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Sociedade

Especial 50 anos do golpe

Um mergulho em outro mundo

por Elzira Vilela — publicado 11/04/2014 05h39, última modificação 11/04/2014 11h50
Ex-ativista relata o sequestro da filha de cinco anos e a saída da prisão após a tortura

Em 1964, eu estava no terceiro ano da faculdade de Medicina e fazíamos um trabalho político, no Centro Acadêmico, participando das lutas estudantis dirigidas pela UNE e UEE. Eu era da Ação Popular, organização que desenvolvia um trabalho de assistência social na faculdade, com atendimento para a população carente e, principalmente, um trabalho cultural de alfabetização de adultos.

De forma alguma esperávamos que a luta democrática fosse caminhar ou mesmo que fosse vitoriosa. Quando aconteceu o golpe, foi terrível. Interrompemos tudo o que estávamos fazendo, tivemos que nos ausentar um tempo da faculdade e todo aquele processo maravilhoso em que estávamos envolvidos caiu por terra.

Foi um choque total. Me lembro até hoje das sensações desse dia: tínhamos ouvido falar da movimentação de forças reacionárias e no dia 31 o clima era de tensão. No dia 1º, estávamos em uma assembleia, lotada, altamente participante, com pessoas inflamadas falando da importância de resistir. E, de repente, no auge dos discursos, das palmas, da vibração, chegou uma pessoa correndo no anfiteatro comunicando que as forças da polícia de Sorocaba já estavam indo para a faculdade.

As poucas pessoas que tinham carro trouxeram seus veículos lotados para São Paulo. Aqui ficamos 15 dias, cada qual num canto. Havia ainda uma esperança de reação, uma expectativa, nós estávamos prontos para participar.

Devagar, no entanto, as coisas foram se desmobilizando. Acabamos voltando para a faculdade e mergulhamos no estudo para valer, porque ficamos um tanto perdidos.

Em 1966, a AP optou pela Luta Armada e, posteriormente se definiu pela linha Maoísta da Guerra Popular Prolongada, desenvolvendo a guerra de guerrilhas no campo.

Hospedei em casa, em São Paulo, o líder camponês do Maranhão Manoel da Conceição, que havia perdido um perna na luta pela terra.   Fui então convidada a ser médica dos camponeses do seu sindicato e assim, em início de 1969, fui para Santa Inês, sul do Maranhão. Lá, atendia os companheiros e a população do município.

Foi extremamente prazeroso e bom participar disso.

O período foi interrompido quando vieram me avisar que um pelotão estava chegando à cidade e eu seria presa. Um homem chegou para mim e disse: "se você quiser sair daí, saia comigo agora, porque para mim não importa se você é comunista ou não, você salvou a vida da minha mulher". Foi quando entrei na clandestinidade.

Entramos em uma linha de integração na produção: despertar o nível de consciência politica nas pessoas e nos transformar ideologicamente, uma vez nossa origem era de pequenos burgueses.

Realizei trabalhos em Alagoas e no Recife. A história completa da organização estará no livro Revolucionários sem rosto: uma história da Ação Popular, do jornalista Otto Filgueiras, a ser lançado neste ano.

Quando voltei para São Paulo, trabalhei no elo de comunicação entre os grupos, uma atividade extremamente perigosa. Era um trabalho bastante tenso e solitário.

Nessa época, me casei com um companheiro de luta e, no final de 1971, fiquei grávida. Na época, duas irmãs minhas já haviam sido presas e as pessoas falaram que quando eu fosse dar a luz, seria presa também. Consegui, por meio de companheiros da faculdade, um médico sem participação politica que realizasse o parto.

A sobrevivência era muito difícil, em todos os níveis, porque a repressão era fortíssima. Era queda em cima de queda. Em 1973, decidimos nos mudar para Argentina, nos exilar. No dia 2 de setembro, estávamos na Estação da Luz, tomando um trem para o Rio de Janeiro, de onde seguiríamos para a Argentina, de avião. Fomos presos meu marido, minha filha Carminha e eu.

Assim que chegamos, pegaram a Carminha. Ela ficou na mão deles durante cinco ou seis dias. Essa foi a pior tortura que eu podia passar na vida. Acho que nunca mais eu terei um sofrimento tão grande. Apanhamos sem parar, tomamos choques, e ouvimos gritos. Eu fiquei o tempo todo sem ver minha filha, sem saber o que estava acontecendo. E eles faziam questão de falar “não se preocupe, hoje em dia não desaparecemos mais com crianças”, só para reviver aquela coisa.

Eu ficava 24 horas pensando nisso. Minha filha não tinha optado por isso, eu é quem tinha feito a escolha por essa vida. Se eles vierem tortura-la na minha frente, o que eu faço?

Depois de um tempo, [o coronel reformado, na época  comandante do DOI-Codi] Carlos Brilhante Ustra chegou na porta da cela e me disse que minha filha tinha sido liberada com a minha irmã, Rosane.

Fiquei quase 3 meses presa naquele inferno, onde, como todos os presos, era torturada o tempo todo com choques, palmatórias socos, gritos e sevícias. Emagreci 10 quilos e tinha dificuldade de andar quando fui liberada. Saí muito alterada psiquicamente e só aos poucos, com o conforto da família, fui recuperando a sanidade.

Eu não convivia com aquela sociedade, já estava na clandestinidade há cinco anos. Não convivia com ninguém, nem mesmo com minha família. Só fui conhecer a família do meu marido depois da soltura. Era como mergulhar em outro mundo.

Rm 1982, comecei a participar do Tortura Nunca Mais. No Grupo, tive contato com muitos ex-presos e mães de desaparecidos, o que me ajudou a elaborar este período sombrio de prisão. Cheguei a ser presidente da organização por alguns anos. A medida em que trabalhamos com outras pessoas que sofreram os mesmos traumas, lutamos também pelo hoje.

Hoje em dia fico muito feliz de estar viva para participar desse momento que vivemos, de ascenso das lutas, de grupos muitos jovens, com lutas muito bonitas e específicas. Considero que a Comissão da Verdade é um avanço nesta retomada da democracia. A impunidade de ontem, mantem a impunidade de hoje. É preciso que os torturadores sejam conhecidos e julgados pela sociedade para que estanque o genocídio da população pobre e periférica, para que não haja mais Amarildos nem Cláudias!!!

*Elzira Vilela é pediatra e ex-militante da Ação Popular Marxista-Leninista (APML) ou Ação Popular (AP). Seu relato é parte de uma série de artigos sobre os 50 anos do golpe de 1964 publicados pelo site de CartaCapital.