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Tchau, tchau, beijinho

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 21/08/2009 15h37, última modificação 21/09/2010 15h38
Modos e maneiras mudaram com a gripe suína, H1N1 ou influenza A. Apertos de mão e beijinhos devem ser evitados. E devem mesmo.

Modos e maneiras mudaram com a gripe suína, H1N1 ou influenza A. Apertos de mão e beijinhos devem ser evitados. E devem mesmo. Mesmo que algumas notícias dêem conta de que a pandemia está em curva descendente por nuestras bandas, a ordem e a sobrevivência mandam não dar moleza para o vírus. É preciso estar atento e forte, como cantava a Gal. Só que nada está assim tão divino-maravilhoso.

A realidade se impõe. Mas que riscar do mapa os dois bejinhos, quiçá um selinho, cordialidade quase obrigatória na cultura carioca, não é fácil. É um negócio instintivo e meio viciante. Quando a gente se dá conta já beijou ou foi beijado. Na terra de São Sebastião, não se economiza em matéria de mini ósculos.

Esse hábito é coisa arraigada. Pois no Rio se toca, se agarra e se abraça o interlocutor, mesmo aquele que pouco conhecemos, ou que acabamos de conhecer. Daí, aquele híbrido de estranheza e encantamento dos gringos quando dão de cara com um brasileiro carioca, que vai logo abrindo os braços e tascando-lhes dois beijinhos nas bochechas, a esta altura rosadas pelo sol e coradas ante a brejeirice da raça.

Chato é quando o gringo, para mostrar que se enturmou, cisma de sair beijando todo mundo com beijo um tanto babado, típico de quem não sabe que beijinho de carioca da gema é sequinho, sequinho, como um mandiopã, e que é preciso tempo para atingir a têmpera.

Bem, se não se pode beijar e não se deve apertar as mãos nem dos novos nem dos antigos conhecidos, ficamos por aqui treinando novas formas de cumprimentar as pessoas. A principal opção não é outra manifestação gestual de afeto, mas palavras eivadas de constrangimento e de onamatopaicos smacks à distância, claro, como faz a histérica Melissinha (Cristiane Torloni) na novela das nove.

Algumas sugestões de saudação: “Oi, (fulano), beijinhos suínos” ou “Até mais e um pig kiss para você”. Acredite que o outro aceitará a novidade com uma certa e visível gratidão. Afinal, alguém tem de tomar uma atitude e se o antipático tem de ser você, paciência.

A gripe suína também deve ter mudado a cara das baladas noturnas. Vale assuntar com os baladeiros como estão se virando para “ficar”. Afinal, ficar com alguém, que seja por uma noite, horas ou minutos, enseja beijos e mais beijos em bocas quase sempre forasteiras. E aí?

Abaixo a repressão e, se é proibido fumar em Sampa, no Rio e em Beagá, é prudente, não que se proíba beijar de maneira folgazã, como preveem os estatutos das gafieiras tradicionais, mas que se evite a boca de gatos e gatas de telhados desconhecidos.

A saída é adotar aquelas artimanhas antigas, as chamadas ferramentas de paquera, as quais não vamos elencar aqui, por serem infindáveis e, acredite, eficientes. O dito de um filósofo pop se aplica a estes tempos em que, mais do nunca, devemos levar a vida a sério: “Mais ovo e menos galinhagem.”

De qualquer maneira, enfim, fiquemos com aquele cumprimento – comum na Índia e no Nepal, usado por hindus, sikhs, jainistas e budistas – e popularizado pela novela-coqueluche do momento, Caminho das Índias: o Namastê, que é respeitoso e mantém as mãos e os perdigotos à distância. Tik he, e estamos conversados.

Cadê os cinzeiros? Agora que é proibido fumar, voltamos ao assunto que já frequentou esta coluna e que anda na boca de fumantes e não fumantes. As cidades pedem cinzeiros, por favor, para que se evite aquelas cenas deprimentes de não sei quantas bitucas, ou baganas, na porta dos estabelecimentos, calçadas e meio-fios ou guias.

As autoridades podem ter a certeza de que mais do que nunca os cinzeiros serão bem-vindos, em nome da ordem urbana, da saúde, da estética e do constrangimento que os fumantes renitentes passam ao ter de jogar seus cigarros no chão da cidade que devem ajudar a manter limpa.