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Sociedade

Crônica do Menalton

Sobre embalagens

por Menalton Braff publicado 29/01/2016 05h36, última modificação 01/02/2016 15h10
Se a embalagem tem cara de luxo, a mercadoria tem venda garantida. Assim também é com as pessoas
Manuel Bandeira na ABL

O motorista examinava Manuel Bandeira pelo retrovisor, olhos de espanto. Como entender, no seu velho táxi, caindo de plebeu, uma figura daquelas?

Há quem faça suas compras pelo encanto exercido pela embalagem. Pouco importa o que vem lá dentro. E os marqueteiros conhecem muito bem o ser humano, são os filósofos do mercado. Se a embalagem é vistosa, elegante e tem cara de luxo, a mercadoria tem a venda garantida. Principalmente se tem cara de luxo, pois compra-se muito mais um status do que uma mercadoria. Os semioticistas que o digam.

Assim é também com as pessoas. Longe de mim pensar que sejam mercadorias. O assunto é outro. Meu compadre Adamastor queixou-se de que hoje em dia não se pode mais evitar um ladrão apenas pela roupa.

Antigamente era assim? Minha memória pouco me diz sobre o assunto. Não entendi bem sua queixa até que me contasse a história de um amigo dele, que vendeu seu carro na sexta-feira depois das 4 da tarde e recebeu como pagamento um cheque.

Assinou todos os documentos no cartório por um belo cheque de 40 mil reais. Passou o sábado e o domingo planejando a reforma que deveria fazer em casa, telefonou para o pedreiro, fez o orçamento do material e tomou várias cervejas em prévia comemoração. Na segunda-feira, pouco antes do meio-dia, descobriu que a conta estava encerrada há cerca de três anos.

Mas como?, esbravejava o vendedor. Era um homem muito bem-vestido: o sapato brilhando, o terno com cheiro de novo, camisa de colarinho, uma gravata com jeito de italiana. Como é que pode? Parecia um lorde, um senador! Meu amigo, o Adamastor, contou-me a história e me perguntou: Como é que pode?

Lembrei-me de um caso relatado por Manuel Bandeira. No dia em que foi tomar posse de sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, vestiu-se com o fardão, aquele fardão verde todo engalanado, como convém a seres imortais. E ele, que jamais em sua longa vida dirigiu um automóvel, tomou um táxi.

O motorista, sempre que possível, examinava-o pelo retrovisor, olhos de espanto. Como entender, no seu velho táxi, caindo de plebeu, uma figura daquelas? Parado em um farol da Avenida Brasil, virou-se para trás e, tirando respeitosamente o boné, perguntou:

– Sois rei?

Essa história, ouvi do doutor Edward Lopes, eminente semioticista de fama mundial, que mora aqui por perto à revelia da população com que se faz vizinho e que o ignora. Se andasse com frequência pelas ruas da cidade, vestido de terno e gravata, sapatos de cromo alemão, o povo já o teria feito advogado (eles não podem entrar no fórum vestidos de maneira diferente) ou senador.

O Adamastor saiu aqui de casa sem se despedir e foi direto a um alfaiate.