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Tá todo mundo feliz, mas...

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 16/10/2009 15h18, última modificação 21/09/2010 15h19
Depois da ressaca midiática, das festas nas areias de Copa, dos pequerruchos na telinha prometendo que daqui a sete anos vão nos encher, mais ainda, de orgulho, com suas futuras medalhas, a primeira segunda-feira sem complexo de vira-lata, enfim, veio. E dá-lhe de repercussão e de gente lembrando que tem de fiscalizar, fiscalizar. Tem mesmo.

Depois da ressaca midiática, das festas nas areias de Copa, dos pequerruchos na telinha prometendo que daqui a sete anos vão nos encher, mais ainda, de orgulho, com suas futuras medalhas, a primeira segunda-feira sem complexo de vira-lata, enfim, veio. E dá-lhe de repercussão e de gente lembrando que tem de fiscalizar, fiscalizar. Tem mesmo.

Como diz a música da Xuxa, que ainda é hino dos plays e bufês infantis, e que tomou o lugar do Carequinha em volta da mesa de brigadeiros, “ Todo mundo tá feliz, tá feliz...”. Com direito a pedir bis do refrão xuxento, todo mundo tá feliz com a escolha do Rio para a sede das Olimpíadas de 2016.

Numa aula de Inglês, no meio da segunda-feira, o professor abre a conversação com um tremendo slide da logo das Olimpíadas do Rio (que, por sinal, podia, e devia, ser substituído por coisa melhor). Alguém suspira e sugere que se pule essa capítulo. Pronto, os olhares de reprovação choveram sobre a criatura que teve de se esforçar à beça para explicar, em Inglês, que, por oportuno e oficialmente, será a segunda língua da cidade em 2016, que também estava tão feliz quanto todos ali, quanto o Nuzman, o Pelé, o Paulo Coelho, o Presidente Lula e o Obama, por ter se livrado dessa, tendo o desemprego, a saúde, o Afeganistão, e outros affairs, no seu calcanhar.

A criatura que se manifestara no início da aula de Inglês estava apenas fatigada de notícias, de ouvir repetidos prós e contras, de debates advinhados, e daqueles que ainda virão. Mas, principalmente, estava cansada de não poder pedir - em inglês - um break naquele flood olímpico. Alguém lembrou, antes de se rever pela enésima vez a cena em que o envelope foi aberto e ter de, como dever de sala de aula, traduzir o texto do apresentador que termina num ‘Riu de Janeiru’ que a caneta que assinou o contrato em Copenhague estava em exposição. Really?

Em casos assim, em que parece que a festa auriverde/azul-e-branca nunca vai acabar, um suspiro mal colocado é o suficiente para se desconfiar que naquele peito descompassado e sibilante mora um diafragma anti-patriótico. Sai agourento, baixo astral, pessoa nefasta, alma sebosa, do contra, pessimista, ressentido, reacionário, espírito de porco espinho. Dá um trabalho danado provar que à semelhança de todos, o suspiroso, também está feliz. E que também estará atento.

Yes, we speak Os políticos anglófobos que há muito andam por aí querendo oficializar o veto ao uso de anglicismos, ou seja, os que têm aversão ao uso de palavras inglesas na língua portuguesa, terão de baixar a guarda nesses tempos de Olímpia.

Agora será lei: a língua de Shakespeare, do jeitinho que chegou até o século 21, vai ser lecionada no primeiro grau nas escolas municipais do Rio para que as crianças de hoje saibam falar Inglês amanhã. Que nem àquelas que têm o privilégio de frequentar cursinhos particulares de língua ou de serem alfabetizadas em duas línguas. Não é nada, não é nada, sete anos de aprendizado dá para ter uma fluência e compreensão além da média, mesmo com as falhas do ensino público.

Será um bom investimento de ‘infraestrutura’ na educação de crianças cariocas, que estarão mais qualificadas para enfrentar o batente num mundo globalizado. E que em 2016 poderão dizer muito mais do que um Welcome to Rio. Foi preciso uma olimpíada para ficar claro que no mundo globalizado não cabe esse tipo de preconceito.

Cheque pré Daqui a mais um tempo começarão as promoções com pagamento para 2016. Hehehe