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Sociedade

Superação Feminina

por Camila Alam — publicado 25/06/2010 17h37, última modificação 10/08/2010 17h39
Crítica do filme A Flor do Deserto

Nos cinemas a partir desta semana, a biografia Flor do Deserto trata de uma das práticas mais cruéis contra a mulher, a mutilação genital feminina, que ocorre principalmente na África e em alguns lugares do Oriente Médio e do leste asiático. Este filme, dirigido por Sherry Hormann, é parte de uma campanha realizada pela ex-modelo somali Waris Dirie, autora do best seller que deu origem ao longa e diretora de uma fundação que leva o seu nome e luta pela conscientização contra esta prática.

O filme narra a história da própria Dirie desde a infância, quando vivia no deserto africano com sua família nômade, próximo a fronteira com a Etiópia. Aos 3 anos, sofreu o processo de mutilação, guiada pela própria mãe. Segundo a tradição africana, são impuras as mulheres que não passam pelo procedimento. Depois, rejeitadas pela sociedade, não conseguem constituir família, vivem a margem. Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 150 milhões de mulheres no mundo já sofreram este abuso.

Após passar pela mutilação e viver no deserto até os 12 anos, a modelo foge de casa para não enfrentar um casamento arranjado com um homem 50 anos mais velho. Atravessa o deserto somali sozinha e ao chegar numa cidade vizinha consegue reencontrar a avó, que a encaminha para Londres. Alguns anos depois, a garota é descoberta pelo fotografo Terrence Donovan, queridinho no mundo da moda, e é convidada a posar para o calendário Pirelli, posto que 10 entre 10 modelos almejam estar todos os anos. A modelo estourou e se tornou uma das mais requisitadas na década de 80. Foi, inclusive, Bond Girl em007 Marcado Para Morrer, de 1987.

Waris (cujo nome significa Flor do Deserto em somali) é interpretada pela atriz e também ex-modelo Liya Kebed. Ela emociona quando narra o drama da personagem e também impressiona pela beleza. Mas é na segunda metade que ajuda o longa a ganhar força, quando trata da declaracão pública de Waris e do choque causado à época, quando pouco se sabia da prática na sociedade ocidental.

A ex-modelo, hoje embaixadora da ONU contra a prática de mutilação, usa a própria história para fazer um apelo social. Mas o longa mostra também a dificuldade de quebrar uma tradição tão dura e os impactos que ela causa mesmo fora dos locais onde é aplicada. Em uma das cenas, a modelo sente fortes cólicas e é levada para um hospital em Londres. Lá, o médico chama um enfermeio Somali, para ajudar na tradução do diálogo. Ao invés de repassar a sugestão de operação que o médico oferecia, ele dizia em sua lingua natal tamanho pecado que ela estaria cometendo ao virar as costas para a tradição de seu povo.

Ainda hoje, cerca de 8 mil garotas sofrem por dia a mutilação genital feminina. Está longe de ser um problema ocidental. Mas são inicativas como esta, tomadas por pessoas que viveram o drama em conjunto com aquelas que nunca viverão, que farão desta uma causa eliminada.

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