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Sociedade

Cariocas Quase Sempre

Sob o céu da ressonância

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 20/05/2011 14h26, última modificação 20/05/2011 16h44
Como é entrar em um tubo que revela, não sem sofrimento, imagens que o corpo esconde. Não fosse a provação a que ele nos obriga, não estaríamos aqui falando mal da máquina de RM

Quem já esteve sob aquele teto de aço, recebendo vibrações sonoras num volume quase insuportável por um quarto de hora que parece um dia inteiro, sabe o que significa um exame de ressonância magnética. Muitos brasileiros jamais tiveram acesso a esse método de diagnóstico. Não fosse a provação a que ele nos obriga, não estaríamos aqui falando mal da máquina de RM.

Se o paciente não tiver a sorte de precisar pesquisar apenas do joelho para baixo, será introduzido naquele tubo inexorável e inescrutável, e não estacionar apenas nas suas assustadoras bordas. Será obrigado a entrar, atado a uma superfície dura para garantir a imobilidade do corpo e a qualidade da imagem. Quando a cama desliza e lentamente leva a gente para dentro do rocambole é o sinal irreversível do início do turbilhão, desde que termine o pré-pesadelo do vai e volta do ajuste.

Por mais que os auxiliares prestem informações, em geral eles não falam muito, e lhe entreguem uma campainha para se comunicar com os médicos que vão bisbilhotar em tempo real os seus pecados mais intestinais, a situação não é confortável.

Outro detalhe é o glacial da sala, que deve tratar a máquina melhor do que o ser humano – a sociedade tecnológica é assim. O frio intenso leva os assistentes a cobrir o paciente com uma manta, deixando sempre o dedão de fora por mais que se esmerem. Segundos antes do início do exame e de vozes vindas de um aquário perguntarem se “está tudo bem” (como assim, “tudo bem?”), começa, no mínimo, uma coceira no nariz ou em outra parte. E é quase certo que aquela crise de pânico, há muito reclusa, vai dar as caras.

Outra quase certeza é de que, num ataque de fúria, você estragará tudo e pedirá para sair do tubo, mesmo jamais tendo almejado pertencer à elite bopiana do Capitão Nascimento. E isso acontece, dizem relatos. Fora o vexame de um pleito desses num homo sapiens do século XXI, seu médico vai lhe sugerir uma nova tentativa. Ou, azar o seu. Só resta pensar que, sim, você haverá de sair íntegro daquele refrigério.

Especialistas e pesquisadores reconhecem a claustrofobia que a RM provoca na maioria das pessoas. Não sabemos por que ainda não inventaram uma máquina menos opressora, apesar dos avanços obtidos. Já existem poucos aparelhos de diâmetros mais amplos e até modelos abertos nas laterais. Mas pela velha lei de Murphy, este, que faz você se sentir um misto- frio num grill, não deverá ser indicado para o seu caso. Em alguns laboratórios, é possível RM ao som de clássicos num headphone que reduz a angústia do momento e os decibéis em suas várias escalas. Mas o gadget só é admitido se o piloto do aparelho não precisar pedir que o paciente inspire e expire uma centena de vezes.

Depois do lapso existencial dentro do túnel, a voz do além anuncia, enfim, o fim da jornada. Parece que meia hora se passou ou foi a vida inteira? Outro herói na antessala está à espera. Você passa por ele sem coragem de trocar sequer um olhar que alimente sua reserva moral pronta a desmoronar. Naquela impalpável vida intratubo, nada e tanta coisa passaram pelas suas ideias, menos o que os doutos descobririam nos abissais de suas entranhas.

Recomposto, relógio no pulso, novamente senhor do seu tempo, você vê o médico que dirigiu a viagem passar lançando um sorriso confiante. Mas a sua experiência é tão única que de nada adiantará você convencer os amigos o quanto foi um bravo para os seus padrões. Principalmente se, antes de entrar no tubo, você precisou de uma hora e meia para sorver, com asco, oito copos de um contraste com um insuportável gosto artificial de limonada. Quando o resultado da RM chegar, você então começará, ou não, a se preocupar com outras coisas.

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