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São Paulo, hexa

por Celso Marcondes — publicado 08/12/2008 18h21, última modificação 23/08/2010 18h22
As previsões do matemático Oswald de Souza ou de qualquer matemático pouco servem ao futebol, que é esporte em que múltiplos fatores se combinam e trazem muitas vezes o imponderável.

As previsões do matemático Oswald de Souza ou de qualquer matemático pouco servem ao futebol, que é esporte em que múltiplos fatores se combinam e trazem muitas vezes o imponderável. Esta aí parte da explicação a respeito da paixão que ele suscita em quase todo o mundo.

O São Paulo era favorito contra o Goiás e o Grêmio contra o Atlético Mineiro, ambos venceram, deu a dita lógica. Mas empates e derrotas de ambos poderiam ter acontecido, tal é o equilíbrio que existe hoje entre os times brasileiros, devastados pelo êxodo de nossos craques para o exterior e por péssimas administrações, como a do Sr. Eurico Miranda, que acabou de vitimar o Vasco da Gama.

Malas de dinheiro devem ter passado pelos aeroportos de todo Brasil, vinda de todos os lados, em vários jogos decisivos que aconteceram ontem. O afastamento do juiz Tardelli, horas antes do jogo, num episódio até aqui inexplicável, mostra bem o estado da coisa. Ingressos para o show da Madonna? Não seria para o do Radiohead?

Grêmio, Cruzeiro, Flamengo e Palmeiras poderiam ser campeões se segurassem a onda na reta final. Internacional também, se disputasse o Brasileiro com o time campeão da Sul-americana, com Alex, Nilmar e D’Alessandro. Fluminense também, se não tivesse sofrido o estresse pós- traumático depois da eliminação da Libertadores. E se todos estes não tivessem se desfeito de jogadores chaves durante o torneio. “Poderiam”, “se” tivessem feito isso ou aquilo. Não fizeram, o São Paulo tirou onze pontos de vantagem do Grêmio e não perdeu mais no segundo turno.

O elenco do São Paulo não é estelar, nem Muricy é sorridente, mas competente ao dirigir um elenco quase igual a vários outros. Rogério Ceni, Hernanes e Miranda são jogadores de seleção. Jorge Wagner e André Dias merecem uma chance. E no resto do time não tem nenhum cabeça-de-bagre. Compare com os demais elencos, só como exercício.

Quase todos os torcedores do Estado de São Paulo – que não é “locomotiva” do país coisa nenhuma, termo que só instiga a revolta do resto do País contra a falada arrogância paulista - torceram, como não poderia deixar de ser, contra o São Paulo, a favor do Grêmio, que não tem nada de “separatista”, com muitos gostam de falar dos gaúchos. Ao contrário, tem um time quase igual ao do São Paulo e uma torcida fantástica, talvez a que hoje em dia propicie os mais bonitos espetáculos nas arquibancadas.

Corintianos, palmeirenses, santistas e lusos torceram em massa contra o São Paulo. Nunca antes na história deste País, tantos secaram tão poucos. E tinha que ser assim mesmo, futebol é diversão, é paixão, é torcer a favor do seu time do coração (imagine, falamos “do coração!”) e contra o do vizinho e parente. “Secar” faz parte da brincadeira, até o mundo mineral sabe disso, como diria Mino Carta, que, diga-se de passagem, acabou de me contar que torceu contra o São Paulo.

Nós, são-paulinos, não somos nada humildes quando nos vangloriamos destes anos de hegemonia e isso atiça ainda mais a ira adversária. Como não eram humildes os santistas na era Pelé e na, infelizmente para os amantes do bom futebol, pequena fase Robinho. Como não foram humildes os palmeirenses na era Parmalat . Ou os corintianos nos belos momentos da “Democracia Corintiana” e nos não tão belos do senhor Kia.

Correntes pra frente, esta história de “todos somos Brasil” quando um time brasileiro disputa um jogo internacional, coisa que ouvimos sempre de locutores ufanistas, faz mal ao futebol e à saúde.

Como faz mal tratar o futebol como se fosse guerra, enfrentando o torcedor do adversário como inimigo. Ou ameaçando se atirar de alto do estádio de São Januário, de quando o time é rebaixado. Assisti a cena ao vivo, três minutos de estarrecimento.

Por fim, as comemorações do merecido título tricolor foram pacíficas, bem diferentes daquelas vergonhosas que detonavam a Avenida Paulista há alguns anos. Só são-paulinos comemoraram, com certo apoio colorado, do bravo Rio Grande do Sul, que hoje tem dois grandes times na parada.

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