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Se não ele, quem?

por Matheus Pichonelli publicado 03/04/2012 18h33, última modificação 03/04/2012 21h53
De futuro melhor do mundo, Robinho se tornou a cara do futebol brasileiro: bom e respeitável, mas à sombra das grandes potências
robinho

Foto: Josep Lago/AFP

Não foram só o Milan e a escola italiana de futebol que saíram derrotados no duelo contra o Barcelona na Copa dos Campeões. O jogo marcou o encontro entre um mega-jogador e um quase-mega-jogador. Durante anos, e cada um a seu tempo, Robinho e Messi foram lembrados como as futuras grandes promessas do futebol mundial. Dizendo assim, parece que apenas um vingou. Não é verdade: só um entrou no seleto grupo dos gênios da história – algo que no futebol somente Pelé, o maior de todos, Maradona, Garrincha e Di Stefano podem se dar ao luxo de dizer que alcançaram.

Quando despontou para o futebol, Robinho era uma jovem promessa num terreno consagrado, que acabava de trazer o pentacampeonato na Copa do Japão e Coreia. Era a futura promessa entre nomes carimbados como Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos. Era questão de tempos para se tornar um deles.

Se tudo corresse bem, seria hoje o maior jogador brasileiro em atividade ao lado de Kaká. E é: aos 28 anos, é titular de um dos maiores clubes da Itália, amadureceu, aprendeu a marcar e trocar passe, a fazer gol com os dois pés, com a cabeça. Já não é o magrelo atrevido que reinventou a pedalada no Santos. Mas tem no currículo duas Copas do Mundo – a última, com boa atuação, ofuscada por uma eliminação precoce –, dois títulos do Campeonatos Brasileiros como protagonista e passagens irregulares pelo futebol espanhol e inglês. Se não tivesse deixado o Brasil, era capaz de levar a Bola de Ouro da revista Placar durante dez anos seguidos.

Em um rápido retorno ao País, atuou como o ponto de referência da equipe que lançou Neymar e Ganso à categoria de principais atletas brasileiro da atualidade. Com Robinho ao lado, os dois – junto com as então promessas André e Wesley – se soltaram, ganharam asas e títulos, como o Paulista e a Copa do Brasil daquele ano.

Na seleção, foi um dos poucos atletas que se salvaram na última Copa América, quando Neymar e Alexandre Pato sumiram em campo. Na competição sul-americana anterior, em 2007, só não fez chover: foi artilheiro e peça-chave do time que venceu a Argentina na final.

Hoje, não é lembrado nem para o banco de reservas da seleção. E ele, que já foi referência do futebol-arte nacional, não faz sombra aos dribles do encapetado Messi, atacante quatro anos mais novo que coleciona recordes, gols e aplausos. Messi é assombroso e seria covardia comparar qualquer jogador da atualidade a ele.

Mas a distância que os separa chega a provocar melancolia. Robinho, que falava como futuro melhor do mundo em 2002, quando estourou, nunca alcançou o posto. É provável que nunca alcance.

Tem ainda muita bola para gastar, mas já ouve de torcedores e imprensa esportiva especializada o título de “a grande farsa” já produzida pelo futebol brasileiro, dada a distância entre o que se esperava dele e o que conquistou.

Por que era o homem certo na hora errada (não fosse o Barcelona, o Milan seria fatalmente o favorito para ganhar a Europa e o Mundo; e todos os jornais estampariam a foto do “nosso homem na Champions League” uma hora dessas)? Pode ser.

Mas há algo mais cruel no futebol que explica o (não) fenômeno Robinho. No documentário “Coração Vagabundo”, Caetano Veloso se queixava de jamais ter conseguido se livrar da música “Alegria, Alegria”. Durante anos, cantou e produziu muita coisa, mas, segundo sua queixa, é ainda muito associado à famosa cria. É como se a obra falasse sempre mais que o artista.

No caso de Robinho, seu maior lance foi produzido ainda jovem, quando, aos 18 anos, pedalou três vezes diante do volante Rogério, do Corinthians, em plena final do Brasileiro, cavou o pênalti, converteu e abriu caminho para o primeiro título de expressão do Santos da era pós-Pelé. O lance produziu duas vítimas. A mais notável foi Rogério. Antes de levar aqueles dribles e fazer o pênalti, era ídolo no Corinthians por ter feito o gol de falta que deu o disputado título do Rio-São Paulo para o Corinthians contra o São Paulo; antes, já havia se consagrado no rival Palmeiras, com títulos do calibre da Libertadores de 99. Para o torcedor, não importava: seria sempre lembrado como o volante que não parou Robinho.

O mesmo Robinho que jamais se livraria daquele lance: não importa o que produziu desde então, e não produziu pouco. Seria sempre lembrado como o atleta que jamais foi capaz de reproduzir um lance tão plástico e tão contundente.

É aí que mora a crueldade. Desde aquelas três pedaladas, Robinho se tornou um ótimo atacante. Chegou ao nível de Ronaldo? Não. Chegará um dia? É pouco provável.

Nada disso tira seu título de grande atacante.

Como Rubinho Barrichello - ótimo piloto de Fórmula 1 até hoje apedrejado por herdar o título de principal nome brasileiro do esporte sem jamais chegar aos pés do antecessor, Ayrton Senna - Robinho corre o risco de entrar para a história como o grande atleta que o Brasil nunca teve. (leia mais sobre Rubinho clicando ) Seria, mais que um exagero, uma injustiça.

Robinho é um grande atleta da elite do futebol, mas não de sua história. Bem diferente de Messi, que instaurou seu reinado e só é comparado aos grandes gênios – a Copa de 2014 provará se é ou não melhor que Maradona.

Ainda assim, Robinho está muito acima de tudo o que o Brasil produziu desde 2002, à exceção de Neymar, que ainda não mostrou saber jogar sem a camisa santista.

Robinho é bom e respeitável, mas está à sombra das novas grandes potências estrangeiras surgidas desde 2002. É a imagem do próprio futebol brasileiro.

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