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Sambando na crise

por Maurício Moraes publicado 02/02/2016 14h44
O discurso de que devemos suspender a maior festa popular do País porque estamos em crise é demagogia à decima potência
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil / Fotos Públicas
Carnaval no DF

A respeitada revista britânica The Economist disse que o país está sambando à beira do precipício

Não é novidade que o Brasil está como um barco à deriva. A economia está em recessão, o sistema político a um passo do colapso, a corrupção desmedida dá o tom na imprensa de todos os matizes ideológicos, e, para completar a tragédia, ainda nos deparamos com uma epidemia de zika. Inferno astral?

É claro que não iria demorar para algum jornalista fazer uma relação com o atual quadro trágico e o Carnaval. Na edição desta semana, a respeitada revista britânica The Economist disse que o país está sambando à beira do precipício, traduzindo o cenário com preocupantes cifras de inflação, aumento de desemprego e detalhes da trama envolvendo a Petrobrás e a classe política.

O artigo foi honesto e o Carnaval foi só uma alegoria para retratar a crise brasileira. Fosse no meio do ano, trocar-se-ia Carnaval pelas Olimpíadas.

No embalo da publicação, o diplomata Alexandre Vidal Porto escreveu na Folha de S. Paulo que, infelizmente, nunca ouviu tantas perguntas sobre o Brasil nos últimos dias no exterior, pontuando os mesmos trágicos elementos expostos acima. Sua conclusão: não merecemos o Carnaval. 

Ora, ora… É sabido e compreensível que muita gente ache o Carnaval enfadonho e corra da festa. Mas o discurso de que devemos suspender a maior festa popular do país porque estamos em crise é demagogia à decima potência. Soa tão hipócrita como os prefeitos que resolveram cancelar a festa porque, em tese, estariam sem verba para custeá-la. 

Pegue-se o custo do Carnaval no orçamento desses municípios e, muito provavelmente, não atingirá 1% da rubrica. A atitude apenas reflete um carolismo tacanho de causar arrepios. A ultrareaça Rachel Sheherazade, que ficou famosa por um comentário contra o Carnaval, deve se sentir representada. 

É a terceira vez que moro fora do país. E a percepção é a de três Brasis diferentes. Na primeira, em 2006, eu era só um estudante de um país pobre, do futebol e do samba, que ninguém conhecia. Em 2012, o Brasil era a grande sensação, um país rico, um BRIC, com um presidente que todos sabiam o nome e que se projetava para o futuro. Agora, em 2016, o Brasil é uma grande interrogação. O pais que era para ter sido e ainda não foi. Que tem corrupção na Petrobrás e agora tem zika. O que aconteceu com o Brasil?, perguntam. 

Apesar das idas e vindas, o Brasil não mudou tanto. Continua sendo o mesmo país com uma desigualdade social tremenda (levemente diminuida), com uma elite que se acha intocável e merecedora de todos os privilégios, com os negros vivendo na periferia e correndo da polícia todos os dias, com o maior índice de assassinatos no mundo. Tem muito trabalho a ser feito. Fosse a folia o problema, já deveríamos ter suspendido o Carnaval antes mesmo de ele começar, lá pelos idos de 1500. 

Não se trata de relativizar o cenário nem negar a realidade. Volta e meia, aparecem memes "governistas" de estradas lotadas no feriado onde se lê: "Cadê a crise?". Ora, ora… a crise está por todos os lados e não enxerga quem não quer ver. Mas é prudente ter cuidado com o terrorismo midiático e político. Tampouco estamos vivendo o apocalipse dos memes da oposição. 

Quando meus colegas estrangeiros perguntam sobre a crise no Brasil, minha resposta pode soar otimista mas é no que eu acredito. Estamos na lama. Mas um país com um mercado potencial de 200 milhões de pessoas, rico em recursos, uma economia razoavelmente diversificada, grandes reservas financeiras e com instituições políticas e financeiras que, apesar dos maiores pesares, funcionam e estão em evolução… bem, este país não está tão lascado assim. 

Hora ou outra, independentemente de quem esteja no Planalto, o país voltará a crescer. A disputa política vai se dar sobre qual o tipo de crescimento e como dividir o bolo. Como superar a tragédia nossa que persiste. 

Talvez seja em virtude dessa mesma tragédia cotidiana que gostemos tanto do Carnaval. Seria a festa o ópio do povo (como as igrejas evangélicas o são no restante do ano para alguns não carnavalescos), a fluoxetina que faz o Brasil esquecer, ao menos por quatro dias, que o precipício pode estar alí, no fim do bloco? Se for, tudo bem. É mais barato que terapia. Por isso a gente merece sim o Carnaval (eu mesmo estou morrendo de saudade dos blocos regados a catuaba nas ruas de São Paulo).

E quem não gosta da festa, pode ficar em casa e fazer uma maratona de Netflix. Democrático assim. Com ou sem folia, a quarta-feira de cinzas é igual para todos, com zika, com crise, com Eduardo Cunha na presidência da Câmara, com o Brasil dizendo que é sempre Brasil.