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Militante peronista

Sequestrador de Abílio Diniz, em liberdade, defende política sem armas

por Opera Mundi — publicado 23/08/2010 10h53, última modificação 23/08/2010 11h24
Em 1989, o argentino Humberto Paz liderou o sequestro de Abilio Diniz para financiar a guerrilha de El Salvador. Hoje ele prega a política sem armas. E não se arrepende do que fez

Humberto Paz afirma que o objetivo do sequestro era "apoiar a guerrilha de El Salvador"

Por Luciana  Taddeo 

Com uma lixa na mão, tirando farpas de um pedaço de madeira, o argentino Humberto Paz narra sua história com serenidade. Fala pausada, o olhar doce e a simpatia são algumas de suas características que, a primeira vista, não combinam com seu passado: foi ele quem liderou o sequestro do dono do grupo Pão de Açúcar, Abilio Diniz, em dezembro de 1989.

Paz recebeu Opera Mundi em sua oficina, localizada na periferia fabril de Buenos Aires, onde confecciona vidros, espelhos e molduras para quadros. O bairro, La Tablada, é um tradicional distrito operário, ocupado por indústrias e pequenas casas térreas. Foi lá que, aos 13 anos, ingressou na militância peronista, participando de marchas por melhores condições de saneamento e moradia na vizinhança.

Com um sorriso atravessa a barba branca, Paz fala com naturalidade sobre a infância, quando teve que trabalhar para sustentar a família, sobre a vida na guerrilha durante o regime militar argentino e sobre a participação no sequestro de Abílio Diniz. São histórias contadas como se pertencessem a outra vida, relatadas com emoção aos 55 anos.

Ainda no final da adolescência, junto com seu irmão Horácio, filiou-se ao PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores) e passou a fazer parte de seu braço armado, o ERP (Exército Revolucionário do Povo). Esse grupo e os Montoneros eram as principais organizações guerrilheiras argentinas nos anos 1960 e 1970. Paz conseguiu recuperar, recentemente, uma foto de seu primeiro treinamento militar, realizado em 1974.

Desde que caiu preso a primeira vez, em 1975, até o retorno a Buenos Aires, em 2001, sua trajetória foi marcada pela cadeia, o exílio e a clandestinidade. Após os dez anos de prisão no Brasil, condenado pelo sequestro de Diniz,  ainda cumpriu mais dois anos na Argentina, depois de repatriado em 1999. Quando recebeu liberdade condicional, há nove anos, voltou ao convívio com a família e amigos.

Aos poucos, foi reunindo as peças perdidas para reconstruir o formato de sua vida. “Depois de tantos anos de clandestinidade, guerrilha e prisão, pude me recuperar como pessoa”, relata Paz. “Há anos eu não estava estabelecido em lugar algum. Na ditadura, mudei umas 12 vezes de casa e, no exílio, me deslocava, o tempo todo, de um país a outro. Essa inconstância deixou cicatrizes dolorosas, não só em mim, mas também nos meus filhos, que me deram três netos depois que saí da cadeia.”

 O sequestro

Paz explica que a operação do sequestro foi planejada aproximadamente um ano antes: “Foi muito difícil aceitar participar, porque na época esta decisão significava continuar vivendo às escondidas, em vez de tentar levar uma vida normal”. Na época, final dos anos 1980, já era militante do MIR (Movimento da Esquerda Revolucionária), grupo chileno envolvido na luta contra a ditadura de Augusto Pinochet.

“Não quis voltar a Argentina depois da redemocratização em 1983”, conta Paz. “Até fiquei alguns meses, mas meu partido tinha sido destruido, a maioria de meus companheiros estava morta ou desaparecida. Não encontrei meu lugar e resolvi me integrar à resistência chilena. Para o que desse e viesse.”

A ordem de realizar o sequestro, segundo ele, partiu do comando de sua organização e o objetivo seria “apoiar a guerrilha de El Salvador”. O pequeno país centro-americano atravessava uma longa guerra civil naquele momento, e o colapso da União Soviética havia prejudicado o financiamento da esquerda local, progressivamente incapaz de enfrentar um governo fortemente respaldado pelos Estados Unidos.

Abílio Diniz foi raptado em uma manhã de dezembro, em 1989, no Jardim Europa, São Paulo. Quando se dirigia ao trabalho, sua Mercedes foi encurralada por uma Caravan disfarçada de ambulância e por um carro, dos quais desceram homens que o renderam e o levaram a uma casa no bairro do Jabaquara. O empresário foi mantido como refém durante seis dias em um cativeiro subterrâneo de seis metros quadrados. O resgate pedido por sua liberdade era de 30 milhões de dólares.

Mas uma sucessão de erros na operação levaram à prisão de seus chefes e à localização do esconderijo onde estava o refém. Após 36 horas de cerco policial, que culminaram no dia das primeiras eleições presidenciais brasileiras depois do golpe de 1964, os sequestradores se renderam e foram presos. Ao ser liberado, Abílio Diniz declarou: “Foram os piores dias da minha vida”.

O pesadelo de Humberto Paz e seus companheiros apenas começava. Condenados a 28 anos de prisão, depois de sete teriam direito à progressão penal e ao regime semi-aberto. Diante de decisões contrárias da Justiça, fizeram três greves de fome em 1998. A última durou 45 dias e acabou no último dia do ano, quando o governo de Fernando Henrique Cardoso aceitou repatriá-los para os países de origem, onde terminariam de cumprir sua pena.

 Somente nessa fase, quando os dez prisioneiros (além dos dois irmãos argentinos, Humberto e Horácio Paz, havia mais cinco chilenos, dois canadenses e um brasileiro) corriam risco de morte, o MIR assumiu oficialmente a autoria do sequestro. Os salvadorenhos foram mais discretos: através de carta ao então ministo da Justiça, Renan Calheiros, um dirigente da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional reconhecia o motivo político da operação e pedia desculpas. O signatário da carta foi Salvador Sanchez Cerén, atual vice-presidente da República.

Adeus às armas

“Você tem música do Brasil pra me passar? Adoro Maria Bethânia e Elis Regina”, diz o argentino quando perguntado sobre detalhes do sequestro. Diante da insistência, foge do assunto e solta uma sonora gargalhada. Mas se põe sério ao ser questionado se está arrependido do que fez.

 “Como alguém vai se arrepender de ter lutado contra a pobreza e as ditaduras?”, reage. “Se hoje conquistamos sociedades democráticas, foi também graças ao nosso combate. Não pegamos em armas porque éramos loucos, mas porque era uma necessidade. Os nossos estavam sendo assassinado e massacrados. O que fizémos foi reagir. Infelizmente isso teve um preço também para quem não estava diretamente no conflito. Foi o caso do senhor Diniz.”

Mas é enfático ao afirmar que os tempos atuais são diferentes. Não integra mais nenhum partido político, mas apóia o governo de Cristina Kirchner e participa de manifestações a seu favor. "Os países da América Latina construíram processos democráticos e de participação popular, não é mais a hora das armas", afirma Paz. "Muitos deram a vida para que chegássemos até aqui. Outros caminhos se abriram, através da organização das pessoas e eleições livres, que devemos defender incondicionalmente. A democracia é um valor da esquerda, sempre ameaçado pelos conservadores quando temem as mudanças."

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