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Toca Raul!

por Vitor Knijnik — publicado 18/09/2013 11h56
Tenho dois sentimentos em relação ao grito. O que me dá certo bode é que virou também uma espécie de piada do tipo é pavê ou pra comer
Do Blog do Raul Seixas
Raul

A maior prova de que sou uma metamorfose ambulante é que em algumas letras me descrevo como um sujeito chato que acha tudo isso um saco e em outras figuro como a luz das estrelas, a força da imaginação

Logo nos primeiros minutos do documentário Raul, o Início, o Fim e o Meio, meu irmão Plínio conta que, durante a adolescência, eu sofria de insônia e, quando o acordava, elerecomendava que eu me masturbasse para que o sono chegasse novamente. Foram asprimeiras vezes que se ouviu no Brasil o famoso grito: Toca, Raul!

Mas tal brado é bem mais antigo. Como nasci há 10 mil anos atrás – e só há o Google que saiba mais –, posso afirmar que o grito Toca, Raul! surgiu antes mesmo de minha obra musical. Na Grécia antiga, Homero certa vez recitava a Ilíada quando foi interrompido por um maluco beleza a berrar para que uma de minhas canções fosse executada. Jesus enfrentou problema semelhante. Durante o famoso Sermão da Montanha, mal começou a proferir Bem-aventurados os humildes de espírito, porque... ouviu a voz de um infiel a gritar: Toca, Raul! Sabe aquela pausa de Martin Luther King depois de I Have a Dream? Pois é, não teve intenção dramática. Foi provocada por alguém da plateia que gritava você sabe o quê.

Tenho dois sentimentos em relação ao grito. Há um lado meu que gosta de emblemar essa tradição da inconveniência. Gritar Toca, Raul! durante um concerto de Chopin, por exemplo,é se materializar como a mosca que pousou em sua sopa. Em muitas ocasiões, funciona como um chamado de alerta, uma convocação ao despertar, um rasgo de rebeldia, um pouco de rock-n’-roll. Em outras, serve como trilha sonora pros tempos atuais: toda vez que Obama aparece ameaçando um ataque à Síria, fico esperando alguém gritar Toca, Raul! pra eu começar a tocar Senhor da Guerra; quando surge notícia sobre Assad, penso em cantar Cowboy Fora da Lei pra ele. Entretanto, nada tira da minha cabeça que o problema dosdois é nunca ter ouvido Rock das Aranhas.

Mas agora vou desdizer o oposto do que disse antes. O que me dá um certo bode é que Toca, Raul! virou também uma espécie de piada do tipo é pavê ou pra comer. O sujeito não economiza no bordão. E o dispara em qualquer ocasião. Show no barzinho, roda de samba, balada sertaneja, desfile militar. Seu uso excessivo, além de desgastar o sentido original, se é que teve, cria certa animosidade com minha obra. Gente que nunca ouviu Ouro de Tolo e Krig-ha, Bandolo! já nem quer conhecer minhas músicas por conta dessa turma do pavê. Repetem tanto esse mantra por aí que os Detonautas vão fazer um tributo a mim no Rock in Rio. Você sabe, tributo só é bom pra quem arrecada. Ao menos uma coisa me consola: depois disso, acho muito improvável que se escute Toca, Raul! outra vez.

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