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Sociedade

Crise moral

Um país que carece de referências

por Alfredo Assumpção publicado 31/05/2013 11h19, última modificação 23/10/2013 17h23
Um ambiente contaminado por posições questionáveis definitivamente não é um lugar de formação de verdadeiros talentos
José Cruz / ABr
Plenário do Senado

O plenário do Senado. Faltam referências aos brasileiros

Para chegarmos a um patamar de sucesso, sempre buscamos nos espelhar em referências que são exemplos de conduta e de êxito. Seja para nos tornamos bons pais, bons executivos, bons atletas ou mesmo grande cidadãos. Ao nascer e nos primeiros anos, nossas referências estão nos pais. Depois nos professores, no primeiro chefe, nos políticos que elegemos e até em Deus (sempre olhamos para cima para falar com Deus). Tendemos a imitar essas referências. São nossos ídolos. Pois bem, as pessoas nos poderes constituídos são referências para todos os cidadãos. Tendemos a imitá-los. São sempre mostrados na televisão e demais meios de comunicação. Somos seus fãs.

O mesmo acontece dentro das empresas. Olhamos os nossos gestores e líderes com admiração, porque um dia queremos chegar lá. E eles estão ali para nos ensinar o caminho das pedras.

E o que acontece quando essas referências que estão no topo têm conduta questionável?

Levando a discussão para a realidade do nosso país, o que temos visto é um aumento constante nos níveis de criminalidade. Por que qualquer menor de idade ou qualquer outro com tendências ao crime deixaria de cometê-lo tendo tantas, mas tantas, autoridades estabelecidas nos três poderes, que lá estão fazendo o que bem entendem e continuam impunes? Por que alguém haveria de se conter? Porque se nada acontece a essas referências é sinal de que nada haverá de acontecer ao criminoso. O exemplo vem de cima, já dizia minha avó.

O mesmo acontece no mundo corporativo. Dentro do ambiente de trabalho, os executivos também buscam suas referências. Não importa quem é seu chefe, importa quem é seu líder, quem você admira e quais os valores que estão sendo transmitidos no trabalho diário. Os maus exemplos de gestores, se não forem podados das organizações, deixarão como legado uma nova geração de executivos medíocres.

O grande dilema das organizações hoje é identificar talentos. Percorrem o mercado em busca desse perfil, mas não percebem que a formação do talento dentro de casa pode ser uma solução muito mais sustentável. E como formar talentos? Um ambiente contaminado por essas referências questionáveis definitivamente não é um lugar de formação de verdadeiros talentos. E, em longo prazo, a falta de liderança e de referências transparecerá nos resultados. É a criminalidade corporativa.

Vivemos uma total falta de referências na nossa sociedade. As autoridades aí presentes, que deveriam ser admiradas por terem chegado onde estão, ensinam apenas como contornar situações cometendo delitos e vivendo de impunidade. E assim formam uma sociedade com valores deturpados, em todos os níveis da vida social. Dessa sociedade sairão os pais, as autoridades, os talentos, os líderes do futuro.

Esperamos, portanto, que as autoridades nos representem com dignidade, seriedade e, acima de tudo, honestidade. É só do que precisamos. E, se possível, diminuam essa carga de haveres para a sociedade, sem que a contrapartida com deveres aconteça. Precisamos de mais leis e mais rigor no seu cumprimento e, por favor, vamos deixar de brincar com quem paga imposto.

*Alfredo Assumpção é CEO da Fesa, maior empresa de recrutamento de altos executivos da América Latina