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São Paulo inaugura primeiro centro de referência para imigrantes

por Deutsche Welle publicado 12/11/2014 10h59
Iniciativa é complementar ao abrigo já existente desde agosto. Objetivo é dar orientação jurídica, apoio psicológico e qualificação profissional para estrangeiros
Fábio Arantes / SECOM
Centro de imigrantes

Prédio na Bela Vista, região central, foi reformado na Bela Vista e dará prioridade aos imigrantes mais vulneráveis e recém-chegados ao país

Luison fala francês, inglês, português, árabe e lingala. O congolês, de apenas 19 anos, vai usar seu conhecimento em línguas – e sua experiência como refugiado no Brasil – para ajudar outros imigrantes, no novo centro de referência da prefeitura de São Paulo, inaugurado nesta terça-feira 11.

O centro, incluindo o espaço de acolhida – este já em funcionamento desde agosto – é o primeiro do tipo no país. Recém-aberto, o local já opera com sua capacidade máxima: 110 pessoas.

E os imigrantes, especialmente africanos e haitianos, não param de chegar. Somente do Acre, em média um ônibus por semana desembarca em São Paulo, segundo o secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania, Rogério Sottili.

A coordenadora de Política Externa da ONG Conectas, Camila Asano, alerta que o fluxo deve continuar intenso. Para ela, o número de vagas no novo centro é insuficiente para a demanda. “A prefeitura precisa já pensar em outros espaços”, diz.

A prefeitura admite que não há novos abrigos previstos. “A ideia não é abrir vários centros para imigrantes, mas fortalecer o trabalho deste, para que a rotatividade seja cada vez maior”, defende a secretária municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Luciana Temer.

Apesar da preocupação com o número de vagas, Azano elogia a iniciativa pioneira, que deve “servir de inspiração” para outras cidades. Até então, os abrigos públicos voltados para imigrantes eram provisórios, feitos apenas para lidar com situações emergenciais, afirma Asano.

É o caso de Brasileia, no Acre. Ali, próximo à fronteira com Bolívia e Peru, centenas de haitianos viviam em condições degradantes, com esgoto a céu aberto, em um abrigo público. O local foi fechado em abril deste ano, e a maioria dos imigrantes foi enviada para o sul e o sudeste em ônibus, gerando uma crise entre os estados.

Centenas chegaram a São Paulo e ficaram alojados em uma pequena igreja no centro da cidade. Posteriormente, foram levados também para o Abrigo Emergencial do Glicério, por onde passaram mais de 2.400 pessoas em quatro meses. O espaço foi fechado logo após a abertura do novo centro de acolhida, em agosto.

O intenso fluxo migratório no período, entretanto, evidenciou o despreparo da cidade para receber os imigrantes e a necessidade de um abrigo permanente.

De acordo com Sottili, passada a crise, o fluxo de haitianos já está mais organizado. “Nós promovemos, junto com o governo gederal e do Acre, uma discussão sobre isso. Nós pedimos que os haitianos já viessem de lá com a documentação preparada. E agora a maioria vem com a carteira de trabalho”, explica.

Orgulhoso do seu novo emprego, Luison circula feliz pelo centro de acolhida. O congolês mora na Mooca, bairro típico de imigrantes em São Paulo, e diz gostar muito do Brasil. “Quero estudar medicina e comércio exterior”, afirma, animado com a nova vida.

Luison vai atender a pessoas com histórias similares a dele – o jovem teve que fugir do Congo, após os pais serem assassinados por opositores políticos.

A conterrânea Gode-Frida-Mbombo Biduaya, de 58 anos, sequer consegue descrever o que se passou em sua terra natal. “É complicado”, diz ela, em seu português hesitante, deixando claro que lhe custa muito falar do assunto.

Ela explica apenas que o marido, perseguido político, não pôde acompanhá-la na viagem ao Brasil. Biduaya teve somente a companhia da sobrinha. As duas estão vivendo no centro de acolhimento há dois meses e procuram emprego.

Não há um limite de tempo para a estadia no abrigo. Mas quem trabalha com imigrantes se apressa em dizer que eles buscam sair o mais rápido possível.

“Muita gente acha que eles vão ficar para sempre no local. Isso é um absurdo. Ninguém vai para outro país para fazer a sua vida em um abrigo público”, critica Azano.

No centro, os coordenadores se orgulham da rotatividade. “Em dois meses, 68 pessoas acessaram o serviço e já foram embora. É um público muito diferenciado, que rapidamente circula”, explica Frei José Francisco, diretor do Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras), entidade conveniada da prefeitura e responsável pela gestão do centro.

“Elas vêm sem estrutura, porque chegaram em um país novo, mas com muita bagagem individual. São pessoas com curso técnico, formação profissional. Com o devido suporte, não correm o risco de cair em situação de rua e podem logo andar com as próprias pernas”, argumenta a secretária municipal Luciana Temer.

Um diferencial do centro em relação a outros abrigos é a oferta de serviços especializados para o imigrante. No local, será possível obter orientação jurídica, apoio psicológico, aulas de português e oficinas de qualificação profissional, bem como auxílio na emissão de documentos e na busca por trabalho.

A oferta de serviços visa “promover o acesso a direitos, bem como a inclusão social, cultural e econômica dos imigrantes”, segundo o coordenador de Política para Migrantes da prefeitura, Paulo Illes.

Na inauguração, o prefeito Fernando Haddad (PT) disse que a cidade foi “forjada por imigrantes” e a sua “força vem da diversidade cultural”.

“São Paulo tem muito a oferecer aos imigrantes, porque os imigrantes sempre ofereceram muito a São Paulo”, disse.

O espaço do abrigo também impressiona: uma casa antiga, de três andares, em tons de amarelo e laranja. O pátio interno é coberto por uma claraboia de vidro, que permite a entrada de luz natural.

“A fachada era tombada e estava muito deteriorada. Nós restauramos tudo e colocamos bastante cor, para ficar com a cara dos imigrantes, que são alegres, especialmente os africanos”, conta Frei José.

Os diversos quartos, com beliches, são aconchegantes, com roupa de cama nova e móveis bem cuidados. Os banheiros coletivos são amplos e limpos. O centro também conta com espaços de convivência, como o refeitório, sala de televisão, além das salas de atendimento.

O Centro de Referência e Acolhida para Imigrantes da Prefeitura de São Paulo (CRAI-SP) funciona das 8h às 17h e está localizado na Rua Japurá, 234, no bairro da Bela Vista, região central da cidade.

  • Autoria Marina Estarque, de São Paulo