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Toda a água de março

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 12/03/2010 17h59, última modificação 20/09/2010 18h00
Sábado 6 choveu no Rio o que seria para o mês inteiro. A cidade soçobrou em menos de 30 minutos. Uma tarde no shopping quase se transformou em uma noite no shopping, com um batalhão de zumbis consumidores tontos, sem táxis, sem carros anfíbios.

Sábado 6 choveu no Rio o que seria para o mês inteiro. A cidade soçobrou em menos de 30 minutos. Uma tarde no shopping quase se transformou em uma noite no shopping, com um batalhão de zumbis consumidores tontos, sem táxis, sem carros anfíbios. A água entrava pela garagem do quarto piso do Rio Sul e, descendo em cataratas das rochas, brotava violenta e suja de bueiros e de onde mais não se sabia.

Funcionários lutavam com rodos contra a água. Debalde. Com ou sem balde, quem se descobria presa daquela armadilha da natureza, já que o shop-ping é um bunker, sonhava com um jeito de sair dali. Do epicentro do caos, surge um táxi da cooperativa do shopping, cujos carros haviam sumido e em cuja fila havia apenas uma desolada passageira: eu. Os outros shopinistas se enroscavam à espera dos táxis comuns. Alvejada por olhos invejosos e suplicantes de compaixão, saí de Botafogo em direção a Copacabana.

O motorista, um mestre na psicologia de assegurar que o passageiro chegará ao seu destino, era perspicaz, um expert em bolsões d’água e em calcular as profundezas de lagos que normalmente são praças, cruzamentos e ruas. Neles até os ônibus, sobre seus chassis de caminhão, estagnavam como hipopótamos com pisca-alertas.

No lento e alternativo trajeto de ruas possíveis e ainda não totalmente submersas, gente recolhida em botecos e restaurantes. Alguns foram invadidos pela água, levando os fregueses a sentar sobre as mesas. Com a maestria do taxista, alcançamos uma avenida Atlântica alagada. Onde é o mar?

Perto de casa, desci do carro agradecida e o motorista foi catar um abrigo. Dois passos adiante, a água já estava acima dos joelhos. Imersas e à noite, ruas familiares assumem outra feição, enquanto se vai vencendo a correnteza, temendo bocas-de-lobo, ratos nadadores e outros bichos. Na correnteza, vêm caixotes, galhos, pets, o escambau. Lutando contra a maré, sob olhares e palavras solidários de porteiros e ilhados agregados, chega-se em casa molhada e salva não sem a saudação dos conhecidos. Banho quente e álcool no corpo. Estende-se assistindo à tevê e lembrando de tudo o que aconteceu de janeiro até agora, porque, realmente, desgraça pouca é bobagem.

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O Rio secreto

A cidade é cenário para o romance policial de Sérgio Bandeira de Mello

A epígrafe de O Mistério das Ânforas Fenícias – o manjado dito popular “todo boato tem um fundo de verdade” – foi muito bem escolhida, por seu autor, Sérgio Bandeira de Mello. Combinada à informação constante da apresentação da obra, de que a trama é baseada em boatos reais, torna-se, paradoxalmente, fundamental àqueles que desejam conhecer, ciceroneados pelo humor do comissário aposentado Amílcar Mesquita, um pouco mais sobre a verdadeira história do Rio de Janeiro pós-Sambódromo.

A partir da associação natural de uma ânfora fenícia, com as inscrições desses navegadores no cume da Pedra da Gávea – uma história já conhecidíssima dos cariocas –, o novo livro de Bandeira de Mello mergulha fundo no ambiente que sucedeu aos anos de chumbo. O berço da segurança privada oficial e das milícias oficiosas é formado por lideranças ultrapassadas, políticos inexperientes, militares saudosos e empresários ligados ao governo, qualquer governo. Dependendo da idade de suas fortunas, podiam ser casados
com socialites, desocupadas que guiavam os novos-ricos pelo Brasil importado da Europa, ou abastados patronos de escolas de samba.

O Mistério das Ânforas Fênícias (Aeroplano Editora, 415 págs., R$ 40),
a ser desvendado ao final deste instigante romance policial, revelará, antes de tudo, uma bela radiografia de um Rio de Janeiro por anos adormecido por um metafórico Boa Noite, Cinderela.