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Edgard Catoira

Titanic carioca

por Edgard Catoira — publicado 13/12/2011 10h08, última modificação 13/12/2011 12h54
Felizmente, não existia gestor do seu quilate quando as caravelas do outro Cabral, o Pedro Álvares, descobriram o Brasil. Teriam afundado no meio do caminho...
bondes

Bondes ainda fora de circulação. Foto: Riotur

Tenho dois amigos com os quais adoro conversar, jogar conversa fora.

Um deles nós chamamos de Raposão, dado o conhecimento crítico que ele tem da política carioca. Por isso mesmo, às vezes o chamamos também de PicaPau, (“mau como pica-pau”), principalmente quando ele fica ácido na sua visão do mundo. O outro, companheiro de profissão, consegue caçoar até de si mesmo. Enfim, nos divertimos trocando opiniões, principalmente sobre o que acontece nesta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Neste fim de semana, o assunto que exploramos foi o dos transportes. Afinal, um pedalinho da Rodrigo de Freitas afundou e quase matou de susto o casal que admirava a cidade de dentro da água. Pouco depois, soube-se que o pedalinho não tinha fiscalização nem alvará (que havia sido suspenso pelos Bombeiros). Foi içado do fundo da lagoa na segunda-feira.

Há fortes indícios de negligência do “armador” e da fiscalização, que podem ter se associado em algum tipo de “armação” para explorar e autorizar aquela atividade sem as devidas condições de segurança. O trocadilho maldoso, claro, é do PicaPau.

Tudo nos levou à conclusão de que o sistema de transportes da região metropolitana do Rio vive, talvez, o seu maior inferno astral. Todos os modais de transporte apresentam ou já apresentaram algum tipo de problema, culminando com o recente episódio do pedalinho da Lagoa.

Mas, seguimos em frente. “A pé, que é mais seguro”, comentou o jornalista, já evitando que passássemos sobre algum bueiro.

E continuamos analisando... Em agosto, um inacreditável acidente com um bondinho de Santa Teresa causou a morte de cinco pessoas e deixou feridas outras dezenas. Acredite: os freios estariam amarrados com arames! Mas a irresponsabilidade não para por aí

Inaugurado em 1979, o metrô do Rio tem apenas duas linhas, e elas compartilham os mesmos trilhos ao longo de dez estações. Está muito ruim, mas fiquem certos: vai piorar quando os mesmos trilhos receberem o tráfego em direção à Barra da Tijuca.

O lugar-comum da tragédia anunciada está cada vez mais comum nestas plagas.

A concessão das barcas Rio-Niterói permanece à deriva. Em novembro, um catamarã bateu num píer desativado, ferindo dezenas de pessoas e assustando centenas.  E o preço das passagens, já anunciado, vai aumentar. Navegar é preciso, mas desse jeito, não, lembra o jornalista.

E o Raposão continua lembrando: “os trens do subúrbio – viva! – funcionaram muito bem. Pena que foi só em maio deste ano, para transportar os fãs de Paul McCartney ao show realizado no estádio do Engenhão.” Realmente, fora isso, são atrasos e reclamações constantes.

Trem, metrô, bonde, barca, ônibus, nada funciona direito. Agora, o teleférico do Alemão, comunidade carente da Zona Norte da Cidade, está uma beleza.

Talvez, porque só transporta ninguém para lugar nenhum. Mas os governos gostaram tanto dessa solução de transporte que pretendem torrar outros tantos milhões de reais numa outra versão, agora, na Zona Sul, mais precisamente, na Rocinha. Vai dar muita manchete de jornal.

Jogam dinheiro fora, mas não são capazes de assegurar a manutenção do sistema existente.

Mesmo diante desse balanço negativo, o secretário de Transportes do Estado, Sr. Julio Lopes, só balança, mas não cai. Continua gozando da confiança do governador Sergio Cabral, esse grande empreendedor e amigo dos empreendedores.

Felizmente, não existia gestor do seu quilate quando as caravelas do outro Cabral, o Pedro Álvares, descobriram o Brasil. Teriam afundado no meio do caminho...

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