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Só no chão de fábrica

por José Vicente — publicado 20/07/2010 14h17, última modificação 28/07/2010 10h30
Apesar do discurso da inclusão, as empresas reservam aos negros os empregos menos qualificados

Apesar do discurso da inclusão, as empresas reservam aos negros os empregos menos qualificados

A honrosa visita da secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, à querida Faculdade Zumbi dos Palmares, quando de sua viagem oficial ao Brasil, foi daquelas ocorrências únicas. Mobilizou todos os presentes e elevou às alturas o orgulho dessa valorosa e destacada casa de ensino. Foram incontáveis os sentidos e significados da tão ilustre visita num lugar que sintetiza, de maneira profunda e significativa, os dilemas e a dimensão da luta hercúlea de sobrevivência e superação do negro na sociedade brasileira.

Confessando sua alegria e entusiasmo por pisar pela primeira vez na única Instituição de Ensino Superior voltada para o negro no Brasil – nos Estados Unidos são quase duas centenas de universidades historicamente negras, a maioria delas centenárias, Cheyney University, em Chicago, é datada de 1837 – com disposição e curiosidade de adolescente percorria os corredores, enquanto perguntava sobre as mais variadas estatísticas sociais do negro no Brasil. Ao responder sobre os números de negros nos cargos de direção das maiores empresas do País e no corpo docente das principais universidades brasileiras, Hillary estancou a marcha e retrucou com espanto: não pode ser verdade. Toquei seu braço indicando que prosseguíssemos a marcha e respondi-lhe com naturalidade: é tudo verdade. Nas empresas americanas também? Perguntou. “Sim senhora secretária, é verdade, nas empresas americanas também. É tudo verdade.”

Ao final de uma breve reunião com presidentes das grandes empresas americanas instaladas no Brasil improvisada numa das salas de aula, Hillary reencontrou-me para seguirmos até o auditório. Estava surpresa e decepcionada com a confirmação de que, diferentemente de suas matrizes, em nenhuma das empresas americanas no Brasil havia um negro entre os principais executivos e que, em algumas delas não empregavam um homem ou uma mulher negra sequer. De maneira categórica definiu com ar de profunda seriedade: isso é uma grande injustiça, é preciso mudar essa história, não há vitoriosos numa condução dessa natureza. Empresas, negros e sociedade em geral, todos são perdedores.

Em maio, “comemoramos” o Dia da Abolição da Escravatura no Brasil. O episódio noticiado chama-nos à reflexão por traduzir mais uma daquelas chamadas verdades inconvenientes: a contraditória teoria e prática dos valores e da ética empresarial no nosso- país- em relação aos negros.

Não obstante a elevada miscigenação característica do Brasil – a maioria da população se autodeclara negra –, a ação empresarial, via de regra, não contempla o equilíbrio da representação demográfica na distribuição dos cargos significativos, de prestígio e status no seu quadro funcional e, dessa maneira, contribui intensamente na manutenção e mesmo ampliação do fosso da desigualdade de acesso às oportunidades dos negros brasileiros no mercado de trabalho.

Nunca é demais lembrar os dois artigos da particular abolição da escravidão do negro brasileiro: está extinta a escravidão no Brasil. Revogam-se as disposições em contrário. Diferentemente dos negros americanos, por exemplo, que tiveram sua mula e seu acre de terra e que, subvencionados pelo Estado, puderam criar suas escolas, igrejas e universidades e, a partir da ação desse mesmo Estado, por meio de medidas afirmativas, ter garantido acesso aos postos destacados do ambiente empresarial e carreiras prestigiosas do próprio Estado.

É conhecido historicamente que, como subprodutos da escravidão, o racismo e a discriminação contra o negro alcançaram a base instituinte do regime econômico, jurídico e da formação do Estado brasileiro, funcionando como base de construção das relações sociais do País e impregnando-se no tecido social com naturalidade. Também é de notório conhecimento que as estruturas sociais públicas e privadas produzem e reproduzem a discriminação racial de maneira involuntária, voluntária ou pré-ordenada, das mais diferentes formas e com os mais justificados interesses, construindo e definindo uma estética de poder de acesso a espaços e postos privilegiados. Nesse contexto, no Brasil, o poder na sua generalidade e significados é branco.

 Seguramente as empresas também não escapam de sua reverberação. Mesmo porque é na empresa que a tensão social e suas distorções se manifestam com grande intensidade. No Brasil, a seleção e distribuição das oportunidades no ambiente corporativo parecem subordinar a uma lógica de estética homogênea e valores subjetivos do tipo espírito do corpo ou de classe, os quais antecipam e determinam quem e em que lugar pode dele participar. Só isso pode explicar por que as empresas são esteticamente homogêneas para cima e heterogêneas para baixo.

 Mas as empresas, como grandes agentes sociais, concentram a maioria das oportunidades de trabalho e ascensão social. São também produtoras de cultura de valores e de mudança social com ampla capacidade de moldar atitudes e replicar valores e gerar mentalidades.

Nelson Mandela nos ensina que o homem não nasceu odiando. Que, se ele aprendeu a odiar, também pode aprender a amar. Hillary Clinton nos convida para o inconformismo diante da injustiça e nos convida a todos para realizarmos as mudanças.

O ambiente empresarial pode fazer as duas coisas, ensinar o valor da solidariedade e da fraternidade e usar seu poder transformador para fazer a mudança.

Uma nova ética que torne verdade consequente a Justiça e as oportunidades, permitindo que num breve tempo tornemo-nos todos grandes vencedores. •

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