Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / A via-crúcis dos ciclistas em São Paulo

Sociedade

Transporte alternativo

A via-crúcis dos ciclistas em São Paulo

por Deutsche Welle publicado 17/03/2014 18h53, última modificação 17/03/2014 18h57
Carência de ciclovias, fraca fiscalização sobre motoristas e, mais recentemente, aumento dos furtos tornam pedalar um desafio na cidade
Diego Cavichiolli Carbone/Flickr
ciclista

Quantidade de viagens feitas com bicicletas aumentou 7% entre 2007 e 2012 na Região Metropolitana de SP

A campainha leva os dizeres "I love my bike". O sentimento de Paulo Alves pela sua bicicleta é verdadeiro: o técnico de telecomunicação, de 29 anos, escolheu ele mesmo as peças para montá-la. "Ela é muito querida", afirma. Por isso, quando foi roubada, ele não se conformou. Para tê-la de volta, precisou furtar a sua própria bicicleta, em um enredo que mais parece de filme.

Paulo é apenas um dos muitos ciclistas que tiveram a bicicleta roubada ou furtada no início do ano em São Paulo. Para Daniel Guth, consultor de mobilidade urbana e ciclista, há "um surto" desse tipo de crime na cidade.

Assim como ele, outros usuários do meio de transporte reclamam do problema, que, aliado a vários outros, torna pedalar tarefa cada vez mais difícil na cidade. "A impressão é de que aumentaram os roubos e furtos, mas não há dados oficiais", diz Thiago Benicchio, diretor-geral da Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo.

Questionada, a Polícia Militar diz não possuir números específicos sobre bicicletas, apenas sobre roubos em geral. Para os especialistas, o aumento é uma consequência de um maior número de ciclistas na cidade. Apesar das dificuldades, a quantidade de viagens feitas com bicicletas aumentou 7% entre 2007 e 2012 na Região Metropolitana de São Paulo, segundo pesquisa do governo estadual.

Só na primeira metade de janeiro, pelo menos nove ciclistas tiveram suas bicicletas furtadas na Universidade de São Paulo (USP). Em fevereiro, frequentadores do local organizaram uma manifestação para protestar contra a situação de insegurança.

"Na USP se trata um problema pontual e endêmico, porque há uma favela perto e, ao mesmo tempo, muitas pessoas treinam com bicicletas de alto rendimento, que custam entre 15 e 20 mil reais", diz Guth. Na época, o governo estadual anunciou que reforçaria o policiamento na região.

Laranjinhas

Outro problema de insegurança que afetou os ciclistas da cidade foi o fechamento de dez estações do projeto de compartilhamento de bicicletas Bike Sampa, no centro de São Paulo. As estruturas foram retiradas por causa de atos de vandalismo e furtos, segundo informa a empresa Serttel, operadora do projeto em parceria com a prefeitura de São Paulo e o Itaú Unibanco.

Para acessar o sistema, os usuários se cadastram pela internet e só pagam se a viagem ultrapassar uma hora de duração. Para o vereador Police Neto (PSD), que pedala para o trabalho todos os dias, o fechamento das estações "foi um grande prejuízo".

"A bicicleta na região central é adequada e necessária. As autoridades públicas não tiveram a sabedoria de garantir um mínimo de segurança para as estações. Perde o cidadão, que tinha um serviço bom no local", afirma o vereador.

Ele próprio foi vitima de um furto em fevereiro, na Avenida Paulista, às 11h da manhã. O vereador estacionou a sua bicicleta perto de uma movimentada estação do metrô e, quando voltou, ela não estava mais lá. O mesmo lhe ocorreu no ano passado, ao lado do metrô São Bento, às 9h.

Centro da cidade

Para os usuários do Bike Sampa, como Paulo Alves, as estações fazem falta. "Eu pegava bastante a laranjinha [como é conhecida a bicicleta do projeto] no centro, mas agora não dá mais."

Segundo Daniel Guth, que atua como consultor do Bike Sampa, é fundamental "não desistir" do centro. "É uma região que absorve as pessoas na pernada final na ida ao trabalho", analisa. Para ele, faltou diálogo com as comunidades ao redor: "Não houve a compreensão de que era um bem comunitário. Agora vamos repensar essa localização."

A região central tem hoje 21 estações ativas. Em nota, a Serttel afirma que está "avaliando as melhores medidas para o perfeito funcionamento do projeto na área".

A empresa afirma que furtos e depredação também são verificados, em maior escala, em sistemas de compartilhamento de bicicletas em cidades como Barcelona e Paris. Para Clarisse Cunha Linke, diretora do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento do Brasil, esses projetos se expandiram no país e são vistos como "patrimônios das cidades".

"Não há histórico de insegurança nesses projetos. Inclusive, eu prefiro usar a laranjinha que a minha própria bicicleta, porque tem menos chance de ser roubada. As laranjinhas não são facilmente desmontáveis", argumenta Clarisse.

Furto da própria bicicleta

Paulo Alves teve a sua bicicleta roubada em janeiro passado, por volta das 16h de um domingo, no centro de São Paulo. Segundo ele, dois homens o abordaram, um deles armado. "Não pediram carteira e celular, queriam só a bicicleta mesmo, apesar do valor baixo dela", conta.

