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Metrô em Higienópolis

Sofativistas 1 a 0

por Cynara Menezes — publicado 16/05/2011 18h06, última modificação 18/05/2011 17h53
Inventamos o churrasco de protesto e nele tem linguiça e também tem picanha. Ou querer justiça social é exclusividade dos excluídos?
Sofativistas 1 a 0

Inventamos o churrasco de protesto e nele tem linguiça e também tem picanha. Ou querer justiça social é exclusividade dos excluídos? Por Cynara Menezes. Foto: Ricardo Carvalho

A revolução não será tuitada. Desde que alguém escreveu a frase na New Yorker, órgão favorito da elite culta mundial, com grande repercussão na mídia em geral – que tomou gostosamente a sentença como verdade absoluta –, houve o Egito e houve um churrasco. No primeiro, derrubou-se um ditador. O segundo não derrubou ninguém, mas pode ter ajudado a erguer uma estação de metrô. Revoluções eu não sei, mas ficou provado que convocações online viram realidade, sim. Qual o alcance, nenhum oráculo pode predizer.

Minimizar o alcance das redes sociais é típico do pensamento conservador. Deviam dizer o mesmo dos panfletos nas portas das fábricas e universidades quando surgiram. Hoje, as "tuitadas" e os posts no facebook são como os panfletos de outrora, entregues em tempo real e com um alcance infinitamente maior. Assim como tem gente que não irá a uma festa convocada nas redes sociais, tem gente que não irá a uma mobilização. O erro de avaliação foi achar que ninguém estava disposto a sair do sofá.

Em pouco tempo, o twitter e o facebook viraram, mais que páginas de relacionamento, clubes em que cada usuário define o seu próprio "não entra". A pessoa não só tem um leque de amigos como está conectada a uma rede de indivíduos com quem pensam semelhante. É como pertencer a um "partido", mas sem pagar dízimo e sem obrigatoriamente possuir um líder. Pensar semelhante não quer dizer pensar igual, portanto está subentendido que, embora não concorde todo o tempo com todos do grupo, existe ali uma identificação coletiva.

Na semana que passou, um grupo de internautas que acha absurdo certo tipo de pensamento se uniu para protestar contra ele. Estas pessoas consideraram um acinte moradores de Higienópolis, em São Paulo, fazerem lobby contra uma estação de metrô no bairro porque iria trazer "gente diferenciada", do tipo "pobre". O zunzunzum online se transformou no primeiro "churrasco de protesto" de que se tem notícia. Um sucesso que desceu do "morro" das redes sociais para o asfalto.

Dado o êxito da coisa, alguns passaram a ridicularizar os "socialistinhas" que portavam câmeras fotográficas sofisticadas no churrasco, os "diferenciados" que levavam a tiracolo cães de raça, os "burguesotes extremistas". Como se os tolerantes que foram protestar contra a exclusão precisassem ser eles mesmos excluídos para ter razão. Como se consciência fosse exclusividade dos mais sofridos. Como se não houvesse gente que não consegue olhar uma criança pedindo esmola através do vidro do carro, ainda que de luxo, sem se indignar.

Apesar de agnóstica, admiro o Cristo. Sim, Jesus. Mas nunca me conformei com aquela coisa de "é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha do que um rico ganhar o reino dos céus". Parece-me maniqueísta. Sentir necessidade de mais justiça social não tem nada a ver com a classe à qual se pertence. É um modo de olhar o mundo. Quem não se incomoda com o "tantos com pouco e poucos com muito" pode até não ser milionário, mas é com certeza egoísta. Não aceitar que pobres tenham acesso ao metrô em um bairro burguês independe de o sujeito ter um fusca, um carro zero ou andar a pé.

Tenho falado muito sobre "ser de esquerda" no twitter. A bandeira das esquerdas historicamente sempre foi a igualdade, e deve continuar sendo. A liberdade, infelizmente, foi vilipendiada pelos regimes ditos "esquerdistas" em muitos países, quando deveria ter sido inalienável. Um erro. Se quisermos que a esquerda se reinvente nas próximas décadas, é preciso abraçar também a tolerância como um de seus valores máximos. O partido a favor da tolerância está em plena expansão e o churrasco de protesto acaba de nascer como uma forma genuinamente brasileira de manifestação. Tem linguiça, mas também tem picanha, por que não? Tolerância: é todo mundo bem-vindo. Desde que colabore na cerveja.

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