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Selva de pedra, só para carros

por Ricardo Carvalho — publicado 09/08/2011 13h59, última modificação 12/08/2011 11h23
Quem passa 10 minutos diante de um cruzamento em SP tem poucos motivos para acreditar que um dia a campanha de conscientização pelo respeito aos pedestres dará resultados
Selva de pedra, só para carros

Quem passa 10 minutos diante de um cruzamento em SP tem poucos motivos para acreditar que a campanha de conscientização pelo respeito aos pedestres terá resultados. Por Ricardo Carvalho

O agente de trânsito Pelegrini pede um minuto. Saca a caneta do bolso e anota três letras e quatro números na palma da mão. O motorista do veículo autuado, uma camionete branca, tentara aproveitar o farol amarelo e invadira a faixa de pedestres no meio da travessia da rua Líbero Badaró, bem em frente a prefeitura. Infração gravíssima, sete pontos riscados da carteira.

“Qual era a pergunta mesmo?”, retoma calmamente Pelegrini. Ele discorre sobre os três tipos de infração de trânsito que, desde a segunda-feira 8, passaram a ser religiosamente aplicadas aos motoristas que desrespeitam quem se arrisca a atravessar uma rua em São Paulo: 1. não esperar o fim da travessia quando há um semáforo; 2. não dar a vez aos pedestres nas faixas sem semáforo; 3. não respeitar a preferência dos pedestres nas conversões. Na teoria, essas situações já deveriam ser punidas segundo o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), de 1997. Na prática, entretanto, qualquer pessoa acostumada a andar a pé pela capital sabe que tentar cruzar uma via em São Paulo envolve grandes esforços, para não dizer riscos. Não é para menos. Só em 2010, mais de sete mil atropelamentos ocorreram na cidade, resultando em 630 mortes. No próximo mês, a fiscalização passa a valer para a toda a capital.

Na segunda-feira 8, quando a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) passou a fechar o cerco contra os motoristas, aconteceram 20 atropelamentos. Ironicamente, o número é maior do que a média diária registrada no ano passado, mesmo após três meses de campanhas de conscientização realizadas pela companhia. “Vai demorar muito para mudar alguma coisa”, diz o motoboy Ricardo, de 34 anos. Há cinco anos, ele conduz diariamente pelas ruas da capital das 8 às 17 horas. “Já vi muito atropelamento, seja por culpa do motorista ou do pedestre”. Opa... pedestre? Ricardo se explica. “Tem motorista que não respeita. Agora, os pedestres vacilam, se enfiam onde não é para atravessar”.

Em uma rápida conversa com as pessoas da região central, constata-se que a opinião de Ricardo não é uma exceção. Apressado para chegar ao trabalho, Carlos, de 48 anos, não tem cinco minutos para falar com a reportagem. A passos rápidos e ofegante, ele se limita a exclamar: “Em São Paulo ninguém respeita ninguém. Os pedestres também não respeitam. Todo mundo é muito apressado nessa cidade”. Sentado nos degraus de um dos muitos prédios comerciais da Libero Badaró, um outro Carlos, 30 anos e motoboy há dez, lamenta. “Agora que eles (os pedestres) têm razão, estão abusando mais ainda”.

Na rotina da cidade, a pressa e a correria são as principais razões para justificar o clima de “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” que gere a lógica do trânsito. “São Paulo é uma coisa maluca. As pessoas falam em falta de tempo. Só que falta tempo também para pensar em cidadania”, diz Humberto, 56 anos, que trabalha numa banca de jornal em frente ao número 400 da Libero Badaró. Por sinal, bem adiante da banca há uma faixa de pedestres e todos os dias ele flagra infrações de trânsito. “Para a quantidade de pessoas que cruzam essa rua e o jeito que dirigem os motoristas, me impressiona que haja poucos acidentes”.

Quem observa um cruzamento da capital por meros dez minutos de fato constata que muitos pedestres se aventuram a atravessar a rua fora da faixa e quando o semáforo está fechado. Talvez o erro esteja em colocar no mesmo patamar uma pessoa dentro de um veículo motorizado a 50 quilômetros por hora e um indivíduo sem nenhuma proteção. Nesses casos, quando os carros avançam e buzinam diante de caminhantes que se esquivam como podem, o agente de trânsito explica. “Não posso fazer nada”.

Mesmo com o início das autuações, a campanha de conscientização continuará pelos próximos meses. Em algumas das travessias mais movimentadas da capital, um grupo de conscientizadores da CET, chamados de “mãozinhas”, sinalizam o momento adequado para os pedestres colocarem o pé na faixa. Eles também tentam ensinar aos paulistanos a gesticular quando querem atravessar em faixas sem semáforos. A exemplo de Brasília, que lançou um projeto semelhante há 14 anos, espera-se que em São Paulo os motoristas cedam a passagem quando um pedestre levantar o braço. “Será como a questão do cinto de segurança”, explica Pelegrini, que no primeiro dia da fiscalização autuou dez veículos na rua Boa Vista. “Ao perceber que a infração é punida, os motoristas vão respeitar”. Humberto, todos os dias observando o vai e vêm dos carros, é um pouco menos otimista. “Pode ser que nem a Lei Seca. É bem capaz que não pegue”, explica, para logo depois apontar o dedo para a faixa de pedestre. “Viu? O carro branco quase pegou aquele senhor”.

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