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Um oásis para os desertos

por Envolverde — publicado 22/12/2010 08h57, última modificação 22/12/2010 08h57
A Década das Nações Unidas para os Desertos e a Luta contra a Desertificação busca criar consciência e desenvolver planos de ação para proteger essas áreas entre 2010 e 2020

Por Kanya D’Almeida, da IPS*
Nações Unidas, 21/12/2010 – A Década das Nações Unidas para os Desertos e a Luta contra a Desertificação busca criar consciência e desenvolver planos de ação para proteger essas áreas entre 2010 e 2020. Uma desertificação intensa afeta ou ameaça aproximadamente um bilhão de pessoas em cerca de cem países. São as atividades humanas que levam à proliferação destas terras áridas e não cultiváveis.
A Década foi declarada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, e lançada oficialmente no dia 16 em Londres, sede de numerosas organizações não governamentais, grupos de especialistas e outras entidades dedicadas a combater a degradação dos solos e promover a sustentabilidade dos desertos. Pesquisadores, ativistas e políticos se reuniram para compartilhar conhecimentos, estratégias e perspectivas sobre a crise e trabalhar no contexto do lema “Uma Década, Tempo Suficiente para Mudar”.
Após a decepção da 16ª Conferência das Partes (COP 16) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, realizada de 29 de novembro a 10 de dezembro em Cancun, no México, e do fracasso de incontáveis tratados internacionais para acabar com a degradação da terra. A Década dá à comunidade internacional a oportunidade de agir de imediato. Um em cada três habitantes do planeta vive em terras desérticas.
Vários dos assuntos mais graves do mundo – desde biodiversidade e produção de alimentos até energia – convergem nessas regiões. Elas são um santuário antigo e natural para algumas das espécies mais exóticas de fauna e flora. Segundo informes da Década, “uma em cada três variedades cultivadas atualmente tem suas origens ali”. Além disso, são o sustento da metade dos animais do mundo. Os pobres da China, África subsaariana e Ásia central são os que atualmente suportam a carga mais pesada da desertificação.
A rede britânica BBC informou no ano passado que a desertificação nessas áreas pode forçar a saída de até 50 milhões de pessoas até 2020. Os especialistas afirmam que já não se pode ignorar a crise das migrações maciças, dos deslocamentos internos e dos refugiados do clima, que fogem de secas e da fome. A estreita relação entre preservação de biodiversidade e segurança humana foi colocada em destaque na apresentação europeia da Década.
“Nós trabalhamos nas terras desérticas da Europa oriental e da Ásia central, e ali a biodiversidade está muito vinculada ao uso da terra. As atividades humanas nestas áreas têm um enorme impacto sobre a vida dos animais, entre eles as aves, especialmente pela criação de gado, pastagens excessiva e agricultura”, disse à IPS Johannes Kamp, da Royal Society for the Protection of Birds (Real Sociedade para a Proteção das Aves).
“Assim, para preservar a biodiversidade nestas áreas é preciso comprometer a população e começar a falar seriamente sobre sustentabilidade”, destacou Johannes. Apesar de todo nosso ecossistema depender de um delicado equilíbrio entre mangues e terras desertas, a agricultura industrializada foi e é a maior causa da desertificação no mundo, acrescentou.
O secretário-executivo da Convenção das Nações Unidas de Luta contra a Desertificação, Luc Gnacadja, disse à IPS que “a mudança climática é uma das principais causas de conflito político, desde Iraque até Afeganistão”. As “crises nestas regiões não são acidentais. São causadas por condições de vida miseráveis e pela falta de acesso a terras produtivas e água. Sem dúvida, uma batalha em torno destas necessidades leva a conflitos”, acrescentou.
Como ocorre com a maioria das outras catástrofes relacionadas com o clima, as minorias étnicas do mundo, comunidades nômades ou outras pobres e marginalizadas, são as que pagam o preço mais alto por um problema que não criaram. Para isso, é absolutamente imperativo que a Década permita que as ideias, estratégias e informação sobre a desertificação fluam diretamente, da sociedade civil para a esfera da elite política, disse Luc.
“Aqui os atores não são as corporações, nem mesmo os governos. São os agricultores, os criadores de gado, quem vive e trabalha nas áreas áridas”, afirmou o secretário. “Deve-se permitir que eles comuniquem suas ideias sobre o que funciona e o que não funciona”, concluiu. Não está claro, porém, até que ponto serve a existência de programas esporádicos para abordar uma desertificação tão execrável. Ao que parece, é necessária uma mudança radical e mais integral nas condições econômicas e sociais para abordar realmente este problema.
“A revolução industrial e o avanço da urbanização foram os primeiros fatores que levaram à atual degradação do solo”, disse Luc à IPS. “Os seres humanos causaram mais danos à Terra nos últimos 50 anos do que em toda a história. É possível que até 2050 tenhamos que aumentar em 70% a produção alimentar. Devemos reverter essa tendência. Devemos agir agora para a próxima geração”, ressaltou. Envolverde/IPS
(IPS/Envolverde)

* Matéria originalmente publicada no site Envolverde

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