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Sociedade

Rodrigo Martins

Exploração 2

09.09.2010 10:07

Um paraíso, para os estrangeiros

Vilarejo de pescadores no Ceará fica refém da especulação imobiliária. Por Rodrigo Martins. Foto: Rafael Cavalcanti/ Jornal O Povo

Quando o cineasta espanhol José Huerta decidiu rodar um filme sobre o vilarejo Parajuru, no município de Beberibe, litoral cearense, jamais imaginou que seria alvo de uma avalanche de processos e precisaria mobilizar uma rede internacional de apoio para divulgar a obra. Seu interesse inicial era o de fazer um amplo retrato de um povo que sobrevive da pesca artesanal numa paradisíaca praia brasileira, e com forte apego à vida comunitária. Esbarrou, no entanto, numa intrincada história de especulação imobiliária, promovida por um grupo de capital austríaco que loteou espaços na praia e numa reserva ecológica.

Finalizado em 2009, o documentário Uma Semana em Parajuru foi exibido no maior festival de cinema do País, o Festival do Rio, e no Florianópolis Audiovisual Mercosul (FAM), mas teve pouca repercussão- na mídia brasileira. Pudera, dos parcos recursos disponíveis para divulgar o filme, patrocinado pelo Ministério da Cultura da França, parte significativa teve de ser usada para pagar as custas de sete processos por danos morais e materiais, cujos pedidos de indenização somam 150 mil reais, e um criminal por difamação. Todos patrocinados pela Estrela do Mar, que se instalou na região há cerca de seis anos e hoje detém um extenso leque de investimentos que inclui pousada, hotel-escola, luxuosas casas de veraneio e muitos terrenos.

Entre os sócios do empreendimento está Peter Hochegger, enredado no escândalo financeiro Buwog-Affare, na Áustria, em 2004. Ele prestou consultoria para uma empresa que venceu uma concorrência governamental com informações privilegiadas. Conforme admitiu ao jornal cearense O Povo, a sua empresa recebeu uma comissão de 10 milhões de euros. O austría-co diz ter ficado com apenas 20% desse valor (o restante era do sócio, amigo do então ministro das Finanças da Áustria, que repassou os dados sigilosos da licitação). E foi com esse dinheiro que o austríaco teria comprado 20% do hotel Paraíso do Sol e vários terrenos em Parajuru. “Já expliquei tudo ao Ministério das Finanças (da Áustria)”, justificou-se na entrevista.

O documentário não aborda a atuação do investidor austríaco, uma vez que sua presença no empreendimento só foi revelada depois. Mesmo assim, as críticas pontuadas pelos entrevistados no filme despertaram a ira dos sócios da Estrela do Mar. “Não haveria o menor problema desse grupo se instalar em Parajuru, não fosse a forma, no mínimo, questionável de atuação. A empresa está lucrando horrores com a compra e venda de lotes no vilarejo, num processo muito semelhante ao ocorrido em diversas outras localidades do Nordeste brasileiro, que abraçaram o turismo massivo e hoje estão absolutamente descaracterizadas, tanto do ponto de vista ambiental como cultural”, afirma Huerta.

Como exemplo, o cineasta cita uma entrevista concedida por Gisela Wisniewski, sócia do empreendimento e prima de Hochegger, para uma emissora de tevê austríaca, na qual admite ter comprado terrenos a preços irrisórios, 50 centavos de euro por metro quadrado, e revendido a estrangeiros por até 15 euros. Perspectiva futura: chegar à marca de 100 euros.
Insatisfeito, um grupo de moradores iniciou uma campanha para tentar impedir a compra desenfreada de imóveis na região. “Muitos venderam suas casas a troco de banana e, depois, tiveram dificuldade para encontrar um canto para viver. Outros tantos abandonaram a região. Hoje quase tudo é dos estrangeiros”, diz a massagista Marilac Félix Mariano, de 38 anos.

Para se contrapor à crescente resistência da população, a Estrela do Mar patrocina diversos projetos sociais, incluindo escola para crianças, cursos de capacitação profissional e aulas de inglês e alemão. Marilac foi uma das beneficiadas por -alguns desses projetos. Participou do programa de capacitação para massagistas, por três meses e iniciou um curso de hotelaria com duração de dois anos, aulas práticas e teóricas, e a promessa de um estágio nos hotéis que o grupo possui na Áustria.

