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Sociedade

Desigualdade

Segundo Ipea, pobreza extrema no RS é quase 60% menor que a do Brasil

por Sul 21 — publicado 26/05/2011 17h41, última modificação 26/05/2011 17h51
Segundo instituto, a melhor qualidade de vida e a média de renda superior ao país colaboram para o estado possuir apenas 2,1% da população nesta faixa

Por Rachel Duarte*

Previsto para ser lançado em junho, o Plano Brasil sem Miséria está sendo apresentado pelo governo a integrantes de movimentos sociais. Ao longo da última semana, representantes de trabalhadores rurais e de movimentos sociais urbanos foram os primeiros a conhecer as diretrizes da política que tem a meta de retirar 16 milhões de pessoas da extrema pobreza até 2014. Em paralelo, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) está percorrendo 15 estados brasileiros para apresentar a linha nacional da extrema pobreza, diagnosticada em detalhado estudo. Os dados mostram quem são e onde estão os indivíduos mais pobres no Brasil. Nesta quinta-feira (26), foi a vez do Rio Grande do Sul conhecer melhor a sua realidade e a notícias foi boa: a média de extrema pobreza entre os gaúchos é quase 60% menor que a do resto do país.

A apresentação dos indicadores ocorreu pela manhã, no auditório da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). No evento, o diretor de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, Jorge Abrahão, falou sobre a dimensão da pobreza extrema no Brasil e no Rio Grande do Sul. Segundo ele, os gaúchos têm qualidade de vida melhor e, por conseqüência, menos pessoas na linha da extrema pobreza devido média de renda gaúcha ser superior a brasileira. “Apenas 2,1% da população gaúcha é extremamente pobre, enquanto no restante do país são 5,2 %. Portanto, a desigualdade no RS é menor que no resto do país. O Brasil demorou quase oito anos para chegar na média gaúcha de desigualdade.”, comparou.

Como no restante do país, a extrema pobreza do RS está localizada muito mais no meio rural do que no urbano. “Apesar disso, persiste ainda um número expressivo de pobres extremos carentes de políticas públicas”, alerta. Segundo Jorge Abrahão, o perfil das pessoas consideradas extremamente pobres é de famílias com quantidade expressiva de crianças, com adultos que não trabalham, sendo muitos analfabetos funcionais. “Os dados mostram que do total de pobres extremos, 49,4% são crianças. É importante analisar este indicador que aponta as crianças para levar à luz dos gestores públicos a necessidade de um conjunto de políticas públicas que as atenda, a fim de que elas não repitam a trajetória dos pais”, explica.

Erradicar não é zerar

O objetivo dos seminários que estão sendo realizados pelo Ipea no Brasil é traçar perfis regionalizados da pobreza extrema e auxiliar a elaboração do Plano Nacional de Erradicação da Miséria. O estudo divulgado dá a dimensão e a medida da pobreza extrema no Brasil, mas, não a realidade absoluta, uma vez que a pobreza é considerada volátil pelos especialistas. “Há pessoas que declaram zero na renda do mês em que fazemos a pesquisa, mas que são, por exemplo, consultores e naquele mês não faturaram. Mas não quer dizer que são pobres”, exemplificou Jorge Abrahão. Por esta razão, ele se adianta dizendo “não há como zerar os índices”. As variações da economia e do alcance das ações públicas que serão feitas no próximo período terão influência. “A pesquisa é feita de um recorte de um único momento. E a economia oscila. As pessoas entram e saem da pobreza com frequência”, disse.

O cientista social esclarece também que a metodologia da pesquisa feita pelo Ipea levou em consideração dados do Censo 2010 e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) – Ibge. O estudo possibilita aos gestores que irão desenvolver programas regionais de combate à pobreza e também aos desenvolvedores do Plano Brasil Sem Miséria seguirem uma Linha Nacional de Monitoramento da Pobreza Extrema. O conceito de pobreza extrema tirado deste estudo é: “o estado de privação de um indivíduo cujo bem-estar é inferior ao mínimo que a sociedade a qual ele pertence julga obrigada a garantir”. No caso estabelecido pela pesquisa, são considerados pobres extremos aqueles com renda mensal per capita inferior a R$ 70.

“Isso não quer dizer que serão ignoradas outras linhas como o BPC (Beneficio de Prestação Continuada), que diz que pobre é quem tem ¼ do salário mínimo. Não. Quanto mais dados tivermos melhor. Mas, a nossa linha não é balizadora de programas federais, é o diagnóstico da realidade da nação brasileira”, diferenciou.

Bolsa Família não resolve, mas não pode faltar

Entre os extremos pobres no Brasil, 66,7% recebe o programa federal de transferência direta de renda Bolsa Família. O valor do benefício recebido pela família pode variar entre R$ 32 a R$ 242, mas não resolve o problema da pobreza. “O necessário é desenvolver políticas públicas estruturantes para aumentar a produtividade das famílias. Muitas podem estar tentando uma ocupação e não tem as mínimas condições de mercado”, diz o representante do IPEA.

Mas, Jorge Abrahão alerta que, apesar de não ser a única solução, retirar benefícios como o Bolsa Família seria um retrocesso de 20 milhões de pessoas a mais na linha da pobreza extrema. “O efeito seria devastador sem a previdência rural e o bolsa família. No RS, para se ter uma ideia, quase 60% dos extremamente pobres recebem transferência de renda de programas sociais”, falou.

A coordenadora do Programa Estadual de Combate a Extrema Pobreza, Márcia Bauer também participou do evento e apresentou as intenções do governo gaúcho para seguir mantendo os bons indicadores e combatendo os 2,1% de extremos pobres ainda existentes. “A meta da gestão é utilizar estes dados para combater a pobreza onde ela está. Utilizaremos três diretrizes: transferência de renda, ampliação do acesso aos serviços públicos e geração de oportunidades”, explicou.

Também participaram do debate o presidente da Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser (FEE), Adalmir Marquetti e a economista da FEE Clitia Helena Backx Martins. “Esperamos continuar integrados com o IPEA para troca de dados sobre temas tão fundamentais como o do combate a pobreza”, falou Marquetti.
*Publicado originalmente em Sul 21.

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