evoquemos o desfile das escolas de samba em um corredor de concreto e que deu muito certo, organizando a festa sem desorganizar a cidade. O conceito “sambódromo” (idéia do editor Alfredo Machado, ao tempo do Prefeito Marcos Tamoyo), emplacou e espalhou-se pelo País.

São históricos os desacertos no Centro antes da construção, já no Governo Brizola, da então polêmica Passarela do Samba, que vira escola durante o ano, idealizada por Darcy Ribeiro. Também porque cresceram muito, os trios elétricos passaram a cumprir circuitos definidos na linda, enladeirada e estreita Salvador. Então, por que não fundar os blocódromos?

E Angra e adjacências? Diante da hecatombe nuclear japonesa, ainda há técnicos e políticos por aqui que simplificam a discussão dizendo que o País não está deitado em berço tectônico. E de que Deus é brasileiro. Ainda bem que há sábias vozes dissidentes invocando as falhas da ciência.

Que as usinas de Angra 1 e 2 estejam preparadas para desastres naturais de grau sete, ok.  Mas qualquer um sabe, há mais de 30 anos, que não há rotas de fuga viáveis na região, hoje favelizada, sempre atingida por sérios deslizamentos e mal servida pela frágil e eternamente em obras Rio-Santos.

No trecho, a BR-101 mal resiste às chuvas e ao fluxo de veículos nos feriadões e em simples fins de semana, além de ser, do Rio a São Paulo o principal acesso à cidades turísticas históricas, como Paraty, e a uma rede hoteleira das mais procuradas do país. Está na hora, também, e portanto, de se acabar com as frescuras que impedem o asfaltamento da estrada Paraty-Cunha (e de lá à Dutra), uma das rotas de fuga num desastre nuclear.

Parece que chegou mesmo a hora de a população começar uma campanha séria em defesa da vida de todos.

registrado em: