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Pagu: 100 anos

por Camila Alam — publicado 10/06/2010 16h10, última modificação 10/08/2010 17h36
Estreia da coluna falando sobre a feminista Pagu

Com grande prazer, inauguro este espaço no site de CartaCapital. Pretendo reservá-lo a alguns temas de meu interesse, basicamente ligados à cultura e à curiosidades, destas que lemos na internet todos os dias. Aqui será também uma extensão do material que venho produzindo nestes quase quatro anos em que trabalho na redação da revista

Esta semana comemora-se o aniversário de 100 anos de Patricia Galvão (1910-1964), ou Pagu, escritora paulista, musa do movimento antropofágico, militante do Partido Comunista Brasileiro. Uma personalidade fugaz e intensa, que, ao longo de seus 52 anos, revelou-se coerente, objetiva, idealista e apaixonada. Conhecida também, por aqueles que apreciam uma boa fofoca, por ter “roubado” de Tarsila do Amaral, o então marido Oswald de Andrade, com quem se casaria em 1930.

O famoso romance durou apenas 5 anos, mas não é deste e nem de outros temas mais polêmicos que gostaria de tratar aqui. Hoje, passados quase cinqüenta anos de sua morte, a autora de Parque Industrial (1933) é homenageada em uma série de eventos realizados pelo projeto Viva Pagu, idealizado pela pesquisadora Lúcia Maria Teixeira Furlani, que estuda a autora há 22 anos. Esta comemoração, que pretende ser complementada ao longo do ano de seu centenário, inclui exposições, leituras de suas cartas e lançamento de livros. (Programação completa em www.pagu.com.br).

Dona de caráter irreverente, como seria a postura desta inquieta sofredora ao se deparar com o mundo em que vivemos hoje, se era ela a frente de qualquer tempo? Feminista, se dizia uma “mulher de ferro, com zonas erógenas e aparelho digestivo”. Ainda em 1931, escrevia sobre temática gay, que ainda hoje embanana até nossos presidenciáveis. “[Há] Meninas que nasceram errado, mas que não querem se conformar em seguir à lei da natureza. Querem continuar meninas”. Um escândalo. Escrevia sobre tudo e publicava pequenos textos em diversos jornais. Opinava de maneira pontual sobre política, o proletário e a sociedade. A todo custo, estabeleceu postura respeitável, antes, era também uma burguesa.

Independente de sua produção como jornalista ou escritora, são suas memórias pessoais que ganham meu maior apreço. Na autobiografia Paixão Pagu, lançada pela Editora Agir, em 2005, o leitor penetra em íntimos da escritora, em páginas confessionais. São marcantes as passagens em que relata algumas prisões (foi presa mais de 20 vezes), doenças e casos amorosos. Apesar da famosa história com Oswald, foi com o jornalista Geraldo Ferraz e viveu seu maior amor. É a ele que dedica as longas cartas escritas neste volume e é seu nome que evoca centenas de vezes ao longo delas.

Desilusões, políticas e amorosas, permearam sua trajetória. O desencanto com o comunismo soviético viria, justamente, em uma viagem à Moscou. “Isso custou a Patricia Galvão (escondida em Pagu) a perda, sem volta, aos 30 anos, do sorriso e da alegria de viver”, diz a historiadora Tereza Freire no seu Dos Escombros de Pagu (Ed. Senac, 2008). “Engaiolaram o passarinho. Calaram sua voz”, completa.

Pagu, que pregava a importância dos sonhos, perdeu seu maior almejo quando parou de acreditar na política e na militância. E volto a pensar, que rumos teria sua posição hoje, frente às mudanças ocorridas nos últimos 50 anos em que não estivera por aqui?

Mais:

Parque Industrial, Patricia Galvão, Ed. José Olympio, 2006
Paixão Pagu, Patricia Galvão, Ed. Agir, 2005
Dos Escombros de Pagu, Tereza Freire, Ed. Senac, 2008

http://www.pagu.com.br