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Ser bom de bola não é tudo

por Socrates — publicado 28/01/2011 09h19, última modificação 02/02/2011 12h36
Uma das grandes revelações do futebol brasileiro nos últimos anos e que precocemente deixou o País, Alexandre Pato continua a trajetória na Itália de forma absolutamente tranquila. Por Sócrates
Ser bom de bola não é tudo

Alexandre Pato continua sua trajetória na Itália de forma absolutamente tranquila. Enquanto muitos dos nossos jovens encontram dificuldades para se inserir na sociedade e na cultura europeias. Por Sócrates. Foto: AFP

Uma das grandes revelações do futebol brasileiro nos últimos anos e que precocemente deixou o País, o atacante Alexandre Pato continua sua trajetória na Itália de forma absolutamente tranquila. Enquanto muitos dos nossos jovens encontram dificuldades para se inserir na sociedade e na cultura europeias, outros, como ele, parecem ser natos no Velho Mundo.

Creio que a formação e a origem têm relação direta com a maior ou menor capacidade de se adaptar ao novo ambiente. Quem nasce no Sul do País, ainda que venha de uma família sem sangue europeu, convive com pessoas que conservam as tradições e hábitos dos colonizadores e imigrantes que se estabeleceram no Brasil, a exemplo dos descendentes de italianos e alemães. Ao se defrontar com a realidade europeia, tem muito mais facilidade de se sentir quase em casa quando chega por aquelas paragens.

O contrário ocorre com aqueles originados do Norte ou Nordeste do País, pois esses apresentam características culturais absolutamente diversas das que encontrarão no exterior, particularmente na Europa mais ao Norte. Ainda que os países nórdicos tenham sido pioneiros na revolução sexual e de costumes, seu povo percebeu que tinha pouca identificação com essa nova ordem e não deixou de preservar suas tradições e cultura, o maior patrimônio de qualquer povo que se preze.

Por outro lado, essa revolução de costumes encontrou abrigo no Brasil. Com alegria, liberdade, sentimento musical e poético, nosso povo absorve com muito mais facilidade as transformações conceituais que a humanidade busca para se adaptar aos novos tempos de plena comunicação e restrita privacidade.

Deslumbramento

Esta semana fui contatado pelo pessoal que realizou o do-cumentário Mundialito. Trata-se de um filme imperdível, que mostra com propriedade como o nosso futebol, por meio de seus representantes, envolve-se na política com claros interesses econômicos. Também revela como a política tenta utilizar essa paixão popular em benefício de alguns parâmetros ideológicos ou simplesmente pela preservação do poder. Os uruguaios, ao contrário de muitos de nosotros, tentam desnudar a própria história com uma avidez invejável.

Pois bem, essa turma que faz cinema com compromisso social me convidou para colaborar em um novo projeto, baseado em uma obra literária que conta a história de um apaixonado pelo futebol. O personagem descuida-se, no entanto, com os estudos e a literatura, até sofrer um acidente e passar mais de um ano sem saber se voltaria a jogar. O mundo virtual em que havia se inserido desaba. Com a ajuda de uma amiga, que vem a se tornar o grande amor de sua vida, o atleta cai em si e se volta para a própria formação intelectual.

Acompanhando alguns fatos ocorridos esta semana, inclusive debates pela internet entre comentaristas e jogadores, nem sempre muito educados, reconheço que a obra em questão é de extrema importância. Especialmente para esses jovens que sonham com o estrelato e a fortuna que o futebol oferece.

O livro de Daniel Baldi chama-se Meu Mundial e tem um emocionante prefácio de Diego Lugano, capitão da Celeste e inesquecível ídolo do São Paulo. Desfrutarei com os leitores de uma pequena amostra desse texto esclarecedor:

“O futebol é parte do meu ser, porém também existe em mim outros aspectos que me fazem muito feliz e eu aprendi a desfrutá-los. No final das contas, acabei por considerar o acidente como algo positivo para minha vida. Sinto que se não tivesse acontecido o acidente, nunca haveria estudado, não teria me preparado e terminaria como um ignorante total e, portanto, uma presa fácil para tipos depreciáveis, como boa parte dos empresários de futebol, que sempre só querem engrossar seus bolsos com a riqueza produzida pelos jogadores de futebol...”

“Naquele momento tomei consciência e me preparei. Hoje, escrevo melhor, leio e consigo me dar conta de como é horrível a fala da maioria dos jogadores de futebol quando dão entrevistas, assim como também o quão pouco estão preparados os jornalistas esportivos na hora de opinar sobre esse esporte; aprendi a armar orações, discernir, avaliar, pensar e isso, creio, é o mais importante para cada ser humano.”

Para encerrar: esta é uma belíssima história que serve para cada um de nós, independentemente do tipo de trabalho que abraçamos. O amanhã sempre será um desconhecido que devemos temer.

Não nos esqueçamos!

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