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Exploração 2

Um paraíso, para os estrangeiros

por Rodrigo Martins publicado 09/09/2010 10h07, última modificação 14/09/2010 17h31
Vilarejo de pescadores no Ceará fica refém da especulação imobiliária
Um paraíso, para estrangeiros

Vilarejo de pescadores no Ceará fica refém da especulação imobiliária. Por Rodrigo Martins. Foto: Rafael Cavalcanti/ Jornal O Povo

Quando o cineasta espanhol José Huerta decidiu rodar um filme sobre o vilarejo Parajuru, no município de Beberibe, litoral cearense, jamais imaginou que seria alvo de uma avalanche de processos e precisaria mobilizar uma rede internacional de apoio para divulgar a obra. Seu interesse inicial era o de fazer um amplo retrato de um povo que sobrevive da pesca artesanal numa paradisíaca praia brasileira, e com forte apego à vida comunitária. Esbarrou, no entanto, numa intrincada história de especulação imobiliária, promovida por um grupo de capital austríaco que loteou espaços na praia e numa reserva ecológica.

Finalizado em 2009, o documentário Uma Semana em Parajuru foi exibido no maior festival de cinema do País, o Festival do Rio, e no Florianópolis Audiovisual Mercosul (FAM), mas teve pouca repercussão- na mídia brasileira. Pudera, dos parcos recursos disponíveis para divulgar o filme, patrocinado pelo Ministério da Cultura da França, parte significativa teve de ser usada para pagar as custas de sete processos por danos morais e materiais, cujos pedidos de indenização somam 150 mil reais, e um criminal por difamação. Todos patrocinados pela Estrela do Mar, que se instalou na região há cerca de seis anos e hoje detém um extenso leque de investimentos que inclui pousada, hotel-escola, luxuosas casas de veraneio e muitos terrenos.

Entre os sócios do empreendimento está Peter Hochegger, enredado no escândalo financeiro Buwog-Affare, na Áustria, em 2004. Ele prestou consultoria para uma empresa que venceu uma concorrência governamental com informações privilegiadas. Conforme admitiu ao jornal cearense O Povo, a sua empresa recebeu uma comissão de 10 milhões de euros. O austría-co diz ter ficado com apenas 20% desse valor (o restante era do sócio, amigo do então ministro das Finanças da Áustria, que repassou os dados sigilosos da licitação). E foi com esse dinheiro que o austríaco teria comprado 20% do hotel Paraíso do Sol e vários terrenos em Parajuru. “Já expliquei tudo ao Ministério das Finanças (da Áustria)”, justificou-se na entrevista.

O documentário não aborda a atuação do investidor austríaco, uma vez que sua presença no empreendimento só foi revelada depois. Mesmo assim, as críticas pontuadas pelos entrevistados no filme despertaram a ira dos sócios da Estrela do Mar. “Não haveria o menor problema desse grupo se instalar em Parajuru, não fosse a forma, no mínimo, questionável de atuação. A empresa está lucrando horrores com a compra e venda de lotes no vilarejo, num processo muito semelhante ao ocorrido em diversas outras localidades do Nordeste brasileiro, que abraçaram o turismo massivo e hoje estão absolutamente descaracterizadas, tanto do ponto de vista ambiental como cultural”, afirma Huerta.

Como exemplo, o cineasta cita uma entrevista concedida por Gisela Wisniewski, sócia do empreendimento e prima de Hochegger, para uma emissora de tevê austríaca, na qual admite ter comprado terrenos a preços irrisórios, 50 centavos de euro por metro quadrado, e revendido a estrangeiros por até 15 euros. Perspectiva futura: chegar à marca de 100 euros.
Insatisfeito, um grupo de moradores iniciou uma campanha para tentar impedir a compra desenfreada de imóveis na região. “Muitos venderam suas casas a troco de banana e, depois, tiveram dificuldade para encontrar um canto para viver. Outros tantos abandonaram a região. Hoje quase tudo é dos estrangeiros”, diz a massagista Marilac Félix Mariano, de 38 anos.

Para se contrapor à crescente resistência da população, a Estrela do Mar patrocina diversos projetos sociais, incluindo escola para crianças, cursos de capacitação profissional e aulas de inglês e alemão. Marilac foi uma das beneficiadas por -alguns desses projetos. Participou do programa de capacitação para massagistas, por três meses e iniciou um curso de hotelaria com duração de dois anos, aulas práticas e teóricas, e a promessa de um estágio nos hotéis que o grupo possui na Áustria.

“Agradeço pela formação de massagista, mas minha experiência no hotel-escola não foi nada agradável. Fiquei um ano lá, aprendendo alemão e inglês, mas também trabalhando, sem descanso nos fins de semana, como cozinheira, copeira, camareira, uma série de funções, e sem receber um vintém”, afirma. “Abandonei a escola, porque não tinha condições de me manter, eles só davam algum auxílio a partir do segundo ano. De 36 inscritos, apenas 12 concluíram o curso.”

Para Chico Mariano, presidente da Associação dos Produtores de Parajuru, os cursos oferecidos à população -visam, apenas, a capacitação e exploração de mão de obra barata. “Hoje, a comunidade está dividida. Eles oferecem algumas benesses e muitas oportunidades de emprego, sobretudo na construção civil, o que é ótimo. Por outro lado, lotearam a praia, criaram uma escola de kitesurf em área de preservação ambiental, impedem os banhistas de entrar na água quando praticam esse esporte. É um desrespeito. Só que quem depende dos austríacos, porque virou empregado, jamais vai dizer isso a você”, afirma o líder comunitário, também preocupado com as consequências do crescimento desordenado da região, da degradação ambiental ao risco do turismo sexual, presente em várias praias nordestinas.

Graças a uma denúncia da associação, os órgãos ambientais embargaram a construção de uma escola de kitesurf à beira-mar, numa área de preservação permanente. O Ministério Público Federal entrou com uma ação contra o grupo, exigindo a demolição do prédio, a reparação dos danos ambientais e o pagamento de uma indenização. “A construção ilegal causou e está causando prejuízos ao meio ambiente”, registrou o procurador da República Luiz Carlos Oliveira Júnior no processo.

O diretor-geral da Estrela do Mar, Alfred Kurtz, não atendeu aos insistentes pedidos de entrevista de CartaCapital. Em carta ao blog O Esquema, que divulgou uma entrevista com Huerta, afirmou que o cineasta espanhol “foi pago por um grupo de empresários do ramo de camarões” para lançar uma campanha difamatória contra o grupo austríaco, que teria denunciado os viveiros existentes em áreas de preservação. “Quem cria camarão são os pescadores. É uma concessão, um projeto de economia familiar. Em contrapartida, ajudamos a cuidar da reserva”, diz Mariano, da Associação de Produtores.

Enquanto aguarda o julgamento dos processos, Huerta amplia seu séquito de apoiadores. Entre eles, a prestigiada atriz alemã Hanna Schygulla, que auxilia o cineasta espanhol a denunciar a “tentativa de intimidação” do grupo austríaco aos responsáveis pelo documentário. “Eu não sabia nada sobre o caso Buwog-Affare- e sobre os milhões que foram fraudados e que subitamente parecem causar, a meu ver, sérios danos a um paraíso distante, do outro lado do oceano”, afirmou Schygulla à tevê austríaca ORF.

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