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Rio de Janeiro

Sede dos Jogos, Rio sofre com pouca estrutura para atletas

por Deutsche Welle publicado 11/03/2014 09h16, última modificação 11/03/2014 10h40
Com o estádio Célio de Barros fechado, esportistas improvisam. Metade dos pré-selecionados treina em São Paulo ou fora do País
Filipe Cavadas / ABr
Atletismo

Estádio de Atletismo Célio de Barros, no Rio de Janeiro

Como forma de protesto pelo fechamento, há mais de um ano, do estádio de atletismo Célio de Barros, cerca de cem pessoas participaram de uma corrida em torno do local no domingo 9. Segundo os atletas, o Rio de Janeiro, sede dos Jogos Olímpicos de 2016, não possui espaços públicos adequados para treinamento do atletismo, o que promove uma fuga de talentos.

O Célio de Barros seria demolido para dar lugar a um estacionamento no Maracanã, como parte do projeto de privatização do estádio de futebol. Após protestos contra as obras no ano passado, o governo do estado voltou atrás e afirmou que o Célio de Barros, assim como outros edifícios do entorno do Maracanã, seriam mantidos.

A demolição, entretanto, já havia sido iniciada, e a pista, destruída. Desde então o estádio segue fechado. O espaço estará disponível para uso da Fifa durante a Copa do Mundo e só depois será reformado, mas ainda não há previsão do início das obras.

Segundo o ex-atleta olímpico e hoje técnico de atletismo Nelson Rocha, o Célio de Barros era o único estádio no estado Rio onde era possível realizar uma competição com todas as modalidades do esporte.

"Os atletas precisam competir. É importante na preparação", diz. Presente no protesto, Nelson destacou a necessidade de um "modelo de esporte". "Falta o poder público fazer a sua parte. Hoje os atletas não têm onde treinar. O garoto é revelado e não sabe o que fazer depois. Isso é um roubo das aspirações das pessoas."

Sua filha, Evelyn dos Santos, que competiu em atletismo nos Jogos de Pequim e Londres, treina hoje em Miami, nos Estados Unidos, por meio de um programa do Comitê Olímpico Brasileiro. Antes de deixar o país, a esportista já havia se mudado para São Paulo em busca de melhores condições. Em preparação para Rio 2016, ela diz que o fechamento do Célio de Barros é "inadmissível".

"O atleta não tem investimento no Rio e agora também não tem o principal estádio de atletismo. Acho que a ideia é que não tenham representantes do Rio competindo nos Jogos de 2016", afirma Evelyn, que apesar de ter treinado pouco no Célio de Barros, reconhece a importância do centro para o esporte.

Para o presidente da Federação de Atletismo do Estado do Rio de Janeiro, Carlos Alberto Lancetta, a interdição do Célio de Barros já prejudicou o desempenho dos atletas, que buscam se realocar em outras cidades. "A metade dos esportistas de atletismo do Rio pré-selecionados para a Olimpíada de 2016 treina em São Paulo ou fora do país", afirma.

Engenhão

Em nota, a Secretaria de Estado de Esporte e Lazer afirma que os esportistas foram realocados para outros espaços. "Os cerca de 250 alunos e atletas que realizavam aulas e treinamentos no Célio de Barros passaram a utilizar o Estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão."

Outras opções usadas são algumas estruturas do Exército e da Aeronáutica, bem como parques e vias públicas, como a Quinta da Boa Vista. A solução, entretanto, está longe de ser satisfatória.

"Há uma precariedade enorme. Os horários são muito limitados, porque não são espaços públicos feitos para isso. O Exército, por exemplo, tem uma série de restrições no uso das instalações. Outro problema é que agora as pessoas ficam dispersas, enquanto o Célio de Barros era o local central", defende Lancetta.

Edneida Freire, treinadora de atletismo de projetos sócio-educativos, afirma que o Engenhão também apresenta muitos empecilhos. "Se o time do Botafogo precisa treinar, nós somos expulsos", afirma.

Edneida ressalta que o estádio está interditado para o reforço da cobertura desde junho do ano passado, e que as obras também prejudicam o treinamento. A Secretaria de Estado de Esporte e Lazer afirma, porém, que a interdição do Engenhão não afetou os alunos e atletas.

Improvisos

Outro problema apontado pelos atletas é que muitos dos espaços oferecidos como alternativas ao Célio de Barros não permitem a prática de determinadas modalidades. "Não são estruturas adequadas. Atletismo não é só corrida. No Engenhão, por exemplo, tem a pista, mas faltam os equipamentos para lançamento, arremesso, saltos e obstáculos", argumenta Edneida.

Desde o fechamento do Célio de Barros, as atletas Marcele da Cruz, e Louise Kênia, ambas de 17 anos, sofrem com a precariedade e têm de improvisar nos treinos. "Tenho usado bolas de meia, cheias de areia, para substituir as bolas de peso, e faço aviõezinhos de papel para treinar a prova de dardos", explica Marcele, que treina desde os 10 anos de idade.

"Foi muito ruim quando o estádio fechou. Ficamos na rua. Eu treinava cinco horas todo dia, menos domingo. Estava em um momento muito bom, mas já regredi muito", lamenta.

"Outro dia uma menina estava treinando na Quinta da Boa Vista e um dardo ficou dias preso em uma árvore", diz Edneida.

Marcele e Louise desejam ir para São Paulo, se tiverem a oportunidade. "Não vou desanimar da minha carreira", conta Louise, que já fez um teste em uma equipe paulista e aguarda o resultado, ansiosa.

Construção

Quem não pode sair do Rio aguarda com preocupação a reabertura do estádio. "Há uma determinação judicial para reconstruir o local tão logo acabe a Copa do Mundo, mas eles ainda têm 12 meses para a fazer a reforma, ou seja, pode ficar pronto só em 2015, a um ano da Olimpíada", afirma Carlos Alberto Lancetta, da Federação de Atletismo.

A Concessionária Maracanã S/A afirma, em nota, que o projeto básico já foi apresentado ao governo. "Após a aprovação do projeto básico do complexo esportivo do entorno do estádio pelo governo do estado, o Maracanã tem novo prazo para desenvolver o projeto executivo de intervenção nas estruturas contempladas, dentre elas o Estádio Célio de Barros. As reformas começarão a partir da validação do projeto executivo pelo governo."

Autoria Marina Estarque, do Rio de Janeiro
Edição Rafael Plaisant