"Eu pedalo todo dia 3 horas para ir e voltar do trabalho. Representa liberdade e praticidade para mim. Não fico parado no trânsito, faço atividade física e economizo dinheiro. As duas semanas que ficou sem a bicicleta, portanto, foram penosas. Já em fevereiro, passando pela rua Santa Efigênia, no centro de São Paulo, ele avistou a bicicleta, pedalada por um jovem.

Não teve dúvidas: seguiu o homem. "Ele parou na rua Guaianases. Havia várias bicicletas amontoadas. Muito suspeito", afirma. Após diversas tentativas frustradas de recuperar a bicicleta através da polícia, segundo relata, Paulo voltou para casa desconsolado.

"Até fizemos uma ronda, comigo dentro da viatura, mas o rapaz veio na contramão e fugiu". No dia seguinte de manhã, munido da nota fiscal de compra da bicicleta, ele retornou ao local. "O jovem tinha deixado a bicicleta encostada, sem tranca, nem nada. Montei nela e sai correndo. Nunca pedalei tanto na minha vida."

Ao perceberem o furto, dois rapazes seguiram Paulo em outras bicicletas. "Passei por sinal vermelho, subi na calçada, tudo o que eu não faço normalmente. Quase caí no meio dos carros. Já no Anhangabaú, parei em uma base da polícia, com eles na minha cola."

Neste momento, os jovens denunciaram o furto ao policial, conta Paulo, que mostrou a nota fiscal de compra. "A PM conferiu a numeração da bicicleta e viu que era mesmo a minha. Os jovens me disseram: 'Quando for roubada, avisa', e foram embora."

Insegurança

Apesar dos recentes casos de roubo ou furto, os especialistas consideram que o aumento é fruto de uma expansão do uso das bicicletas na cidade. "A insegurança atrapalha, mas não pode ser uma paranóia. Onde se usa bicicleta, elas são roubadas. Na Holanda e na Alemanha, por exemplo, isso também acontece", defende Thiago Benicchio, da Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo.

Neste sentido, para ele, pedalar é mais seguro do que conduzir um carro. "Eu dirigi por sete anos em São Paulo e fui vítima de três assaltos, um com arma de fogo. Estou há sete anos andando de bicicleta e nunca fui roubado. Uma vez me furtaram, mas eu não tinha colocado a trava, e foi em uma garagem."

Como forma de diminuir esse tipo de crime, especialistas são unânimes em apontar a instalação de estruturas corretas para guardar as bicicletas. "Todas as estações de trem, metrô e ônibus, além de centros comerciais, têm de ter um local seguro para estacionar", defende Daniel Guth.

O vereador Police Neto afirma que falta vontade política para resolver a questão. "É muito barato espalhar bicicletário e paraciclo por toda a cidade, basta ter interesse."

Ele ressalta ainda os impostos que incidem na bicicleta como uma agravante. "Os tributos são de quase 70% neste caso. A bicicleta, que era para ser barata, acaba custando mais de mil reais. Com isso, ela se torna atrativa para os criminosos. O valor é, na verdade, o custo Brasil", reclama.

Trânsito perigoso

A insegurança não é o único desafio vivido pelo ciclista nas grandes cidades brasileiras. "O maior problema é se deslocar, mesmo, seja pela falta de infraestrutura, seja pela falta de respeito pelo ciclista", afirma Thiago Benicchio. Ele propõe uma maior punição dos crimes de trânsito, redução da velocidade no perímetro urbano e uma maior extensão de ciclovias e ciclofaixas.

O vereador Police Neto aposta em campanhas de educação para aumentar a segurança do ciclista no trânsito. "Dez bicicletas usam o espaço de um carro. E 92% dos automóveis em São Paulo levam uma pessoa só. É do interesse do motorista que haja mais bicicleta na rua, significa mais espaço para ele. É preciso saber compartilhar o espaço viário."

Ele afirma que o ciclista e o pedestre deveriam ser o foco de proteção do sistema viário. "Eles representam mais de um terço de toda a circulação da cidade e ajudam o sistema a funcionar melhor."

Avanços

Apesar das dificuldades, houve um avanço por parte dos poderes públicos e da sociedade no sentido de reconhecer a bicicleta como meio de transporte. "Estamos começando a ter uma política pública para o ciclista, o que não havia antes. O orçamento previsto para a bicicleta na cidade de São Paulo em 2013 era de R$ 4 milhões. Em 2014, é de cerca de R$ 20 milhões", comemora Thiago Benicchio. Mas ele faz uma ressalva: "Mesmo que haja um interesse maior, as mudanças demoram. A máquina pública é muito lenta."

Clarisse Linke defende que houve uma expansão do número de ciclistas, assim como dos projetos de compartilhamento de bicicletas no Brasil, o que fez avançar o tema na sociedade. "Há mais visibilidade e o ciclista está mais exigente. É normal que os governos tenham de prestar mais atenção porque existe mais demanda."

Ela considera a Política Nacional de Mobilidade Urbana, promulgada em 2012, uma importante vitória. "A lei prioriza o pedestre, o ciclista e o usuário de transporte público como nunca antes. O foco, aos poucos, vai saindo do carro. Então houve um avanço, mas muita coisa ainda precisa acontecer."

Autoria Marina Estarque, de São Paulo

Edição Rafael Plaisant / Alexandre Schossler