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Crônica

Santo do pau oco

por Menalton Braff publicado 06/05/2016 03h56 Agliberto Lima
Como aqueles que carregavam ouro clandestinamente no século XVII, mídia nos empurra goela abaixo novos santos do pau oco
santo do pau oco barroco

Como no passado, novos "santos" surgem sem mostrar o que trazem por dentro

Às vezes também invento explicações, que é parte do ofício de escritor a invenção. Para evitar mal-entendidos, não falei em profissão, porque ofício e profissão têm lá suas diferenças.

O Osman Lins, quando lhe perguntaram a profissão na alfândega, estava embarcando para a Europa, declarou que era escritor. O funcionário consultou a lista, limpou os óculos e sorriu. Essa profissão não existe, ele decretou. Esse incidente ele relata em Marinheiro de primeira viagem, o livro que comprei num sebo e com o qual o autor apresentou-se a mim.

Mas esta minha contribuição às pesquisas de meu amigo Deonísio da Silva, juro por tudo quanto é santo (do pau oco ou não), não foi inventada. Eu a ouvi de um guia turístico ao visitar uma igreja de Ouro Preto.

Uns anos atrás, impregnado do pensamento iluminista, resolvi que deveria conhecer a cidade mais árcade do Brasil. E lá nos fomos, a Roseli e eu, a fim de percorrer as ruelas, visitar os becos, conviver com com fantasmas do século XVIII.

No período áureo do ouro, muita gente fazia contrabando para prejudicar o reinado de dona Maria, louquinha pelo vil metal. Bem, pelo menos comenta-se que era louquinha de qualquer jeito. Mesmo antes, no tempo de seu pai, D. José I, isso já vinha acontecendo. Isso, de uns caras quererem empobrecer a coroa ou, pelo menos, enriquecer clandestinamente a suas custas.

Uma das maneiras de passar o ouro para a Europa sem controles alfandegários era remeter para a metrópole santos de madeira fabricados na colônia. Em assuntos religiosos, os agentes da alfândega de Sua Alteza não interferiam. Mas lhe nutriam grande respeito.

Ninguém entendia as razões daquela fé febricitante, em pleno período da Ilustração. Saíam daqui navios carregados de santos e a rainha tinha ataques do mais puro prazer ao ver chegarem tantos santos à terrinha. Louca, hein! Ah, as espertezas da loucura.

O Fernando Pessoa, súdito seu que só viria a aparecer nos alvores do século XX, também andou falando da loucura que, sem ela o homem não passa de “besta sadia”. Mas isso veio bem depois. Por enquanto, fiquemos com a dona Maria, louca por metal nobre.

Até que um dia alguém desconfiou da tamanha religiosidade e resolveu abrir um santo antes que chegasse ao destino. No oco do santo, só dava ouro.

Me lembrei dessa história ao acompanhar, mesmo que de longe e passivamente, o que vem ocorrendo em nosso país. Quanto santo do pau oco a mídia nos empurra atualmente goela a baixo. E o pior é que grande parte da população se ajoelha e reza para esses santos sem imaginar o que eles trazem por dentro.

 

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