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Sociedade

Cariocas (Quase Sempre)

Sem vassoura e sem espada

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 27/10/2010 08h53, última modificação 27/10/2010 08h53
A lei cortou o barato que transformava o corpo do eleitor em estandarte da campanha

A lei cortou o barato que transformava o corpo do eleitor em estandarte da campanha

Por causa da minirreforma eleitoral, a propaganda política perdeu um de seus melhores estandartes: o corpo do eleitor. Acabaram de vez os broches, bonés, camisetas, chaveiros e outros acessórios que antes transformavam os simpatizantes deste ou daquele candidato em sua melhor peça de marketing. Uma peça que, se acionada, falava, argumentava e ainda podia conseguir mais um votinho.

Os badulaques eleitorais não são mais legais desde 2006 e, perante a lei, configuram crime. De qualquer maneira, já estava ficando meio “pagação” de mico vestir de verdade uma opção política. Quando o ambiente democrático entre nós ainda era uma criança aprendendo a andar de bicicleta com rodinhas depois de anos da ditadura e, por isso mesmo, vergavam-se com o maior orgulho camisetas de candidatos e outras peças. Algumas eram disputadas a pau e assinadas por artistas famosos (não é, Ziraldo?). Muito do material de campanhas passadas, até as mais recentes, virou peça de colecionador. Basta conferir na internet.

Mas até há pouco tempo a fissura por se expressar politicamente era tão grande, do tamanho da compressão sofrida por 20 anos, que era mesmo um barato colar adesivos nos automóveis e motos, dependurar faixas nas varandas, fincar bandeiras e bandeirolas, com as cores dos partidos, nos carros, para que tremelicassem ao vento. O lance era ir para as ruas e poder mostrar em quem se ia votar.

Mesmo os candidatos ditos reacionários pelas alas ditas progressistas tinham sua turma. Nos fins de semana, os cabos eleitorais apaixonados e sem honorários curtiam desfilar sua propaganda na camiseta ou no boné. E depois da praia, claro, tudo acabava em chope e batata frita. O dia seguinte era segunda-feira.

Em eleições passadas a cidade e as praias tinham um ar de festa espontânea de cores e logos que se espalhavam pelo asfalto e pelas areias cariocas sem a necessidade de convocação. Havia uma espécie de pulsão de bloco de sujo, sem corda e cercadinho e sem autorização do Detran de então, porque ninguém estava a fim de bagunçar o trânsito.

Não se pode somente culpar a lei pelo modelito clean do eleitor de hoje e pelo ar non chalance que respiramos nas rua­s à véspera do pleito. Parece que todo aquele tesão foi parar na blogosfera com seus prós e contras pela temperatura que a coisa atingiu. Embora continue sendo burlada aqui e ali, a lei, já em tempo, quis deter o abuso econômico de candidatos e partidos com a guerra dos brindes e de outras cositas mas, práticas entranhadas na cultura política nacional.

Esse deserto de badalhocas eleitorais de agora faz lembrar da briga boa que era na infância aparecer para os amiguinhos da rua com uma vassourinha ou com uma espada no peito.

Para as crianças daqueles anos que precederam 1964, significava que seus pais, que, obviamente, lhes davam os mimos, votavam em Jânio Quadros ou no Marechal Lott. Ambos prometiam, à esquerda e à direita, varrer ou espetar a já velha corrupção.

Mas o que fica na memória é que ali já se aprendia com os mais velhos a importância dos antagonismos, sem medo de críticas ou de ataques, errados ou certos. O resto é a história.

PELÉ, 70 Anos (23/10/1940)

“Maradona só será um Pelé quando for tricampeão mundial e marcar mil gols.” Cesar Menotti, El Flaco, ex-jogador do Santos, entre outros times, como o Boca, e técnico campeão do mundo de 1978. Citado por João Máximo, no Globo.

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