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Sociedade

Juventude conectada

"Se a história é nossa, deixa que a gente escreve"

por Ricardo Rossetto — publicado 12/06/2013 15h24, última modificação 12/06/2013 23h54
Indignado com o jornalismo convencional, Enderson Araújo fundou em 2010 o Mídia Periférica para mostrar, sem estereótipos, o cotidiano da periferia de Salvador
Divulgação
Enderson Araújo

Enderson Araújo é co-fundador do Mídia Periférica

Imagine um jovem de uma comunidade periférica de Salvador que tem como sonho ser jogador de futebol. Ele não consegue progredir na carreira porque a mãe solteira não teve condições de mantê-lo no clube. Ele cresce e vê a necessidade de trabalhar para ajudar a família – mãe e dois irmãos -, que sobrevive graças à ajuda de 92 reais de um programa do governo federal. Ele não consegue o primeiro emprego, pois as empresas exigem experiência para trabalhar. O garoto passa os dias em frente a uma boca de fumo, e perto da sua casa muitas pessoas usam drogas. Qual seria seu destino? O vício? O tráfico? Não para Enderson Araújo, de 21 anos.

Enderson contrariou aquele que seria o seu destino "esperado". E encontrou no direito à comunicação social a oportunidade de transformar a sua realidade e a de centenas de pessoas na comunidade de Sussuarana, periferia de Salvador, contando, por meio de imagens, vídeos e textos, a realidade cotidiana das periferias.

Tudo começou com a indignação de Enderson diante da forma como a mídia convencional retrata as comunidades, a partir de uma exploração sensacionalista que exclui a cultura das periferias e as usa como cenário para suas matérias recheadas de imagens de miséria e desgraças.

Foi em 2010, com as diversas oficinas do projeto de Direito à Comunicação e produção de vídeos em Sussuarana, realizada pelo Instituto de Mídia Étnica (IME), que Enderson descobriu sua vocação para a comunicação.

A partir daí surgiu o grupo Comunicadores Jovens Mídia Periférica, fundado por Enderson e duas amigas da comunidade, Ana Paula Almeida e Liege Veiga. “Pra mim, o Mídia Periférica é um punho no rosto da sociedade opressora, e particularmente no rosto daqueles que não acreditavam em mim, e que humilhavam a mim e a minha família por nos considerar um tanto inferior a eles”, explica Enderson, que se considera um “baita tagarela, que gosta de fazer muito pela comunidade onde mora”.

Trajetória empreendedora

Nascido em Sussuarana, aos 2 anos Enderson foi morar em Cajazeiras, bairro com mais de 600 mil habitantes em Salvador. Mas ele sempre teve um apego especial pela comunidade, onde passava os finais de semana na casa da avó. “Eu dava trabalho pra minha mãe porque não queria voltar pra Cajazeiras no fim do dia”, relembra.

Os primeiros registros do cotidiano de Sussuarana foram feitos com uma câmera digital – emprestada da avó dos finais de semana -, e as fotos viravam “videoslides” que ele postava no YouTube. “Mas eu achava que ficava muito ‘jogado’, do tipo ‘quem é que tá fazendo isso?’ Daí chamei uns amigos que faziam o projeto comigo para a gente trabalhar junto”.

Antes de a produção jornalística comunitária ser centralizada no site do Mídia Periférica todo o conteúdo alimentava diversos blogs, sempre postados de uma lan house. Às vezes, conta Enderson, ele tinha 5 reais no bolso, o suficiente para sair com a sua namorada ou passar algumas horas na internet alimentando as páginas com o material. “Ralava a semana toda como gari e às vezes rolava uma grana, e eu só tinha o final de semana pra fazer as postagens”, lembra o jovem comunicador, que só foi ganhar o primeiro computador no ano passado.

Enderson explica que depois do Mídia Periférica muita coisa mudou na sua vida. As ações que realiza, junto com outros jovens ativistas, são primeiramente para fortalecer as comunidades, e para mostrar às pessoas da periferia que eles não precisam burlar leis para revidar o “tapa na cara” que a sociedade lhes dá.

“A periferia é totalmente diferente daquilo que é mostrado, só com mortes, tráfico de drogas, marginalidade. Onde moramos tem senhoras que se reúnem para tricotar, fazer crochê, tem as crianças que batem uma pelada no final de linha ou empinam pipa enquanto os senhores de meia idade jogam dominó na praça ao fim de tarde”, conta.

Em grande parte, o sucesso do Mídia Periférica se dá pelas articulações que os jovens comunicadores estabelecem nas redes sociais, disseminando informação qualificada e possibilitando debates sobre os temas cotidianos das comunidades. Pela iniciativa, Enderson foi um dos dez jovens ‘empreendedores sociais’ que receberam a edição 2012 do Prêmio Laureate Brasil.

Assim, o Mídia Periférica é um contraponto. Enfrenta o racismo e pratica o empoderamento da juventude negra nas ferramentas de comunicação. Enderson dá o recado: “acredito que pra contrariar as estatísticas, basta o jovem ter vontade e oportunidade, que ele busque conhecimento e se articule. Se a história é nossa, deixa que a gente escreve!”.