“Agradeço pela formação de massagista, mas minha experiência no hotel-escola não foi nada agradável. Fiquei um ano lá, aprendendo alemão e inglês, mas também trabalhando, sem descanso nos fins de semana, como cozinheira, copeira, camareira, uma série de funções, e sem receber um vintém”, afirma. “Abandonei a escola, porque não tinha condições de me manter, eles só davam algum auxílio a partir do segundo ano. De 36 inscritos, apenas 12 concluíram o curso.”

Para Chico Mariano, presidente da Associação dos Produtores de Parajuru, os cursos oferecidos à população -visam, apenas, a capacitação e exploração de mão de obra barata. “Hoje, a comunidade está dividida. Eles oferecem algumas benesses e muitas oportunidades de emprego, sobretudo na construção civil, o que é ótimo. Por outro lado, lotearam a praia, criaram uma escola de kitesurf em área de preservação ambiental, impedem os banhistas de entrar na água quando praticam esse esporte. É um desrespeito. Só que quem depende dos austríacos, porque virou empregado, jamais vai dizer isso a você”, afirma o líder comunitário, também preocupado com as consequências do crescimento desordenado da região, da degradação ambiental ao risco do turismo sexual, presente em várias praias nordestinas.

Graças a uma denúncia da associação, os órgãos ambientais embargaram a construção de uma escola de kitesurf à beira-mar, numa área de preservação permanente. O Ministério Público Federal entrou com uma ação contra o grupo, exigindo a demolição do prédio, a reparação dos danos ambientais e o pagamento de uma indenização. “A construção ilegal causou e está causando prejuízos ao meio ambiente”, registrou o procurador da República Luiz Carlos Oliveira Júnior no processo.

O diretor-geral da Estrela do Mar, Alfred Kurtz, não atendeu aos insistentes pedidos de entrevista de CartaCapital. Em carta ao blog O Esquema, que divulgou uma entrevista com Huerta, afirmou que o cineasta espanhol “foi pago por um grupo de empresários do ramo de camarões” para lançar uma campanha difamatória contra o grupo austríaco, que teria denunciado os viveiros existentes em áreas de preservação. “Quem cria camarão são os pescadores. É uma concessão, um projeto de economia familiar. Em contrapartida, ajudamos a cuidar da reserva”, diz Mariano, da Associação de Produtores.

Enquanto aguarda o julgamento dos processos, Huerta amplia seu séquito de apoiadores. Entre eles, a prestigiada atriz alemã Hanna Schygulla, que auxilia o cineasta espanhol a denunciar a “tentativa de intimidação” do grupo austríaco aos responsáveis pelo documentário. “Eu não sabia nada sobre o caso Buwog-Affare- e sobre os milhões que foram fraudados e que subitamente parecem causar, a meu ver, sérios danos a um paraíso distante, do outro lado do oceano”, afirmou Schygulla à tevê austríaca ORF.

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Sua opinião

  1. Sonia Monteiro disse:
    Sou uma ex-moradora, ainda tenho muitos familiares em Parajuru(neste paraíso)Esta situação que está acontecendo em Parajuru, acontece porque os moradores por serem de uma sociedade humilde(de pescadores)não souberam dizer não,quando os estrangeiros fitaram um mundo de ilusões na cabeça deles. Eles só viram melhorias para a familia, que pelo visto não aconteceu. A falta do estudo, fez com que os moradores caíssem como verdadeiros idiotas na promessas que não foram cumpridas. E com certeza os politicos locais que deveriam ter abrido os olhos dos moradores(coisa que não fizeram)estavam ou estão levando algo em troca para enganar os moradores. Porque uma coisa é certa a maioria dos politicos Brasileiros são todos corruptos e o da Cidade de Beberibe e municipio como Parajuru é dificil encontrar um honesto. Só pensam no seu bolso as familias que(?) E no final das contas só está ruim para quem ainda não mordeu nada, mas quem conseguiu morder algo, está se lixando para os moradores e Parajuru.
  2. Marcos Sousa disse:
    Sou um frequentador da praia de Parajuru há mais de 10 anos e confirmo que tudo isso é verdade. Some-se a isso que até pouco tempo os donos do emprendimento usavam da força policial local para constranger os moradores com o silêncio do prefeito de Beberibe. Não fosse a intervensão do vice-governador Pinheiro o problema ainda estaria ocorrendo.
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