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Um mar de lama sem fim

por Ricardo Carvalho — publicado 27/05/2011 07h00, última modificação 03/06/2011 14h55
Mais uma vez, a Fifa se vê envolta em suspeitas de corrupção e de venda de votos. Um tribunal suíço pode revelar nomes de dirigentes envolvidos no escândalo da ISL
Um mar de lama sem fim

Mais uma vez, a Fifa se vê envolta em suspeitas de corrupção e de venda de votos. Um tribunal suíço pode revelar nomes de dirigentes envolvidos no escândalo da ISL. Foto: Marcos D'Paula/AE

A rede britânica BBC não sai do encalço da Fifa, a entidade máxima do futebol mundial. No final do ano passado, o repórter investigativo Andrew Jennings levou ao ar no programa Panorama a reportagem Fifa’s Dirty Secrets (Os segredos sujos da Fifa, em tradução livre), em que afirmava ter obtido uma lista de pagamentos de propinas a membros do alto escalão da entidade. Entre os citados, um velho conhecido dos brasileiros, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014, Ricardo Teixeira.

Eis que, na segunda-feira 23, um novo programa sob o comando de Jennings foi transmitido. E, mais uma vez, o jornalista não esqueceu de Ricardo Teixeira. A denúncia diz respeito a empresa de marketing esportivo ISL, que teria pagado propina a altos dirigentes da Fifa na década de 1990. O total seria de mais de 100 milhões de dólares, sendo que apenas o presidente da CBF teria ficado com 9,5 milhões de dólares desse montante. Em troca, os cartolas garantiam à companhia os contratos de marketing esportivo para os eventos esportivos, entre eles o Mundial de Futebol.

Além de Ricardo Teixeira, a reportagem citou os presidentes da Conmebol, Nicolas Leoz e da Confederação Africana de Futebol (CAF), Issa Hayatou, que também teriam engordado os bolsos. A ISL faliu em 2001, o que ocasionou a abertura de dois processos na cidade suíça de Zug. Os promotores queriam saber como uma empresa com contratos de marketing milionários foi a bancarrota. No primeiro, Nicolas Leoz foi citado por receber propina da ISL por meio de empresas de fachada. Entretanto, pelas peculiares leis suíças da época, esse tipo de pagamento não era considerado crime conquanto que o dinheiro não deixasse o país ou Liechtenstein, um principado ao lado do país. Esse julgamento foi mencionado pela Fifa em defesa às alegações da BBC, argumentando que nenhum de seus integrantes havia sido acusado de qualquer crime.

O segundo julgamento, entretanto, promete evidênciais mais concretas do envolvimento de integrantes da federação. Encerrado no mês passado por meio de um acordo, membros do comitê executivo da Fifa devolveram às autoridades 5,5 milhões de francos suíços, segundo a emissora. “Os repasses foram mencionados como uso impróprio de dinheiro da ISL, porque os executivos estavam pagando propinas em vez das contas da companhia”, disse em dezembro à CartaCapital o jornalista Andrew Jennings. “Quando você devolve o dinheiro, está admitindo que o conseguiu de maneira ilegal”, concluiu.

No segundo programa Panorama sobre o assunto, Jennings conversou com o jornalista suíço Jean François Tanda, que requisitou ao promotor do caso a divulgação dos nomes dos envolvidos, no que foi atendido. Porém, ele afirma que a própria Fifa e dois de seus cartolas do mais alto escalão atuam na justiça para impedir essa divulgação. Para evitar o pior, diz Tanda, que trabalha no jornal suíço Handelszeitung, a Fifa quer atrasar a publicação desses nomes para depois da eleição presidencial do começo de junho, quando o Joseph Blatter tentará a reeleição.

Na reportagem, Andrew Jennings crava que os dois cartolas envolvidos no processo são os brasileiros Teixeira e João Havelange. A ligação de Havelange com a ISL tem contornos cômicos. Em 1998, um milhão de francos suíços da empresa caíram por engano na conta da Fifa, quando o destino seria sua conta pessoal. Na ocasião, o episódio causou pânico entre os dirigentes da federação.

Qual país os receberia?
Também no programa da BBC, Andrew Jennings afirma que o parlamento suíço, diante dos subsequentes escândalos de corrupção na Fifa, está revendo seus marcos legais para albergar essas entidades. No país, funcionam mais de 60 federações internacionais similares. Roland Büchel, político suíço, chega afirmar que se a federação não ajustar sua conduta às novas normas, ela estará livre para deixar o país. “E eu quero ver qual país os aceitaria”, ironiza o político.

Entretanto, em entrevista a CartaCapital, o jornalista Jean François Tanda tem um posicionamento mais cético. “O problema político é que a Suíça é muito orgulhosa do fato de todas essas federações terem suas sedes aqui. Eu duvido que exista uma grande determinação política para limpar a entidade. Eu não acredito que a Fifa deixará a Suíça, o marco legal aqui é muito amigável, com impostos muito baixos”.

CPI do Futebol
É possível que o dinheiro identificado por Andrew Jennings venha da mesma fonte dos valores investigados pela CPI do Futebol, encerrada em 2001. Por meio da empresa de fachada Sanud, Ricardo Teixeira teria recebido 2,9 milhões de reais entre 1996 e 1997. A lista de pagamentos obtida pela BBC, que também cita a Sanud, abrange o período de 1992 1997. O jornalista britânico crê que se trata do mesmo esquema, mas num valor muito maior. O processo que corria contra Teixeira no Rio de Janeiro foi trancado por decisão do Tribunal Regional Federal, em fevereiro deste ano. A denúncia do Ministério Público afirma que a Sanud é “uma empresa laranja constituída no exterior apenas para ocular o verdadeiro dono dos recursos, Ricardo Teixeira”. Resta aguardar para ver se o vaticínio do jornalista da BBC se provará verdadeiro, caso a corte de Zug venha a, de fato, publicar o nome dos cartolas que tiveram de devolver as propinas.

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