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Um franguinho serve

por Marcio Alemão publicado 27/07/2010 16h46, última modificação 27/07/2010 16h46
Sem graça, a carne deve ser bem temperada e ter boa antecedência

Sem graça, a carne deve ser bem temperada e ter boa antecedência

Não é fácil comer um frango gostoso. Frango é um bicho que a gente come quase por comer. Durante a semana, ele se transformou na opção “mais leve”. Quem não quer comer carne nem salmão, vai de frango. Tem isso, não é? O salmão virou praga, no bom sentido, claro. Ninguém mais precisa se preocupar em arrumar um bom peixeiro para abastecer o restaurante. Um salmão congelado que, hoje em dia pode até ser comprado em lojas de armarinho, dá conta do recado.

Ainda me lembro de um salmão escocês que comi em Amsterdã, há muitos anos. A semelhança com esses primos distantes que vieram tentar a vida nesses meridianos abaixo do Equador é quase nenhuma. Mas, se você não tem a referência do escocês, irlandês ou de um salmão selvagem do Canadá, aqueles disputados a tapas pelos ursos, tudo bem; o que temos serve.

Faço mais um aposto porque me lembrei da conversa que tive com uma amiga:
Amiga: Você já provou o queijo reblochon que estão fazendo aqui no Brasil? Está muito bom.
Eu: Faz tempo que você não vai à França ou Suíça?
Amiga: Muito tempo!

Falava do frango quando o salmão entrou na roda. Disse que a gente chega a comê-lo por comer. Vou além: a gente come sem pensar, o frango. E quer saber? Talvez seja melhor assim. Chuto com a certeza de não errar: se você mastigar direitinho um frango, com capricho, tentando saboreá-lo com a mesma dedicação que você degusta um vinho, em 90% dos casos você sentirá o desagradável sabor da granja, das penas. E não adianta nada ser orgânico.

A diferença entre um frango verde e um não é que o não, como disse o sábio Evo Morales, provoca calvície e transforma seu comedor em homossexual. Culpa dos hormônios. Há os antibióticos também, mas sobre isso ele não se manifestou. O Chávez é capaz de dizer algo. E o presidente Lula, posso garantir, dificilmente vai se manifestar. O Brasil é um dos maiores, ou talvez o maior, exportadores de carne de frango do mundo. É bom pensarmos nisso. Nossos filhos, netos, de repente vão se deparar com um planeta devastado pelas sacolas plásticas de supermercados e habitado por carecas homossexuais.

Veja só: com essa os maias não contavam. Cá entre nós, grande impacto não teria. Imagine no filme 2012, aquela cena que é muito melhor que o resto todo, do monge tibetano sendo engolido por uma gigantesca onda. Imagine a cena sem a onda e o monge, já calvo, com um balde do Kentucky Fried Chiken cantando I’ll Survive.

Com ou sem remédios, o que precisa ser anotado é o seguinte: frango deve ser muito bem temperado e com boa antecedência.

Mesmo a turma lá de casa, que costuma prestar atenção no assunto, tem vacilado. Corre pra venda, traz uma bandejinha, sapeca com alho, cebola, azeite e, duas horas depois, panela ou forno – raramente fritamos coisas, mas admito que um frango bem fritinho, e com pele, é um prato que tenho saudade.

Saudade porque é bom, é gostoso e porque foi o primeiro jeito que aprendi a fazê-lo. Apesar de muita gente valorizar demais a técnica da fritura (às vezes me dá um cansaço ler, ouvir e ver especialistas me mostrando como não sei nada, como somos ignorantes e quão complexa é a arte de tirar a casca de uma laranja, por exemplo), basta mergulhar a peça em abundante óleo, tapar a panela para não se queimar ou lambuzar toda a cozinha e aguardar.

O famoso franguinho na brasa é um dos que padecem ou com a falta de tempero ou com o mau tempero. Frango assado de padaria, idem. Todo mundo tem uma padaria perto de casa que vende um desses frangos. Pois eu os convido a fazer aquele teste: mastigue com cuidado, tentando sentir os sabores todos. São raros os que passam no teste.

Esse frango vem com farofa, com macarrão, com uma família ruidosa, feliz, e que talvez não goste de ouvir um sujeito dizer: huummm, vocês não acham que este frango deveria ter ficado um pouco mais de tempo na marinada e até, quem sabe, em outra marinada com menos vinagre?

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